“Antes de ver a questão de criminalidade ou delinquência juvenil, temos de ver que tipo de sociedade estamos a criar em Cabo Verde. Hoje tendo a falar menos de violência e mais em crise social. Cabo Verde está a viver uma profunda crise social em que todos somos responsáveis”, considerou Nardi Sousa.

Segundo o relatório anual do Ministério Público sobre o estado da justiça, entre 01 de agosto de 2015 e 31 de julho de 2016 foram registados 120 homicídios no país, com a criminalidade a aumentar 6,7%.

O relatório, que servirá de mote para o debate parlamentar sobre a situação da justiça em Cabo Verde, na segunda-feira, também registou 504 crimes sexuais e mais de 13 mil crimes contra o património, sobretudo na cidade da Praia, onde nas últimas semanas a comunicação social tem dado conta de várias mortes violentas.

Em declarações à agência Lusa, o sociólogo e académico, disse que os delinquentes e criminosos são “produtos” da sociedade e que a mesma energia que têm para criar coisas negativas pode ser utilizada para criar coisas positivas, transformando as “mentes potencialmente criminosas” em “mentes saudáveis e pacíficas”.

Entretanto, considerou que não só os jovens que cometem delitos e disse que os políticos e gestores públicos devem dar o exemplo e o Governo investir em políticas sociais nos bairros.

“Imagina que sou um gestor público e desvio milhares de contos que podia ser usado para reforçar o trabalho social nos bairros, apoiar associações que já deram provas de fazer coisas positivas nos seus próprios bairros. Se eu sou um corrupto e desvio esta verba, por exemplo, dos bairros, eu não estou a praticar indiretamente violência”, questionou.

Entendendo que é preciso criar alternativas nos bairros, Nardi Sousa salientou que os jovens estão a viver um “mal-estar social”, em que têm acesso a armas, drogas e têm um “ethos guerreiro e machismo exacerbado” que os leva a entrar em grupos para praticar violência.

“É preciso ver que tipo de políticas públicas têm sido tomadas para enfrentar esta questão”, prosseguiu, para quem a criminalidade não pode ser justificada somente com a pobreza, mas sim com a “crise de valores” no arquipélago cabo-verdiano.

“Os jovens só procuram tirar o prazer e não devolvem à sociedade nada daquilo que recebem. Temos um modelo de sociedade de vida boa e não uma sociedade boa e temos falta de investimentos em zonas urbanas densamente povoadas e com necessidades”, continuou.

Segundo Nardi Sousa, 41 anos e natural do Tarrafal de Santiago, já não há exemplos “de cima para baixo”, muitos pais já não têm controlo sobre os seus filhos e a comunidade também não é educativa, capaz de criar programas e valores para transformar os jovens.

“O Estado tem de acabar com a injustiça social e criar políticas públicas para evitar problemas de delinquência, mantendo os jovens a estudar, apoiar as associações e instituições que têm projetos saudáveis nos bairros, envolver universidades, para resolver esses problemas”, apontou, apelando também a intervenção de outras instituições como escolas, igrejas e as empresas.

“Não vamos deixar que a polícia eduque o filho de cada um. É preciso rever o papel de todos os atores sociais, canalizar financiamento para zonas com problemas sociais”, disse, afirmando também que é preciso “desarmar os jovens” e instruir a comunidade a colaborar com a polícia.

Quanto às medidas anunciadas há duas semanas pelo Governo cabo-verdiano para combater a criminalidade e dar mais segurança às pessoas, o académico considerou que o executivo tem de mostrar aparato policial, sim, mas também tem de trabalhar na prevenção.

“Cabo Verde é um país muito frágil a nível de segurança, pelo que é preciso que não se adormeça”, avisou Nardi Sousa, advertindo para a possibilidades de as pessoas começarem a fazer justiça pelas próprias mãos.