Dizer que o Alentejo está na moda pode parecer um understatement, uma vez que quase todo o país está na mira dos turistas. Mas a verdade é que a fama da região tem sido creditada pelos inúmeros prémios que, só em 2014, a puseram nas bocas do mundo. Bastaram 12 meses para que o Alentejo fosse eleito a “melhor região vinícola do mundo”, um dos 21 “melhores destinos para se visitar”, e para que o cante fosse reconhecido enquanto património da humanidade. Talvez por isso esta seja a hora de os Compadres meterem o bedelho onde são chamados.

Tal como o nome sugere, a nova iniciativa associada à Spira quer promover um turismo de proximidade, ainda que com recurso às tecnologias dos tempos modernos. Através de uma plataforma web e de uma aplicação para Android, os Compadres disponibilizam uma variedade de pontos de interesse nas áreas da natureza, indústria, arte, restauração e alojamento para que qualquer pessoa crie o seu próprio roteiro. E como funciona? O utilizador escolhe o que quer visitar, através de um mapa interativo, e os Compadres tratam das marcações, além de enviarem um caderno de viagem personalizado onde se inserem os conteúdos sobre os locais selecionados.

Em pleno espírito de aventura, o Observador submeteu-se à proposta de roteiro dos Compadres e descobriu oito segredos que agora ficam também do seu lado:

1. A pedreira com 14 pisos debaixo de terra

Pedreiras há muitas, mas a Plácido Simões, situada no flanco nordeste do anticlinal de Estremoz, desce mais de 80 metros em profundidade, num total de 14 pisos e 40 mil metros quadrados. Contas feitas, é uma vista que enche o olho, seja cá de cima ou na viagem de elevador que, neste caso, tem como guia José Simões. O curto “passeio” não é para fracos de coração e é desaconselhável a quem sofrer de vertigens — mas caso não se recuse a participar na excursão que tem como protagonista o “ouro branco do Alentejo”, como o mármore é por aqui chamado, pode sempre agarrar-se às estruturas de metal no interior do ascensor e respirar fundo, muito fundo. Ali perto há ainda uma pedreira inativa à qual os locais chamam de “Lagoa Azul do Alentejo”, dada a cor da água fazer lembrar a prima açoriana.

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2. A coleção de azulejos do Hotel Convento de São Paulo

“Não é preciso ser-se formado em História de Arte para mostrar uma coleção de azulejos”, diz Eduardo Bon de Sousa num tom descontraído. O diretor do convento erguido no século XII tem por hábito receber quem por aqui passa. Entenda-se por “aqui” um hotel rural de 40 quartos escondido na Serra d’Ossa e apenas acessível depois de percorridas curvas e contracurvas de alcatrão, um autêntico museu ao vivo e um motivo de visita para quem tem na azulejaria uma paixão. Pelos seus corredores e divisões encontra-se a maior coleção privada do país, com cerca de 54 mil azulejos (alguns são exemplares do século XVIII e muitos apresentam referências religiosas). O guia improvisado, como quem diz Bon de Sousa, quer promover uma “cultura fora da placa”, pelo que fala de forma descomplicada, sem cair na tentação de debitar datas ou exercitar lengalengas de deixar os olhos pesados e os bocejos afinados. Mas não é só de história que se faz o espaço que, integrado num cenário serrano, serve-se de duas piscinas (uma só para adultos) e aposta em passeios pedestres ou ao comando de uma bicicleta.

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Hotel Convento de São Paulo / DR

3. A cortiça transformada em acessórios na Cortiçarte

O negócio é de família e remonta aos anos 1950. Mais do que uma oportunidade para pôr a conversa em dia sobre a importância da cortiça na região e no país (Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo), é também uma forma de perceber como a criatividade e a matéria-prima em questão conseguem (e podem) andar lado a lado. Na Cortiçarte, em Azaruja, fazem-se todo o tipo de produtos, de malas a carteiras, chapéus e até figuras religiosas.

