Meio-dia em ponto, entramos numa sala com vista para rio no último andar de um hostel no Cais do Sodré. Com olhos de sono, acabado de chegar de Madrid onde atuou na noite anterior, as malas ainda por desfazer. Slow Magic, o homem mistério, aceitou falar com o Observador sem a máscara que lhe esconde a cara, o nome, a idade e a nacionalidade.

Disse-nos como se chama e de onde é, mas respeitamos o pacto que assumiu desde o primeiro momento, pelo que “mr. Slow” (foi assim, por graça, que iniciámos a conversa) será tratado pelo nome de palco que escolheu. Slow Magic é um artista introvertido. Desculpamos o cansaço de quem anda às voltas pelo mundo quase sem paragens, percorreu dez países em pouco mais de um mês de espetáculos.

Quando lhe perguntamos “quem é Slow Magic”, a resposta sai sem hesitação: “Não sei. É música, é arte, é o meu passado.” É uma coleção de experiências, que começaram cedo. Com apenas 5 anos de idade começou a tocar bateria, crescer numa casa cheia de instrumentos ajudou. “O meu pai era musico, cresci rodeado de guitarras, pianos e percussões. Nunca tive jeito para tocar guitarra, apenas para o piano e bateria”, mas nunca estudou música, é um autodidata, cresceu com um grupo de amigos e aprenderam juntos, por tentativa e erro. Quando subiram ao palco pela primeira vez, antes de Slow Magic ganhar a consistência que tem hoje, tocavam muito de improviso, “às vezes para apenas duas ou três pessoas”.

O “homem mistério” revelou-se nessa altura. Mas porquê? Por querer “separar a música da identidade ou da pessoa. A música é a primeira coisa. E visualmente, quando a apresento ao vivo, quero que as pessoas se concentrem apenas na música.”

Mas com uma máscara o efeito não é o contrário? Slow Magic acha que não. E insiste dizendo que não tem medo da imagem, que foi um desafio que impôs a ele próprio desde o início, o de tentar fazer algo de diferente. “Hoje em dia a imagem aparece muitas vezes à frente da música, e eu não quero isso”. E como é que as pessoas com quem lida reagem a essa vontade? Ao contrário do que se possa pensar, e apesar de a sociedade ser dominada pelo lado visual, diz-nos que as pessoas respeitam e ajudam na manutenção do anonimato. “Tiro muitas fotos mas sempre com a máscara, é mais fácil do que eu pensava”. E é confortável, porque “quando tiro a máscara posso circular à vontade no meio das pessoas sem que me reconheçam.”

É a primeira vez que está em Lisboa e a terceira em Portugal. Atuou no Porto em novembro de 2012 e no verão passado na Figueira da Foz, mas a sua relação lusitana começou há mais tempo. O álbum de estreia foi publicado por uma editora de Campo Maior chamada LebensStrasse Records. Já não se lembra bem dos detalhes, mas recorda-se que foi um dos primeiros contactos que recebeu depois de partilhar na internet três músicas (Corvette Cassette foi uma delas). Fez mais umas quantas e pronto, “foi muito fácil trabalhar com eles, e ainda por cima editavam em vinil”. Assim nasceu “Triangle” (2012), um disco muito bem recebido pelo público e pela crítica.

Slow Magic também é conhecido pelas remisturas que produz, colaborações que “às vezes começam com um email ou com uma mensagem”, amizades que se iniciam na internet e que acabam no palco em espetáculos ao vivo. E qual é o gatilho para fazer uma remix? “Quando não consigo parar de ouvir uma canção. E tem de ser boa. Às vezes as canções são demasiado perfeitas para sentir vontade de lhes mexer”, mas noutras encontra direções opostas, outros caminhos. É um processo intuitivo e simples.

Não temos razões para desconfiar de que as coisas às vezes são mesmo assim, simples, e resultam da reunião de vontades. Foi o que aconteceu certa vez em que foi abordado por um editor do canal de documentários National Geographic. Perdeu a memória do lugar, mas um dia foram ter com ele no final de um espetáculo e perguntaram-lhe se podiam usar uma das suas músicas num spot promocional.“O contacto direto foi importante para ultrapassar as questões dos direitos comerciais, mas eles foram tão simpáticos […] e pediram-me para dar um jeito ao tema para caber no spot. Foi magnífico ver a minha música associada àquelas imagens de animais e da natureza.” E com um bónus: o seu nome (e da música) aparece no canto inferior esquerdo do anúncio. Pequenas grandes coisas.

Parece contraditório para um artista que escolheu apresentar-se de máscara, mas Slow Magic confessa o fascínio que tem pela imagem. Está estampado no cuidado gráfico com que trabalha a sua presença na internet (página oficial e redes sociais). Gosta de desenho e fotografia, mas a música preenche-lhe todo o tempo. Contou-nos que tem como projeto fazer curtas-metragens e a respetiva banda sonora, claro.

E sobre qual vai ser a “banda sonora” esta noite no Musicbox, responde que ainda não fez o alinhamento. “Os meus espetáculos nunca são iguais. Mas vou tocar músicas do último álbum [“How To Run Away”], temas novos, remisturas and other stuff” (risos).

Vai ser um espetáculo com muita percussão, é garantido. Estará sozinho em palco, ele e a sua máscara. Mas trouxe uma amiga (também “anónima”) que o vai ajudar com a componente visual.

Mas “How To Run Away” (como fugir), de quê? “De uma vida chata. Gosto da ideia de fugir para novos lugares, experimentar coisas novas. É assim que tenho vivido desde que me apresento por Slow Magic.”

É um artista simpático, com voz e rosto. Até por uma questão de coerência com a música que faz, no fim da conversa mr. Slow passou sem esforço a mr. Magic. Vamos poder comprovar isso mesmo esta sexta-feira à noite, no Musicbox em Lisboa.

Pode ouvir o novo álbum aqui. Na fotogaleria pode ver alguns dos momentos vividos esta madrugada no Musicbox.

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