Cinco dias depois de ter sido condenado a quatro anos e meio de cadeia com pena suspensa, Paulo Pereira Cristóvão regressou esta quarta-feira à mesma sala do Campos de Justiça, em Lisboa, para ser julgado pelas mesmas três juízas que o condenaram. O antigo vice-presidente do Sporting acabou por entrar na sala ao lado — a única possível para sentar 18 arguidos acusados de associação criminosa e roubo agravado. Sentou-se e não olhou para nenhum dos arguidos. À juíza presidente, Marisa Arnedo, disse só prestar declarações quando considerasse “oportuno.”

Dos 18 arguidos, dois faltaram: um por estar doente, segundo a sua advogada, e o outro por estar em fuga. Segundo a juíza presidente, 48 horas antes de começar o julgamento, o arguido terá fugido de casa — onde se encontrava em prisão domiciliária. Durante a manhã, foi Celso “Kota” quem prestou depoimento. Mas, antes, pediu à juíza que os arguidos fossem retirados da sala. Diz que sentia medo de falar na sua presença. A juíza acedeu. Da parte da tarde, foi Mustafá que contou como foi aliciado por Pereira Cristóvão para uma “cobrança”. Seguiu-se o arguido Mário Lopes, que se mostrou arrependido por ter aliciado dois agentes da PSP para o crime.

“Pensava que era meio milhão, afinal eram 40 mil”

O dirigente da Juve Leo, Mustafá, disse esta tarde de quarta-feira em tribunal que aceitou “cobrar uma dívida” a pedido do então vice-presidente do Sporting, Pereira Cristóvão, porque este lhe falou em 1 milhão de euros. Esse valor seria dividido em partes iguais: meio milhão para Pereira Cristóvão e outro meio milhão de euros para Mustafá e para quem executasse a cobrança.

Quando o ex-inspetor da PJ lhe falou num valor tão elevado, Mustafá confessa que vacilou. Não lhe respondeu logo mas, três dias depois, acabaria por aceitar a proposta e deslocar-se com ele a casa do arguido Celso “Kota”– que conhecia o alvo em questão, um empresário de Cascais que ficara a dever 350 mil euros em dinheiro a um sócio.

Mustafá disse que havia sempre um intermediário entre ele e Paulo Pereira Cristóvão, porque este tinha “receio” de falar ao telemóvel e estar sob escuta. E foi através dele que foram combinando encontros para combinar o dia da cobrança. O dirigente associativo contou que pediu ao irmão, Paulo Alexandre, para fazer essa cobrança.

“Primeiro ele disse que não se queria meter nisso. Mas depois o Paulo Cristóvão insistia e eu também insistia”, recordou.

Paulo Alexandre acabou por aceitar. Disse que conhecia um “grupo de polícias” que podia fazer isso. Depois de alguns reconhecimentos ao prédio em Cascais, Pereira Cristóvão, Mustafá e o irmão acabaram por ficar nas imediações, enquanto quatro outros suspeitos – entre eles dois agentes da PSP – subiam à casa do empresário para “cobrar a dívida”. “Não sei como fizeram, se usaram violência. Sabia que eram polícias”, disse.

Segundo o despacho de acusação, um dos suspeitos ficou à porta, de arma apontada ao porteiro, em modo vigia. Os restantes subiram à casa do empresário, ameaçaram-nos com armas e acabaram por levar cerca de 80 mil euros e um fio em ouro que estavam num cofre.

Quando Pereira Cristóvão percebeu que havia “apenas” 80 mil euros no cofre, ainda insinuou que o restante teria sido roubado. Depois insistiu que se deslocassem a casa dele na Malveira para dividirem o produto da cobrança. “Ficou com 40 mil euros e deu-nos o resto. Queimou uns cheques num balde. E disse que em breve teria uma cobrança na Avenida do Brasil de 3 ou 4 milhões de euros para compensar”, disse Mustafá.

Dias depois, Pereira Cristóvão forneceu-lhe a morada da casa. Mas quando os executantes lá chegaram, levantaram o soalho de tacos todo e nada encontraram.

“Eu fui ter com ele e disse-lhe que assim não dava, que ele o estava a por numa situação complicada. Ele ainda tentou falar-me de uma situação do Algarve, mas para mim acabou. Afastei me completamente, embora ele depois tenha ido ao aniversario da minha filha”, disse Mustafá.

