É brincadeira comum. O “desculpa aí”, dito, cheio de ironia, por quem passa a bola pelo meio das pernas de alguém. Ou quando, com uma finta matreira, um jogador provoca um curto-circuito no corpo de um adversário e o deixa pregado à relva. Então e se, num jogo, uma equipa marcasse 46 golos e a outra, nenhum, a galhofa com os pedidos de desculpa seria muita. Fora dos jogos entre amigos, contudo, um resultado desses não orgulha os derrotados nem os vencedores. Por isso é que quem jogava pelo Tahiti, pelas Ilhas Fiji e por Vanuatu pediu desculpa. Mas Stan Foster não gostou e fez questão de lhes dizer.

O australiano viu a equipa que treinava perder por 30-0, 37-0 e 46-0. Em 270 minutos, a seleção dos Estados Federados da Micronésia deixou uma bola de futebol entrar 114 vezes na sua baliza. “Nunca peçam desculpa por terem feito o que fizeram. Os meus jogadores vão aprender com esta experiência. Com a nossa presença na prova, vocês vão depender da diferença de golos para avançarem para as finais”, disse, sem espinhas, a cada um dos três técnicos que, no final dos jogos, lhe deram um aperto de mão e um perdão pelo resultado. Mas esta era a única maneira de os jogadores aprenderam — “E acho mesmo que o fizeram.”

A voz de Stan Foster transborda de convicção. Atende-nos o telefone desde Port Moresby, capital da Papua Nova Guiné, depois de acertadas as agulhas da diferença horária (+10h) com Lisboa. Foi lá que, até esta sexta-feira, se realizaram os Jogos do Pacífico, competição que, pela primeira vez, contou com a Micronésia a jogar futebol. A equipa sofreu três goleadas das grandes, mas o treinador está cheio de orgulho. A conversa serve para explicar porquê. Meses antes da prova, os jogadores da Micronésia eram aldeões de pé descalço, que nunca tinha sequer saído da sua ilha. “Éramos rapazes a jogar contra homens, um David contra Golias, e os resultados mostram isso”, diz-nos, ao início, pouco antes de começar a contar o que custou formar uma equipa.

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Jogar à bola não é a mesma coisa que jogar futebol e Stan não demorou muito a perceber que, na Micronésia, há muito mais gente a fazer a primeira hipótese. O australiano está lá há três anos, desde que se inscreveu no Australian Volunteers International, um programa de voluntariado da grande ilha, que o enviou para dar uma mãozinha a desenvolver o futebol no arquipélago. “Numa das quatro principais ilhas [já agora, são Yap, Chuuk, Pohnpei e Kosrae] só jogam sete contra sete. Só uma tem campos de futebol de 11 e nessa até há alguns clubes, mas a maior parte dos jogadores são expatriados de outros países”, conta. O país, um aglomerado de mais de 600 ilhas perdido no meio do Pacífico, tem mais queda para o basquetebol e o voleibol.

Nos primeiros tempos, a missão do Senhor Foster era andar de ilha em ilha, a pregar em cada escola e a convencer miúdos a tentarem divertir-se com uma bola nos pés. “Passei vários meses a visitar escolas e a convidar vários jovens do ensino secundário para integrarem academias de futebol”, explica. A peripécia corria bem. Stan ia angariando fãs para a causa e as escolinhas de futebol iam brotando, aqui e ali, em algumas ilhas. Tão bem que, quando foi altura de voltar à land down under, o convidaram logo a regressar à Micronésia para tomar conta da seleção nacional do país. Aí já tinha uma ideia a germinar dentro da cabeça — formar uma equipa de desenvolvimento, cheia de jogadores jovens, para neles semear um projeto para o futuro.

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O treinador, nos seus 50 anos, careca, de sorriso fácil e bigode presente, começou então e ir à caça. “Passei algum tempo a viajar entre as ilhas e a selecionar os melhores atletas com menos de 23 anos. O que fiz foi submeter os jogadores de todas as ilhas a treinos físicos, de corrida, de controlo de bola e analisei as suas capacidades. Basicamente, escolhi os melhores entre os mais novos”, resume, descrevendo-nos o que parecia ser um treino de captação de miúdos. Entre as pouco mais de 100 mil pessoas do país, houve quem não achasse muita piada aos graúdos serem cortados desta seleção. Stan Foster pouco se importou: “Levei com muitas críticas por não escolher jogadores mais velhos, mas fi-lo olhando para o futuro, para o desenvolvimento do futebol na Micronésia.”

