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Cinema

“Café Society”: Woody Allen brilha em Hollywood

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O novo filme de Woody Allen, e o primeiro que o cineasta roda em digital, passa-se em parte na Hollywood da década de 30, e é de uma simplicidade enganadora. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas

Autor
  • Eurico de Barros

Woody Allen embirra tanto com Hollywood que conseguiu fazer um filme passado em Hollywood e com Hollywood no título sem lá ter posto os pés (“Hollywood Ending”, em 2002). Desde “Annie Hall”, em 1977, que, no cinema, Allen não ia lá, e acaba de quebrar essa abstinência no seu novo filme, “Café Society”, passado nos anos 30, e cuja ação se divide entre a Meca do Cinema e a sua querida Nova Iorque, onde se sente em casa qualquer que seja a época que recrie para filmar. E é irónico que seja essa Hollywood “rétro”, a viver a sua era maior, que o realizador tenha escolhido para situar boa parte deste filme, o primeiro que roda em digital, marcando também a sua estreia a trabalhar com o magistral diretor de fotografia Vittorio Storaro, que banha delicadamente “Café Society” em ouro de nostalgia sofisticada.

[Veja o “trailer” de Café Society”]

“Café Society” é um filme de uma simplicidade aparente, enganadora. Woody Allen, no cinema, equivale a um “chef” consagrado que aparece num daqueles concursos de culinária das televisões e que faz um prato muito complexo, cheio de ingredientes, saborosíssimo e de apresentação imaculada, com a naturalidade de quem está a fazer ovos estrelados com “bacon”. Está tudo na escolha, combinação e confeção dos ingredientes na medida perfeita, o mesmo é dizer, no caso de “Café Society”, da história e dos diálogos, dos “décors”, dos intérpretes, do registo, da banda sonora e da reconstituição de época. A que depois é aplicado o extra do toque experimentado e único do cineasta, patente num leve movimento de câmara, numa subtil mas pungente notação emocional, numa pontuação visual quase impercetível.

[Veja a entrevista com Woody Allen]

Woody Allen disse que a sua primeira intenção era dar a “Café Society” a estrutura de um romance clássico, para contar a história de uma família, de que depois abdicou para optar por algo mais simples. E quase se poderia arriscar, tendo em conta a época, os lugares e os ambientes escolhidos, as situações descritas, as personagens desenhadas e os sentimentos postos em jogo, que Allen, que também narra a fita, poderia ter aqui F. Scott Fitzgerald com referente literário de eleição. Não foi à toa que quando da antestreia do filme no Festival de Cannes, na conferência de imprensa e em entrevistas que deu, citou livros daquele como “The Pat Hobby Stories” ou “Belos e Malditos”.

[Veja a entrevista com Kristen Stewart]

O jovem e ambicioso Bobby (Jesse Eisenberg, a palrar como Woody Allen), que tem uma irmã casada com um intelectual comunista, e um irmão “gangster”, deixa a casa da família em Nova Iorque para ir trabalhar em Hollywood com o seu tio Phil (Steve Carell, óptimo, em soltura verbal de nomes de “estrelas”), um poderoso agente da indústria cinematográfica. E perde-se de amores por Vonnie (Kristen Stewart, sempre soberba), a secretária do tio, sem saber que eles são também amantes, começando a namorar com ela. Quando Phil deixa a mulher e se junta com Vonnie, Bobby, desgostoso, volta para Nova Iorque e, ajudado pelo irmão “gangster” (Corey Stoll), abre um clube noturno que se transforma no mais popular e bem frequentado da cidade. Casa-se com a bela, fina e loura Veronica (Blake Lively), integra-se na melhor sociedade e tudo parece correr bem. Até que, alguns anos mais tarde, Phil e Vonnie desembarcam em Nova Iorque e vão ao clube.

[Veja a entrevista com todo o elenco no Festival de Cannes]

Nem romântico nem cínico, Woody Allen é um realista pessimista. E por isso, “Café Society” é uma história amargamente realista de amores falhados e oportunidades perdidas e lamentadas no mais íntimo para o resto da vida, onde os protagonistas, mesmo separados por uma enorme distância, nunca deixaram de pensar um no outro. E quando se reencontram, ficam a meditar no que teriam sido as suas vidas se tivessem ficado juntos. É tristíssimo, é dilacerante, é empático, e Woody Allen faz passar tudo isto com a dose de gravidade exata, sem fungadelas melodramáticas nem enchimento de “pathos”.

[Ouça o tema musical do filme]

E Allen até lhe entretece um subenredo cómico relativo à família novaiorquina de Bobby, com o pai e mãe chapadamente judeus que passam o tempo a caturrar e picar-se um ao outro, o irmão “gangster” que ajuda a irmã e o cunhado a verem-se livres de um vizinho malcriado, e que, depois de preso e condenado a fritar na cadeira eléctrica, converte-se à pressa ao catolicismo porque os católicos têm a vida eterna garantida e os judeus não. Fruto de um conhecimento sem ilusões das imperfeições da natureza humana, e de um ofício cinematográfico consumado, “Café Society” é o verdadeiro cinema “gourmet”.

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