Paulo Pereira Cristóvão olhava para um bloco de notas e ia escrevendo o depoimento do dirigente associativo. No início do julgamento disse que só falaria em tribunal depois de considerar “oportuno”.

“Tenho medo de Paulo Pereira Cristóvão”

Chegou ao tribunal algemado, porque cumpre pena no âmbito de outro processo, e não falou com nenhum outro arguido. Celso Kota, como é conhecido, disse ao coletivo de juízas que queria falar. Mas com uma condição: que os restantes 17 arguidos, suspeitos de associação criminosa e roubo agravado, abandonassem a sala. “Tenho medo de Paulo Pereira Cristóvão e da sua influência”, disse, durante a primeira sessão de julgamento esta manhã de quarta-feira.

Celso foi um dos dez arguidos que se mostrou disponível para prestar declarações sobre os crimes de associação criminosa e de roubo agravado de que vem acusado. Mas, assim que se levantou e se aproximou do microfone, a sua advogada interveio.

“A defesa requer, a pedido do arguido, que os restantes coarguidos sejam afastados da sala, porque o arguido sente temor e condicionalismo na presença dos restantes arguidos. E condicionará a espontaneidade do depoimento”, disse a advogada.

Ninguém se opôs, mas à saída da sala, alguns arguidos deram sinal aos amigos que estavam na audiência para ouvirem com atenção o que Celso dizia.

A certa altura, o advogado do antigo vice-presidente do Sporting e ex-inspetor da PJ, Pereira Cristóvão, perguntou ao arguido porque, afinal, sentia tanto “medo”. Paulo Farinha Alves não percebia como é que Celso “era tão amigo de Pereira Cristóvão” e, agora, estava tão aterrorizado. “Porque ele entrou para a Ordem dos Templários e disse que era uma pessoa muito influente. E eu tenho a minha mulher e os meus três filhos lá fora sozinhos. Eu estou preso”, justificou.

O advogado Farinha Alves perguntou-lhe se sabia o que era a Ordem dos Templários. “Não sei, ele só me disse que para entrar se pagava mil euros e que eram só pessoas influentes. Não sei para que serve”, respondeu.

Durante o seu depoimento, Celso explicou como começou a amizade com Pereira Cristóvão, em 2012, “Éramos muito amigos. Ele ajudou-me muito. Pagava-me a água e a luz e fazia compras lá para casa”, diz. Admitiu que foi ele quem o apresentou ao empresário Cristiano — um empresário assaltado em Cascais — pensando que podiam fazer negócios com o passe de um jogador do Sporting. Ficaram todos amigos.

Em 2013 Celso ficou preso em casa, no âmbito de um processo por tráfico de droga. E foi ali que, durante um almoço com o amigo Pereira Cristóvão, apareceu o empresário Paulo S. “Ele disse que precisava de ajuda para que Cristiano lhe devolvesse o dinheiro que tinha investido em negócios do Brasil.” Em causa estavam 350 mil euros em dinheiro e um apartamento que já estava no nome de Cristiano.

Celso disse que nada podia fazer e que Pereira Cristóvão se ofereceu para cobrar aquele valor. “Não sei o que fizeram de seguida, não tenho nada a ver com isso. Estou a cumprir pena por tráfico de droga porque cometi um erro no passado. Só mais tarde soube que Cristiano tinha sido assaltado. E a partir daí todos se afastaram de mim”, disse.

A juíza perguntou-lhe como tinha, então, recebido 20 mil euros – que a acusação diz ter sido o valor proveniente do assalto a casa do empresário de Cascais. Ele diz que nada recebeu. “Recebi um prémio de 5 mil euros de um trabalho que faço para Angola, de cabazes de Natal para generais. E foi com isso que paguei 12 meses de renda”, justificou.

A juíza disse-lhe que havia “contradições”. Como podia ele passar fome e depender de Pereira Cristóvão para lhe fazer compras, para depois pagar 12 meses de renda. “Assim garantia um teto para os meus filhos”. Mais à frente, acabou por dizer que recebia ajuda de vários amigos, entre eles da própria Kátia Aveiro, irmã de Cristiano Ronaldo, ou da ex-mulher de Simão Sabrosa.