É um novo dado que se junta ao rol de suspeitas do Ministério Público juntou sobre José Sócrates. Em causa estarão luvas recebidas pelo ex-primeiro-ministro do Grupo Espírito Santo (GES) por decisões políticas que terão favorecido os negócios do grupo de Ricardo Salgado. A notícia foi avançada pela SIC esta noite na abertura do telejornal das 20h.

Em causa estará a forma com o Governo de José Sócrates se opôs à OPA da Sonae sobre a Portugal Telecom, em 2006. Segundo noticiou a SIC, Sócrates terá dado instruções à Caixa Geral de Depósitos (CGD), onde Armando Vara já era o vice-presidente do Conselho de Administração (CA), para votar em sede de CA e na Assembleia Geral da PT contra a proposta do grupo de Belmiro de Azevedo. Voto esse que iria de encontro aos interesses de Ricardo Salgado, não só porque o líder do GES era o adversário mais feroz da OPA da Soane, como era o acionista que tinha maior interesse em manter o seu poder e influência sobre a operadora de telecomunicações. Recorde-se que o GES chegou a ser o maior acionista português de referência da PT.

Além do voto contra da CGD, o governo de Sócrates tinha ainda uma bomba atómica que ameaçou utilizar: a golden-share – acções especiais que conferiam poderes de veto ao Estado. Poderes especiais esses que foram anulados mais tarde em virtude de não respeitarem as leis europeias do mercado livre e da concorrência.

De acordo com as suspeitas do procurador Rosário Teixeira, o GES terá pago ‘luvas’ que alegadamente terão sido servido como contrapartida pelas posições do Governo de Sócrates e da Caixa Geral de Depósitos.

Segundo a notícia da SIC, terão sido detectados movimentos financeiros com origem no GES e que terão passado pelas contas de Joaquim Barroca, administrador do Grupo Lena e também arguido na Operação Marquês. Barroca, por seu lado, terá transferido os referidos montantes para as contas de Carlos Santos Silva. O que leva o MP a considerar que tais contrapartidas tinham como destinatário final José Sócrates.

Sócrates e Salgado negam tudo

A estação de televisão contactou José Sócrates, que terá negado qualquer interferência na posição da CGD e afirmado que apenas foi usado o voto de qualidade do Estado para travar a venda da Vivo. Posição esta em que alegadamente terá ido contra a vontade do GES. A posição oficial da assessoria de imprensa da defesa de Sócrates é a seguinte:

O Engenheiro José Sócrates nunca foi, em momento algum, confrontado com a suspeita de ter “recebido luvas” do Grupo Espírito Santo, por favorecimento em negócios, nem tal suspeita consta em parte alguma do processo. O Engenheiro José Sócrates ou o seu Governo nunca tiveram qualquer intervenção em decisões que favorecessem, de alguma forma, o Grupo Espírito Santo. É falso que, alguma vez, tenha o Engenheiro José Sócrates dado indicação à Caixa Geral de Depósitos, como acionista da Portugal Telecom, S.A. para votar, em qualquer sentido, decisões relacionadas com o Grupo Espírito Santo ou quaisquer outras. A única intervenção do Engenheiro José Sócrates, como Primeiro-ministro, foi, como é sabido, a utilização da golden share do Estado Português na Portugal Telecom, S.A., no veto à venda da VIVO, contra as pretensões e os interesses dos acionistas, de entre os quais o Grupo Espírito Santo. Não podemos, finalmente, deixar de assinalar a estranheza por esta tentativa, de criar novas suspeitas e novos ‘casos’, sem que, como é perfeitamente sabido, qualquer elemento dos autos a legitime. Parece que, perante a falência das teses que foram sucessivamente lançadas, designadamente de favorecimento do Grupo LENA e do Empreendimento de Vale de Lobo, se reúnem forças para oxigenar uma investigação em adiantado estado de putrefação”.

A assessoria de imprensa de Ricardo Salgado, por seu lado, emitiu a seguinte posição oficial em nome do ex-presidente executivo do BES:

A notícia sobre um alegado favorecimento do Grupo Espírito Santo por intevenção do dr. Ricardo Salgado junto de entidades políticas e absolutamente falso. Lamenta-se o facto de a SIC ter contactado a assessoria do Dr. Ricardo Salgado 15 minutos antes da divulgação da notícia, dando a mesma a entender que a alegada informação em causa teria sido veiculada por fonte do próprio Ministério Público”.

Recorde-se que esta não é a primeira vez que a OPA da Sonae aparece como uma matéria relevante para a investigação da Operação Marquês. Em outubro, depois do segredo de justiça interno ter sido quebrado por ordem do Tribunal da Relação de Lisboa, já tinha sido noticiado que o procurador Rosário Teixeira tinha chamado Belmiro de Azevedo, o líder histórico da Sonae, e o seu filho Paulo a depor como testemunhas no processo.

Por doença, Belmiro acabou por delegar a responsabilidade de transmissão da posição da Sonae em Paulo Azevedo. O presidente executivo da Sonae depôs durante mais de três horas, tendo explicado em pormenor a posição do grupo económico sobre a OPA falhada à PT.