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4. A fábrica onde se fazem chocalhos

O som inconfundível dá largas à imaginação ainda as portas da fábrica estão fechadas. Na Chocalho Pardalinhos, nas Alcáçovas, dá-se novo fôlego à arte secular de moldar o metal e talhar a madeira — a mesma que está na linha da frente para ser considerada Património Imaterial da UNESCO. O negócio de família, na terceira geração, tem como donos dois mestres chocalheiros que já levam 20 anos de experiência, Guilherme Maia e Francisco Cardoso. E são eles que convidam todo o curioso a entrar para que fique a par de como se faz o chocalho: desde as primeiras marteladas de ferir os ouvidos à colocação do badalo e afinação do produto final. “Se a propagação do som for muito rápida ou muito lenta é porque o chocalho não está afinado”, garante Francisco que, numa mão cheia de minutos, consegue dar forma a uma chapa de ferro — os olhos alheios facilmente se viciam nos gestos rápidos do mestre, mais eficiente que um cinematográfico Flash Gordon. As visitas são, por enquanto, gratuitas, mas num futuro próximo serão cobrados à volta de cinco euros, valor que é depois incluído num voucher de compra.

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DR

5. As pinturas da Ermida de São Neutel/ Santa Águeda

Está longe da civilização — se é que assim nos podemos referir a Vila Nova da Baronia — e envolta pelo típico montado alentejano. Para a visitar é preciso bater à porta dos caseiros, como quem diz os guardiões da Ermida de São Neutel (o nome de batismo passou para Santa Águeda após o terramoto de 1755). É Dona Edite que, no auge dos seus 60 e muitos anos, tem a responsabilidade de abrir a porta aos turistas que ali passam. Com uma planta quadrangular e abóbadas estreladas, a ermida é um bom exemplo de pintura mural ao reunir quatro campanhas distintas que têm nos santos os protagonistas do costume. Mas mesmo a olho nu, e sem referências culturais a fazer de suporte, a pequena igreja cativa pelos desenhos e as cores que sobrevivem até aos nossos dias.

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6. Os petiscos que acompanham o cante alentejano

Quando, por estas bandas, um coro de vozes salta para as ruas, é sinal de que ali há quem cante… o cante. “Dá-me um beijo morena, mas não tenhas pressa” é uma das modas preferidas do Grupo de Cante Coral Papa Borregos, um conjunto de homens que se reúne todas as sextas-feiras na sede da Rua da Pedreira, Alvito. O grupo tem 39 anos de existência, quase a completar 40, e não tem limites de idade, só de afinação — o elemento mais velho já conta 77 anos de vida e o mais novo com 17. Entre os seus 23 membros estão ainda três mulheres. No ponto de encontro dos Papa Borregos não há só cantorias, mas também petiscos cozinhados por mãos que, noutra vida, trabalharam de sol a sol — do habitual melão com presunto à sopa feita com ingredientes da horta, cremosa e com o poejo a fazer as vezes de um je ne sais quoi muito alentejano (sob marcação).

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7. A Casa Terreiro do Poço (e o jardim que cheira a jasmim)

A morada, Largo dos Combatentes da Grande Guerra, leva a imaginação para bem longe do que a Casa Terreiro do Poço realmente é: uma casa secular que ainda mantém algumas das suas características originais, como as abóbadas de tijolo-burro ou as pinturas murais que revestem alguns dos quartos, todos diferentes entre eles e decorados a preceito pelos anfitriões, Rita e João. Inserida no centro histórico de Borba, cidade reputada pelos seus vinhos e queijos, tem ainda uma piscina, uma horta biológica e um jardim que, volta e meia, vai cheirando (e bem) a jasmin.

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8. Os sabores da terra reunidos na mesma marca

TerriuS porque os ingredientes são da terra — do Alentejo, mais precisamente. Formada em finais de 2011, a empresa desenvolve novas formas de consumir e conservar os produtos endógenos da Serra de São Mamede, a mesma que acolhe, lá no alto, a vila de Marvão. Mas também aposta em novas culturas como a dos cogumelos, vendidos frescos, desidratados ou em farinha. Para que o público em geral fique mais familiarizado com os seus produtos, fazem-se workshops de cozinha na Quinta do Barrieiro: é possível acompanhar a confeção de receitas tradicionais, como as migas, e outras combinações mais arrojadas, como as fatias de pepino com queijo de cabra e mostarda de pimento. O almoço ou jantar está naturalmente incluído no programa, bem como uma conversa animada (e até apaixonada) de Rita Beltrão Martins, da TerriuS, sobre a gastronomia alentejana. 3 horas de duração, almoço e formação entre 70 a 80 euros por pessoa.

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O Observador viajou para o Alentejo a convite da plataforma Compadres.