Desde o início de 2014 a 30 de junho de 2015, a autoridade portuguesa do medicamento autorizou o tratamento com os dois medicamentos inovadores da farmacêutica Gilead (Sovaldi e o Harvoni) a mais de 5.400 doentes com hepatite C. O grosso destes tratamentos foi autorizado a partir de fevereiro deste ano, altura em que o Ministério da Saúde e a Gilead chegaram a acordo para a comparticipação dos dois fármacos. O Governo estima uma poupança de 166,2 milhões de euros em custos (evitados) com o tratamento das consequências da evolução da hepatite C.

“Foram autorizados, no total, 5.870 tratamentos para a hepatite C, dos quais 5.420 com os medicamentos Sofosbuvir (Sovaldi) ou Ledipasvir + Sofosbuvir (Harvoni), e os restantes 450 com outras terapêuticas”, respondeu o Infarmed ao Observador, na semana passada, sendo que só esta terça-feira esclareceu que, nos últimos seis meses, foram autorizados todos os pedidos efetuados pelos médicos. E foi precisamente neste período que foi autorizado o maior número de tratamentos, uma vez que antes de estar decidida a comparticipação a 100% pelo Estado português, o Infarmed apenas dava algumas autorizações de utilização especial destes fármacos, em casos excecionais.

Quanto aos doentes já curados, o Infarmed apenas afirmou que “ainda não há resultados quanto aos tratamentos bem-sucedidos, atendendo à conclusão recente dos mesmos”.

Em relação ao perfil dos doentes em tratamento, os homens “constituem a maioria dos tratamentos autorizados até à data (73,7%)” e a média de idades dos indivíduos ronda os 52 anos, sendo que a maior parte deles está em tratamento em unidades de saúde nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo (50%) e do Norte (31%). Mais de metade dos doentes que estão a receber tratamento (65%) encontram-se “num estadio de fibrose avançada (F4 e F3)”, detalhou, esta terça-feira, em comunicado, o Infarmed.

O acordo para a comparticipação destes dois fármacos chegou ao fim de um ano de negociações e contestação, a 6 de fevereiro. O que ficou definido foi que todos os doentes com hepatite C que necessitassem de tratamentos, estando num estadio mais ou menos avançado da doença, tivessem acesso a esta terapêutica, que tem uma taxa de cura superior a 95% e efeitos secundários diminutos.

Negociações difíceis, baixa do preço dos medicamentos e poupanças

Além de ter conseguido baixar o preço por tratamento, para menos de metade do originalmente pedido pela farmacêutica (48 mil euros), o ministro da Saúde, Paulo Macedo, acordou com a Gilead que só pagaria caso o doente ficasse curado. Ou seja, se o doente não ficar curado num tratamento, a farmacêutica oferece outro. Além do mais, o preço por tratamento vai descendo à medida que o número de doentes tratados suba.

Há cerca de 13 mil doentes com hepatite C em Portugal, mas nem todos precisarão de ser tratados com recurso a estes fármacos. Em fevereiro, fonte próxima das negociações disse ao Observador que dos 13 mil doentes reportados pelos hospitais, 7.000 a 8.000 iriam precisar destes medicamentos.

Segundo as conclusões preliminares de um estudo sobre o impacto deste programa de “financiamento vertical e política de acesso universal” aos dois medicamentos inovadores, o Governo conclui que o mesmo “resulta numa alteração sem precedentes na esperança de vida dos doentes com Hepatite C em Portugal e numa avultada diminuição da despesa pública”.

No presente cenário – do tratamento de cerca de 5.000 doentes até 30 de junho de 2015 – são “evitadas 2.184 mortes prematuras por razões hepáticas; há um aumento médio de 7,9 anos de esperança de vida; ganhos 39.740 anos de vida; são evitados 217 transplantes hepáticos, 1.200 carcinomas hepatocelulares e 3.204 casos de cirrose; e uma poupança de 166,2 milhões de euros em custos de tratamento das consequências da evolução da Hepatite C”, escreve o Infarmed em comunicado.

Novo fármaco a caminho?

Entretanto, no passado dia 24 de julho, a Merck & Co., Inc. (MSD) divulgou que a Agência Europeia de Medicamentos aceitou para revisão o pedido de autorização de introdução no mercado de uma nova terapêutica (grazoprevir/elbasvir), que ainda está em avaliação.

A diferença é que o grazoprevir/elbasvir está a ser avaliado em múltiplos genótipos da hepatite C, incluindo em doentes com a co-infeção VIH/hepatite C, doença renal crónica avançada, doenças do sangue hereditárias, cirrose hepática e doentes a receber terapia de substituição de opiáceos. Ou seja, tem um espetro de ação mais alargado.