Cultura

Lisboa repensa o colonialismo no ano em que é Capital Ibero-americana de Cultura

Programação foi apresentada esta terça-feira e arranca a 7 de Janeiro com homenagem a Pixinguinha e exposição sobre chegada dos europeus ao México. Conheça algumas das 150 propostas.

Autor
  • Bruno Horta
Mais sobre

O comissário-geral da programação e a vereadora da Cultura da Câmara Municipal reconheceram que a programação apareceu em tempo recorde. Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017 foi concebida num “curto espaço de seis meses”, disse Pinto Ribeiro durante a apresentação pública, terça-feira ao fim da manhã no Teatro Municipal São Luiz. “É inédito termos a programação fechada com esta antecedência, foi uma experiência inédita” para o comissário, acrescentou Catarina Vaz Pinto.

O evento arranca a 7 de janeiro com a exposição “Al Final del Paraíso”, do mexicano Demián Flores, no Padrão dos Descobrimentos. Um trabalho inspirado nas crónicas do missionário espanhol Bartolomeu de Las Casas sobre os nativos do México. Também no dia 7, no São Luiz, terá lugar um espetáculo de homenagem a Pixinguinha (1897-1973), o célebre músico brasileiro que misturava a cultura africana e brasileira. O músico e arranjador Paulo Aragão vai dirigir sete instrumentistas neste espetáculo.

O mesmo espaço acolhe, naquela mesma noite, o concerto “Canções para uma Festa”, com vozes jovens: Gisela João, por Portugal; Mariela Condo, pelo Equador; e Yomira John, pelo Panamá. Pinto Ribeiro – programador e ensaísta, até ao Verão de 2015 responsável pelo programa “Próximo Futuro” da Fundação Calouste Gulbenkian – , disse que a programação assenta em quatro temas principais: a questão indígena, os afrodescendentes, as migrações e o pensamento contemporâneo.

A questão indígena é uma questão de fundo, porque atravessa os 600 anos da relação entre Portugal e as Américas”, frisou. “Não é uma questão do passado. Os europeus tiveram com os africanos uma posição de arrogância, mas em relação ao índios, pelo contrário, houve uma reação ambígua, até porque havia um imaginário de paraíso” ligado aos territórios que habitavam, explicou Pinto Ribeiro. “Esta é uma questão do presente e que hoje tem novamente, na América Latina, grande importância”.

Daí que o Teatro Maria Matos, durante o mês de maio, receba o colóquio “Questões Indígenas: Ecologia, Terras e Saberes Ameríndios”, programado por Liliana Coutinho, com consultoria de Susana Matos Viegas.

Ainda neste âmbito, o antropólogo Pedro Niemeyer Cesarino, sobrinho-neto do arquiteto Oscar Niemeyer, é curador de uma exposição com 60 desenhos feitos entre 2004 e 2009 por três xamãs do Amazonas. “É uma coleção única no mundo que ele teve a generosidade de partilhar”, comentou Pinto Ribeiro. A exposição intitula-se “O Tempo Desenhado: Iconografias de um Povo Ameríndio da Amazónia”, e vai estar de junho a agosto na Galeria Millennium BCP.

Entre muitos aspectos, o comissário-geral deu destaque a:

  • exposição “Visão Yanomani”, de Fevereiro a abril no Arquivo fotográfico Municipal, com fotografias de indígenas feitas pela brasileira Claudia Andujar e pertencentes ao Centro de Artes de Inhotim;
  • exposição do mexicano Héctor Zamora, de março a maio no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT);
  • em maio, no São Luiz, peça “Vigilia de Noche”, do argentino Daniel Veronese, “o homem que inventou o teatro argentino contemporâneo”, classificou Pinto Ribeiro;
  • exposição “Racismos”, em Maio, no Padrão dos Descobrimentos, com curadoria do professor universitário Francisco Bethencourt;
  • exposição de máscaras mexicanas, cerca de 300, no Museu de Lisboa, de julho a outubro;
  • estreia mundial, no Teatro Camões em novembro, de um solo criado pelo coreógrafo sevilhano Israel Galván para Carlos Pinillos, bailarino principal da Companhia Nacional de Bailado;
  • também em novembro no Camões, versão do solo “Chaconne” do mexicano José Limón (1908-1972), descrito como “nome de referência na história da dança do século XX”;

“Uma capital cultural é pretexto para realçar a importância da formação da massa crítica e da difusão da questão cultural, que não são os livros, os filmes, os espetáculos, mas o que daí decorre na produção de conhecimento”, afirmou Pinto Ribeiro.

Num vídeo promocional apresentado aos jornalistas na terça de manhã, Lisboa é descrita como “cidade hospitaleira, solar, de abrigos, de encontros”, pelo que este acontecimento visa “nomear o passado dos africanos e americanos que por aqui passaram ou se fixaram” e “resgatar a memória de emigrantes e imigrantes.”

Para chegarmos a esta programação, seguimos uma lógica de capitalização da oferta cultural existente”, referiu Catarina Vaz Pinto, durante a apresentação à imprensa. Se as propostas se multiplicassem, disse, a cidade “não teria capacidade de absorver excesso de oferta” de programação cultural.

A vereadora referia-se ao facto de Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017 ter um programa muito assente naquilo que são os ciclos normais dos espaços de cultura da cidade, agora conjugados sob um tema comum.

Estão envolvidos mais de 40 equipamentos culturais públicos, além de organizações culturais. Em termos de custos, implica um milhão e meio de euros, em logística e comunicação, a acrescentar ao que é o orçamento anual de cada instituição municipal envolvida, disse Catarina Vaz Pinto ao Observador. A vereadora comparou este acontecimento à Expo’98, Exposição Mundial de Lisboa, e disse que se insere na “estratégia de internacionalização cultural” da cidade.

Marcaram presença na apresentação o ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes, o presidente da Câmara, Fernando Medina, e embaixadores de vários países latino-americanos.

Numa intervenção longa, Medina terminou com uma inesperada dissertação sobre o papel de Portugal no mundo. O “discurso de exclusão está a transformar em normal o que é anormal”, disse o presidente do município, pelo que Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura é o “oposto dos discursos de fechamento, dos discursos do medo do outro e da rejeição do outro”.

Lisboa foi escolhida por unanimidade, em novembro de 2015, na Guatemala, numa reunião da União de Cidades Capitais Ibero-americanas (UCCI), entidade a que pertence desde 1982. É a segunda vez que a capital portuguesa assume este papel, a primeira das quais em 1994, ano em que também teve protagonismo como Capital Europeia da Cultura.

Andorra é a capital Ibero-americana de Cultura este ano. Em 2018, será a vez de La Paz (Bolívia), e em 2019, Panamá.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Descobrimentos

Uma lança em África /premium

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
362

Neste tempo, em que muitos se orgulham do que os deveria envergonhar, também há quem se envergonhe das glórias da história de Portugal.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)