Há um antes e um depois na vida dos Fleet Foxes. Antes eram os temas bucólicos. A estrutura da canção era a mais habitual, com verso, refrão e a ponte pelo meio. Havia naquela estética folk uma certa inocência e fragilidade, uma busca pela pureza dos rios, das montanhas e da floresta. Havia um Joshua Tillman escondido na bateria e um Robin Pecknold na voz que assumia quase todas as responsabilidades de composição.

Quando se estrearam ao vivo em Portugal, em 2011, estavam a viver o pico do sucesso. Helplessness Blues foi nomeado o melhor álbum folk nos Grammy Awards em 2012, choviam elogios, crescia o número de fãs. E, de repente, tudo quebrou.

“Crack Up” foi lançado a 16 de junho, seis anos depois de “Helplessness Blues”.

Crack Up, agora lançado, é a prova material do regresso, seis anos depois do último disco. E, claro, em seis anos as coisas não ficam na mesma. Na bateria já não está Joshua Tillman, que foi ser feliz enquanto Father John Misty. Robin Pecknold usou o hiato para tirar um curso superior em inglês e literatura comparada na Universidade de Columbia (C.U., curiosamente as mesmas iniciais do disco, embora Pecknold já tinha explicado que roubou o título a uma coleção de ensaios de F. Scott Fitzgerald). Talvez seja por isso que as letras de Crack Up sejam mais complexas de decifrar.

Pecknold chegou aos 30 anos e, à publicação americana Pitchfork, explicou o que todos acima dessa idade sabemos: que o grau de inocência é inversamente proporcional aos anos de vida. “À medida que envelheço, tento encarar as pessoas como elas são e fazer menos projeções”, disse, sobre o facto de muitas das letras do álbum abordarem a perceção e a diferença entre como ele via o mundo e como ele é na realidade. Sejam essas perceções “boas ou más: não criar donzelas ou heróis ou vilões a partir de pessoas que são apenas individualidades a fazer o melhor que podem com o que têm.”

Musicalmente, Crack Up também transparece essa falta de emoção e desilusão. Há menos oscilações entre canções, embora existam, dentro de uma mesma canção, diferentes ambientes. Que estão longe de ser tão óbvios ou orelhudos como “Mykonos”, “Helplessness Blues” ou “Blue Ridge Mountains”, só para dar alguns exemplos do passado. Percebe-se porque é que os cinco escolheram “Third of May / Ōdaigahara” para anunciarem ao mundo que estavam de volta: porque mesmo com quase nove minutos de duração, a primeira metade é do que mais se assemelha aos Fleet Foxes do passado.

Entre o antes e o agora, nem tudo se perdeu. O terceiro disco mantém a garantia de qualidade a que o nome Fleet Foxes nos habituou. Mantém o ambiente folk rock, acrescentando-lhe uma aura mais cinemática. Quase que eliminou o refrão da estrutura da canção — encontrar um é como procurar o Wally. “Olha ali um, na ‘Cassius’!”. Mas não prescinde de uma das maiores riquezas da banda de Seattle, que são as harmonias vocais. Tirem-nos as harmonias vocais e estamos prontos para um motim.

Há uma razão para que o texto sobre Crack Up não tenha saído mais cedo. Estas 11 canções precisam de tempo para respirar e evoluir nas nossas cabeças. A cada audição há um novo pormenor que se descobre, um novo verso que fica na memória, uma canção que no início passava despercebida e que agora só queremos colocar em repeat. Uma canção que parecem duas ou três diferentes, mas que é mesmo só uma — se acreditarmos no alinhamento gravado na capa do disco. Como é que não reparámos logo na minimalista “Kept Woman”, com aquele dedilhar nas teclas do piano como se fosse uma harpa? Quão bem sabe revisitar Leonard Cohen em “I Should See Memphis”? Cohen, o homem que cantava os versos There is a crack in everything / That’s how the light gets in (qualquer coisa como Há uma fenda em tudo / É assim que a luz entra).

Pegando no imaginário dos Fleet Foxes, escutar este disco é como passar uma e outra vez pela mesma floresta. No início, os caminhos e as árvores parecem-nos todos iguais. Até que vamos descobrindo cada vez mais. E mais. E mais.