Dias Loureiro deu a primeira entrevista desde que o Ministério Público (MP) arquivou o inquérito de que tinha sido alvo no Caso BPN. Ao Diário de Notícias, o ex-ministro dos Assuntos Parlamentares e da Administração Interna de Cavaco Silva, disse que durante os oito anos em que decorreram as investigações, cortou com “um só amigo, um grande amigo”, o ex-presidente da República.

“Cortei com um só amigo, um grande amigo. Em amigo a quem devotei uma amizade incondicional dos últimos 32 anos. Um amigo a quem dei, em tudo, o melhor de que fui capaz. Admirava-o como pessoa e como político. Continuo a admirar a sua obra política como primeiro-ministro. Falo do professor Aníbal Cavaco Silva”, afirmou Dias Loureiro.

O ex-administrador do BPN esclareceu que durante o segundo mandato presidencial não falou com Cavaco Silva, mas que quando este deixou de ser presidente, o procurou para lhe dizer o porquê do seu afastamento. “Disse-lhe que fui sempre leal à amizade que lhe dediquei. Disse-lhe que ele não o foi em relação à amizade que eu esperava dele”, afirmou, sem querer tecer comentários sobre o segundo mandato de Cavaco Silva e os seus níveis de impopularidade.

As críticas de Dias Loureiro não se ficaram pelo amigo “incondicional” dos últimos 32 anos. Sobre Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-ministro afirmou que “temos um presidente com opinião sobre tudo, menos sobre os direito fundamentais dos cidadãos, o homem é que é o fim da política, isto passa-lhe também ao lado”, acrescentando que, em Portugal, Há uma “desproteção total” dos cidadãos.

Dias Loureiro refere-se ao conteúdo do despacho que o Ministério Público elaborou para arquivar a investigação ao ex-deputado do PSD, no âmbito do caso BPN. Dias Loureiro e José de Oliveira Costa estavam indiciados pelos crimes de burla qualificada, branqueamento e fraude fiscal qualificada.

No despacho a que o Diário de Notícias teve acesso, o MP mantém quase todas as dúvidas que estiveram na origem da investigação, sugerindo que, apesar da falta de provas “do recebimento dessa vantagem pessoal, à custa do BPN/SLN, subsistem as suspeitas, à luz das regras da experiência comum”. Dias Loureiro diz que não sabe o que vai fazer em relação às suspeitas do MP, mas que está a estudar o caso com o advogado. “Estou confiante”, adiantando que talvez opte por recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem”.

“Em Portugal, há um pecado que não tem perdão, que é o ter sucesso”

Acusando os jornalistas e os órgãos de investigação criminal de “conluio”, Dias Loureiro afirma que, durante o tempo em que esteve no BPN, “nunca ganhou mais” do que o valor estipulado no seu ordenado: 12.500 euros quando era executivo do grupo e 7.500 quando passou a não-executivo.

“Nunca recebi daquele grupo nem mais um centavo fosse a que título fosse, portanto estava tranquilo. Como me viram a durante oito anos a vida toda de fio a pavio – e muito bem, eu até fiquei contente que vissem tudo para que não houvesse nenhuma suspeita e investigassem, investigassem, investigassem -, eu dei todos os elementos para poderem investigar e acabassem por ver que não havia nenhuma suspeita”, afirmou.

Sobre o negócio que envolveu o BPN e a Biometrics, empresa tecnológica de Porto Rico, e que levaram a 57,2 milhões de euros de prejuízo no banco, o ex-ministro de Cavaco Silva explicou que o que se passou foi que a SLN-Tecnologias (que pertencia ao grupo) quis investir 100 milhões no desenvolvimento de uma máquina que a Biometrics tinha iniciado, mas que após os primeiros 40 milhões, desistiu. “É tão simples como isso.”

Dias Loureiro diz que se manteve “calado, não por não ter coragem”, mas que “em Portugal, “há um pecado que não tem perdão, que é o ter sucesso”. “Se se vem de uma camada social baixa ou média, ter sucesso é um pecado que não tem perdão, para ninguém. E, portanto, joga-se com isto e, por isso, é que o país é como é. Isso é que me preocupa”, afirmou.