O australiano já sabia que a organização dos Jogos do Pacífico — que conta com 28 modalidades — tinha dito que sim à participação da equipa de futebol da Micronésia. Por isso, lá está, só homens até aos 23 anos é que poderiam ir à Papua Nova Guiné dar uns pontapés na bola. Aqui surgia outro imbróglio com o qual Stan Foster teve de contar. “Estes rapazes vêm de aldeias em ilhas remotas, a maioria nunca tinha saído de lá. Muitos nunca tinham visto elevadores ou escadas rolantes. Nem os sabiam usar. Foi com este tipo de coisas que tivemos de lidar. A maioria nunca tinha andado de avião antes. Quando vemos isto, mudamos completamente a nossa forma de encarar várias coisas na vida”, revela.

Antes da competição, a seleção foi até Guam, uma ilha vizinha ainda sob jurisdição dos EUA, realizar um estágio que, mais do que preparar, serviu para dar aos jogadores o que nunca tinha tido — chuteiras. “Os jogadores estavam espalhados por várias ilhas e só os juntámos em Guam, onde realizámos um estágio de duas semanas. A federação local forneceu-nos equipamentos e chuteiras, porque alguns jogadores nem sequer tinham botas”, confessa, num tom agradecido à federação do país que, há uns 20, 30 e 40 anos, estava onde a Micronésia está hoje e, em junho, venceu o seu primeiro jogo da história de apuramento para um Mundial (neste caso, o de 2018).

De pouco lhes valeu. Chegados à competição, sofreram 114 golos em três jogos. Ao intervalo do primeiro encontro da fase de grupos já perdiam por 21-0 e uma espreitadela no vídeo com excertos da partida mostra como isso foi possível. Quem jogava pela Micronésia parecia estar perdido no relvado, desorganizados e, muitos deles, impávidos por não saberem o que fazer num campo de futebol tão grande. “As suas caras não enganavam, estavam arrasados depois de perderem por 30-0 [contra o Tahiti]. Disse-lhes que faziam parte de uma equipa de desenvolvimento, que não havia expetativas, que estavam a jogar a um nível muito superior ao que qualquer um deles tinha encontrado. Disse-lhes para tirarem lições de todas as partidas, para verem o que os adversários faziam e aprenderem com eles”, explica, sem remorsos.

Sofreram 33, 37 e 46 golos. No terceiro e último jogo da fase de grupos, por culpa das goleadas com que outros já tinham atropelado a Micronésia, a seleção de Vanuatu tinha de vencer por 37 golos de diferença para seguir em frente na competição. Em todos os jogos a história foi a mesma — o tempo servia para o adversário marcar um golo, a bola ir ao meio campo, perderem-na, e voltarem a sofrer. Mesmo assim, Stan Foster nunca desanimou e não também não via os seus a fazerem-no: “Tinham uma atitude positiva após as derrotas, tendo em conta a dimensão dos resultados. Muitos deles nunca tinham saído sequer da sua ilha. Estavam contentes por estarem na Papua Nova Guiné, a passarem por uma experiência inédita. Isso levou-lhes muito do sofrimento. Até estavam felizes por estarem ali.”

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Isto tinha tudo para roubar o recorde da Austrália que, em 2001, marcou 31 golos à Samoa, num jogo de qualificação para o Mundial de 2002 — é por estas e por outras que hoje o país compete na Confederação Asiática de Futebol, e não na Oceania. Não rouba porque a Micronésia não faz parte da família FIFA e apenas esteve nos Jogos do Pacífico por acaso. Mas esta história pode, em breve, passar a ser contada de outra maneira. “Por coincidência, alguns responsáveis da FIFA vão estar no mesmo voo de regresso à Austrália que vou apanhar. Vão analisar as hipóteses de iniciar o processo de filiação da Micronésia. Estamos a fazer figas para que possamos cumprir os critérios exigidos”, revelou Stan Foster.

O australiano não o esconde: está esperançado que, aberta a porta da FIFA, comecem a entrar euros e, sobretudo, técnicos na Micronésia. “Neste momento sou o único treinador com certificado FIFA na Micronésia, e só tenho o nível 2 de treinador, tirado na Federação Australiana de Futebol. É muito difícil continuar, sozinho, a fomentar o desenvolvimento do futebol em todas as principais ilhas”, argumenta. Talvez Stan puxe uns cordelinhos durante o voo e convença os enviados da entidade que rege o futebol mundial a aceitarem a entrada da Micronésia — algo que já rejeitaram várias vezes, avisa o The Guardian. Entretanto, a organização dos Jogos do Pacífico já confirmaram que o país voltará na edição de 2019. Até lá, Stan Foster acha que “os jogadores vão aprender com esta experiência”. Esperemos que sim.