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Há trabalhos péssimos. Já pensaram nisso? Ser segurança de palco num festival, por exemplo. Aposto que a malta de recursos humanos vende a coisa como uma oportunidade para ver os concertos, mas a realidade é um valente conjunto de horas a olhar para pessoas, a sorrir de vez em quando para esconder o tédio mas sempre com muita atenção.

No outro dia estava a encher uma garrafa com água junto de umas casas de banho e atrás de mim estava um funcionário que precisava de encher um balde com água. Pergunto se quer passar à frente, ele diz que não, não é urgente. Eu digo-lhe sem pensar muito e sem condescendência: “tough job”. Ele responde com um sorriso “the night is still young, son”.

Pessoas como ele mantêm as casas de banho — buracos com um assento — limpas. Num festival tão grande, de 5 dias, têm de estar sempre a limpar, a desinfetar, para que isto não pareça o fim do mundo. Estão a ver a casa de banho do “Trainspotting”? Cada um dos privados fica pior do que aquilo em 10 minutos. Gostariam de limpar isso? Claro que não. Agora pensem se teriam o bom humor e o sorriso para me responder “the night is still young, son”.

Mas toda a gente que trabalha em Glastonbury é impecável. Sempre com um sorriso, por pior que o seu trabalho seja. Até o barman bêbedo às 5 da tarde consegue corresponder. Ele sabe que tu sabes que ele está bêbedo e serve-te da forma mais querida que lhe é possível naquele momento.

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Right, vamos andar com isto

Segundo acordar em Glastonbury sem chuva. Outra vez o cheiro a napalm aqui da zona. A minha primeira ida diária ao WC é o vosso pior pesadelo. O esforço é compensado com o meu regresso à tenda e com os incríveis lattes e breakfast boxes do Mocha Mania (2 salsichas, dois ovos, feijões, cogumelos, bacon e hash browns). É um dos melhores sítios para pequeno-almoço no recinto e fica a 30 segundos da minha tenda. Sou um tipo com sorte.

O dia recomeçou com estômago cheio e uma caminhada. No Pyramid estava a tocar a Haçienda Classical, óptima forma de arrancar. Deitei-me no relvado a ouvir uns clássicos. Óptimos arranjos e o tom perfeito para criar o momento do segundo café diário.

Os Pretenders tocam no Other Stage. Então mas eles tocam de manhã e em Portugal são cabeças de cartaz? Lembram-se de dizer que isto é um festival para todos? Old timers querem ver as coisas descansados e este horário é o mais nobre que se consegue num festival com cerca de 175 mil pessoas.

Paragem para almoçar, beber mais um pouco e estar pronto para Ata Kak no West Holts. “June da clapping, I do the rapping” [“You do the clapping, I do the rapping”]. Eu pensava que bater palmas em festivais já tinha passado de moda (foi uma década sem isto). Ainda acontece e das duas uma, ou a coisa simplesmente não morreu ou deu a volta. Em qualquer dos casos isso deixa-me triste. O concerto foi morno mas com a onda festiva certa para a hora.

O que raio faço eu aqui? Um diário de Glastonbury

Seguiu-se Kris Kristofferson no Pyramid. Ou cinco minutos de Kris Kristofferson no Pyramid. Adoro o homem, mas está sol e quentinho e fui beber uma cerveja. Estava a sentir-me velho ali. Rumo então para o The Park, Mark Lanegan estava a tocar e pouco depois seria a vez de Angel Olsen.

Estava constipada, disse ela. Não se notou. Anda a tocar com uma banda fantástica, criou a sua própria versão dos Fleetwood Mac. As canções de My Woman (90% do concerto veio do seu último álbum) têm um outro corpo ao vivo e há a sensação de ficarem mais completas ali. “Sister” parece “Sara” e logo aí não há muito para fugir dos Fleetwood.

Angel, sempre bem disposta e antes de terminar o concerto resolveu recitar uns escritos seus. Ela sabia que eram algo pirosos. Nós também. Mas ela tinha de o dizer e a coisa correu bem. Enquanto isso acontecia, uma bola insuflável sobrevoava o público. Um tipo ao meu lado sofre o cataclismo da bola cair mesmo em cima da sua mão e entornar a cerveja. Deviam ver a cara de infelicidade do miúdo.

Angel também mencionou o facto de ser impossível esquecermos o mundo merdoso em que vivemos, quando em frente ao palco existe um enorme sinal de “Toilets”. Há muitos à vista no festival e há muitos avisos para as pessoas não urinarem fora deles: pode contaminar o rio e o festival perder assim a licença. Exagero, talvez.

Acaba Angel Olsen e espero para saber qual será o concerto surpresa das 19h30. Claro que há concertos surpresa em Glastonbury. Há por exemplo a esperança dos Guns’n’Roses tocarem. O festival tentou que fossem cabeças de cartaz, mas a banda colocou o preço bem alto. Tocaram duas datas há uma semana em Londres e apesar de terem a agenda livre, não há slot para uma banda grande como eles neste ano. Mesmo assim há muita gente com T-shirts dos Guns no recinto. Se acontecer vão mandar o maior “told ya” da vida deles.

Roger OK

Às 19h30 o Park encheu-se para ver Elbow, a equipa C dos Coldplay. E eu fui jantar. Perdi The xx, mas pronto. Barriga cheia para Radiohead. Foi preciso. Foi valente. Há que respeitar uma banda que, com tantas fases distintas na carreira não tem medo de as enfrentar todas. E são sempre só os cinco em palco, a darem tudo o que podem para recriarem os Radiohead de estúdio. Saltam facilmente de The Bends para Kid A e voltam a OK Computer para a celebração possível. Tocaram quase todas do álbum que neste mês celebra vinte anos.

Uma história pessoal, não romantizada. Há pouco mais de vinte anos os meus pais meteram TV Cabo em casa. Eu tinha 13, a MTV era um sonho em minha casa. Estava histérico. A primeira coisa que fiz foi ir à MTV e o primeiro videoclipe que passou na minha televisão por cabo foi o de “Paranoid Android”. Mudou a minha vida para sempre. Na altura foi um redondo “o que raio é isto?”.

[o concerto que os Radiohead deram em Glastonbury:]

https://www.youtube.com/watch?v=of7sZNjeKgk

Agora aqui estou. A vê-los pela segunda vez, uns 12 ou 13 anos desde a primeira. Eles estão iguais, eu estou diferente. A canções estão lá como me lembro e o Phil Selway é um baterista enorme: não falha uma em todos os géneros e ritmos que os Radiohead entram e parece que nunca lhe dão crédito suficiente. Mas és incrível, companheiro de alopécia.

Acabou com “Karma Police”, antes houve “Creep” e houve também a sensação de como é deprimente que uma banda incrível como os Radiohead vejam a maior parte do público a reagir apenas a estes momentos… Tenham juízo, malta.

Foram 2h15 impecáveis. Sejam os Pink Floyd ou os U2 dos millennials e pré-millennials. Que se lixe. Não me deixaram foi ir ao Arcadia ver o espectáculo da aranha gigante. Já disse que há uma aranha mecânica gigante em Glastonbury? Pois é. A ver se falo disso amanhã.