Sobrancelhas arqueadas, bochechas repuxadas, lábios cerrados e ligeiramente inclinados. Estas são as características daquela expressão carrancuda e cética de quem nega. Reconhece a imagem, está a ver? Aquela expressão facial que fazemos quando dizem algo com que não concordamos! Acha que só os seus conhecidos a fazem? Desengane-se, a ‘cara de não’ é universal.

Uma equipa de investigadores descodificou essa expressão facial que sumariza a sensação de desagrado. Os investigadores acreditam que a expressão em causa é reconhecível por todo o mundo, tal como um sorriso. É uma forma de comunicar através dos músculos faciais que quebra as barreiras linguísticas e culturais.

O nome dado à expressão? ‘Cara de não’.

Os resultados da investigação foram publicados num trabalho intitulado A cara de não: gramatização das expressões faciais de emoção.

Segundo o estudo, a expressão é reconhecida e utilizada por falantes de diversas línguas distintas, como inglês, espanhol, mandarim, chinês e até linguagem gestual americana: estes, por vezes, acompanham a expressão com o gesto correspondente a “não”.

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linguagem gestual americana

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Aleix Martinez, um dos autores do estudo, considera que “esta é a primeira prova de que a expressão facial que utilizamos para transmitir uma opinião negativa é universal“. Martinez adianta que esta descoberta pode ajudar “a interligar o nascimento da linguagem com as expressões faciais“.

Quando questionado sobre o porquê de ter optado por provar uma expressão negativa, o investigador explicou que o decidira fazer porque Darwin acreditava que a habilidade de comunicar perigo ou agressividade foi um dos fatores cruciais para a sobrevivência humana. Antes de conseguir comunicar através da linguagem, o homem tinha de demonstrar as suas emoções através de gestos e expressões e que, caso existisse uma verdadeira expressão universal, seria mais fácil provar uma que fosse negativa.

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Darwin

A ‘cara de não’ surge como a representação facial de uma destas três emoções, ou de todas juntas: raiva, repulsa ou desprezo, todas estas expressões são consideradas negativas. Mas a ‘cara de não’ também surge em emoções “mistas, como expressões que juntam repulsa com ternura, expressão que pode surgir no pai que muda uma fralda ao filho”, por exemplo.

A recolha e análise de dados

Para testar a hipótese foi criado um grupo de análise com 158 estudantes da universidade de Ohio. Os sujeitos foram colocados frente a uma câmara digital e foram gravadas as suas interações com uma pessoa do outro lado do ecrã. As conversas foram feitas na linguagem nativa dos indivíduos.

Foram escolhidos entre quatro grupos específicos: falantes de inglês, espanhol, chinês-mandarim e linguagem gestual. O inglês foi a língua representante escolhida de entre as línguas germânicas, o espanhol foi a representante das línguas com raiz latina e o mandarim como uma língua asiática. Já a linguagem gestual americana combina gestos de mãos, cabeça e corpo, bem como expressões faciais para conseguir exprimir frases e palavras, como a maior parte das outras linguagens gestuais.

Com uma amostragem deste tipo, foi possível aos investigadores perceberem se a ‘cara de não’ era transversal à linguagem e ao significado de uma palavra. Um dos exercícios utilizados foi pedir aos observados que proferissem frases com uma parte negativa (exemplo: “Não vou à festa.”) para ver se a sua expressão se alterava quando proferiam a parte em causa.

Para conseguir obter estas partículas foram dadas aos estudantes perguntas que estes deviam proferir durante a conversa. Caso os estudantes se esquecessem das perguntas que deviam fazer, os seus interlocutores estavam instruídos a colocar questões que, muito provavelmente teriam uma resposta negativa, como “Um estudo mostra que as propinas deviam aumentar 30%. O que acha disso?”

A maior parte dos estudantes respondia com uma partícula negativa, o que permitiu aos investigadores encontrar marcadores gramaticais de negação, nas expressões faciais. Entre as reações faciais mais comuns encontravam-se o “franzir de sobrancelhas ‘enraivado’, o levantar das bochechas de ‘repulsa’ ou os lábios cerrados em demonstração de ‘desprezo'”. O estudo comprovou que os indivíduos exercitaram estes músculos nos movimentos descritos quando comunicaram frases negativas.

Nas pessoas que utilizavam linguagem gestual, houve três reações diferentes: às vezes gesticulavam a palavra “não” ou abanavam a cabeça. Mas muitos optaram por apenas fazer a ‘cara de não’. Esta foi uma nova descoberta dentro da linguagem gestual: muitas vezes os seus utilizadores em vez de usarem um gesto de negação, utilizam uma expressão facial.

A fase seguinte do estudo corresponde ao alargamento da base de investigação, com mais sujeitos de teste e mais ficheiros de vídeo. Este passo permitirá descobrir se a expressão é deveras universal e multicultural. Os investigadores pretendem continuar o estudo sobre a ‘cara de não’. E, mais tarde, tentar mapear outras expressões faciais que comuniquem emoções como a ‘cara de não’.

“Este é um trabalho para demorar décadas” afirmou Martinez, “nem todas as expressões são tão claras como a ‘cara de não'”.