Foram necessárias 20 horas para que Dilma Rousseff se pronunciasse sobre a abertura do processo de impugnação do seu mandato. Em seu primeiro discurso à imprensa, a presidente criticou de maneira mais direta Michel Temer, vice-presidente do Brasil, a quem acusa de “traição”.

É estranhamente inusitado, estranho, sobretudo, é estarrecedor que o vice-presidente em exercício do seu mandato… [pausa de cinco segundos] conspire contra a presidente abertamente. Em nenhuma democracia do mundo, uma pessoa que fizesse isto seria respeitada”.

Para Dilma, “a sociedade não gosta de traidor, porque cada um de nós sabe também que a injustiça e a dor que se sente quando se vê a traição no ato”. A presidente fez ainda referência à imagem divulgadas nas redes sociais em que Temer aparece, sorridente, a acompanhar o resultado da votação de domingo.

Nesta segunda etapa do processo, saio com a sensação de indignação pelo fato de que o rosto estampado na imagem que foi transmitida para o mundo é o rosto do desvio do poder, do abuso do poder, do descompromisso com as instituições e práticas éticas e morais”.

Dilma Rousseff qualificou o impeachment de “eleição indireta” e disse acreditar que “nenhum governo será legitimo sem ser por obra do voto secreto e direto”. Para a presidente, o processo “se usa de uma aparência de um processo legal e democrático para perpetuar o mais abominável crime contra uma pessoa que é a injustiça, condenar um inocente”.

Questionada sobre os motivos apresentados pelos deputados para votar a favor da abertura da sua destituição, Dilma afirmou que não viu “argumentos de ressentimentos de parlamentares”. “Eu vi na votação de ontem vários argumentos, geralmente pela família, por Deus, por várias outras pautas. Não vi uma discussão de ressentimento”.

Sobre os próximos passos do processo de impeachment, a presidente afirma que “ainda não considera” a discussão da comissão especial do Senado, responsável por aceitar formalmente o seu pedido de afastamento. O Supremo Tribunal Federal do país poderá ser acionado pela presidente para questionar regras que não estejam claras sobre o andamento do processo. “Nós não abrimos mão de nenhum dos instrumentos que temos para defender a democracia. Não se trata de judicializar processo, mas de exercer em todas as dimensões o direito de defesa”, explica. Dilma, no entanto, garante que terá uma relação diferente com os senadores do que com a Câmara dos Deputados porque “esta é a realidade política do país”.

A nomeação de Lula da Silva como ministro da Casa Civil também foi discutida com os jornalistas. Dilma espera que o Supremo Tribunal Federal suspenda a providência cautelar que impediu a posse do ex-presidente para que possa integrar o governo “ainda esta semana”. “Espero que ele possa vir a dar uma grande contribuição”, garante. Dilma afirma ainda que, após superar o processo de impeachment, “será necessário um grande rearranjo do governo no sentido de que vamos construir um novo caminho”.

O seu estado de ânimo? “Eu tenho ânimo, força e coragem suficiente para enfrentar essa injustiça, apesar de um sentimento de muita tristeza. (…) Nós estamos no início da luta, que será muito longa e demorada. Uma luta por todos os brasileiros, pela democracia”, conclui.