Não gosto de “junkies”. Não gosto de ambientes “trashy”. Não gosto de filmes onde morrem bebés, mesmo que seja para mostrar os horrores que podem acontecer a quem é “junkie” e vive num ambiente “trashy”. Por isso, nunca simpatizei com “Trainspotting”, de Danny Boyle, baseado no livro de Irvine Welsh, mesmo que o filme tenha sido, à época (1996), como um choque eléctrico aplicado num cinema britânico muito acomodado, e a expressão cinematográfica chapada do espírito “Cool Britannia” à beira da chegada ao poder do New Labour de Tony Blair. Mesmo que não houvesse nada de “cool” no punhado de “junkies”, desempregados, delinquentes e vampiros da Segurança Social que se precipitavam pelas ruas de Edimburgo, e se injectavam nos seus pardieiros, dizendo mais sobre esses tempos e o espírito que os dominava do que o “marketing” optimista e fixe estatal.

[Veja o “trailer” de “T2 Trainspotting]

Renton (Ewan McGregor), Sick Boy (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) eram o acelerado e mocado quarteto de auto-excluídos do sistema, os anti-“Choose Life”, assumindo com raiva e orgulho as consequências dessa vida alternativa à “normal”. Vinte anos mais tarde, em “T2 Trainspotting”, inspirado em Porno, a continuação do livro original, Sick Boy, Spud e Begbie continuam a arcar com essas consequências. O primeiro anda com uma prostituta búlgara (Anjela Nedyalkova), filma-a com os clientes para depois os chantagear e quer abrir um bordel; o segundo continua a não fazer nada e a drogar-se; e o terceiro está na cadeia. Só Renton, que traiu os amigos no fim do primeiro filme e fugiu rico para a Holanda, parece ter “escolhido a vida”. E está de regresso a Edimburgo, dir-se-ia que roído pela consciência.

[Veja as entrevistas com Danny Boyle e os quatro actores]

Há um novo monólogo como o do “Choose Life” do primeiro filme em “T2 Trainspotting”, agora adaptado aos tempos da sociedade em rede, da globalização e dos escândalos financeiros, só que dominado por uma sensação de desilusão e de derrota, que contrasta com o cinismo gutural e desafiador daquele. Esta continuação, escrita por John Hodge, e com fotografia de Anthony Dod Mantle, é parte mais do mesmo (deriva individual e social, droga, crime, humor negro e brutinho, fotografia cubista e de cores saturadas, montagem “pop”, calão escocês indecifrável), parte recolha do que as personagens semearam no primeiro filme, e do que um mundo que muda cada vez mais depressa lhes fez. Há nostalgia, azedume, ajustes de contas, desejos de redenção, “flashbacks” melancólicos e perplexidades, desembocando num filme-perseguição convencional. Continua a haver cocaína, mas também Viagra, E há mais uma traição, esta de fora do baralho.

[Veja uma sequência do filme]

https://youtu.be/SUCGDChBM_Q

“T2 Trainspotting” tem os seus momentos inspirados: a sequência no “pub” onde Renton e Sick Boy vão roubar carteiras e acabam a levar o estabelecimento inteiro ao rubro de sectarismo político-religioso, ou a apresentação pública que o duo faz para conseguir fundos da União Europeia para renovar o “pub” da família de Sick Boy e transformá-lo numa sauna-prostíbulo, simulando ser um projecto de “renovação urbana com valor comunitário”; e o psicopata Begbie de Robert Carlyle, cujo filho prefere seguir Gestão Hoteleira em vez de ir assaltar casas como o pai, mete a fita no bolso sempre que aparece. Só que a sensação que o filme nos deixa, ao contrário do primeiro, que tinha as raízes mergulhadas naquela cidade e era a voz daquelas pessoas pertencentes àquela geração, é que podia agora passar-se em qualquer grande cidade, com outras personagens. Se convém não voltarmos ao lugar onde fomos felizes, é também aconselhável não regressar onde fomos infelizes.