Era um momento histórico. A Seleção feminina estava prestes a começar o primeiro encontro de sempre numa fase final do Campeonato da Europa. Esperava-se ver ansiedade na cara das jogadoras nacionais, era a coisa mais normal. Mas não: olhava-se para as expressões das onze escolhidas por Francisco Neto durante o hino e parecia ver-se concentração, vontade, emoção. Agarremos na ideia transmitida por Frederico Morais esta tarde, depois de qualificar-se pela primeira vez para as meias-finais de uma etapa do Circuito Mundial de surf: “Foi excelente, mas quero sempre mais”. Este é o caminho de Portugal, em termos de Seleção e de, forma mais geral, no futebol feminino: estão sempre a crescer, alcançam o que nunca alcançaram, mas tentam olhar sempre para o próximo objetivo.

Foi na bucólica e cheia de moinhos vila de Doetinchem que começou essa nova meta: deixar marca neste Europeu. E logo contra a equipa que maior rivalidade tem connosco, a Espanha. Durante as últimas semanas, tudo o que se foi escrevendo, e foi muito, tinha sempre como objetivo apresentar as jogadoras que alinharam com as Quinas ao peito. Umas estudam, outras trabalham, muitas têm histórias sem conta das experiências em ligas no estrangeiro. Agora, durante 90 minutos, só interessavam as qualidades futebolísticas, técnicas e táticas. E a forma organizada como Portugal se posicionava em campo, com um bloco baixo e atrás da linha da bola, tentava dar o mote.

36 anos depois do jogo inaugural, um particular frente à França, a Seleção feminina teria o compromisso mais importante da sua história. E, tal como em 1981, havia aquela secreta esperança de se poder passar um encontro inteiro na raça, a lutar, a dar tudo e a conseguir um resultado assinalável (na altura, 0-0). Seria possível? A esperança durou pouco tempo porque aqui a realidade era outra bem diferente, com a Espanha a dominar e vencer facilmente por 2-0 na primeira jornada do grupo D.

Jenni, a melhor jogadora e goleadora espanhola, criou o primeiro lance de perigo à passagem do primeiro quarto de hora, quando a Seleção poucas ou nenhumas vezes tinham chegado ao último terço contrário. Todavia, o remate em zona frontal da área passou por cima da trave da baliza de Patrícia Morais. Percebia-se que a avançada campeã pelo Barcelona que vai representar no próximo ano o PSG seria uma grande dor de cabeça. Meseguer, cinco minutos depois, obrigou também a guarda-redes nacional a uma intervenção apertada.

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Não foi à primeira, não foi à segunda, foi mesmo à terceira: grande passe de Paredes para as costas de Sílvia Rebelo, receção orientada de Victoria Losada e remate sem hipóteses para a Patrícia Morais. A meio da primeira parte (23′), Portugal estava em desvantagem. E um pouco por culpa própria, pois o lance acaba por nascer do facto de haver linhas demasiado baixas, que permitiam às centrais espanholas saírem com bola a meio-campo sem oposição.

Portugal começou bem (dentro das expetativas com que partia para este jogo, entenda-se), mas foi-se perdendo em erros que desposicionavam a equipa em missão defensiva. No ataque, quase zero. Nem Cláudia Neto, a grande referência atacante da equipa, tinha bola para tentar desequilibrar e sacudir a pressão adversária. O melhor reforço seria mesmo a chegada do intervalo, mas a Espanha conseguiria ainda aumentar a vantagem aos 42′, de cabeça, após um cruzamento da direita que encontrou Sampedro sozinha no coração da área.

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80% de posse de bola e oito remates para Espanha contra nenhum tiro nem canto de Portugal dizia quase tudo. Os 51% de passes certos em 92 tentativas contra 89% do adversário em 420 contava o resto.

O segundo tempo manteve por completo o filme dos 45 minutos iniciais. Aos 56′, Cláudia Neto fez o primeiro remate da Seleção (passou muito ao lado), mas esse seria mesmo um oásis no deserto de investidas atacantes nacionais. E a certa altura até ficou a ideia que a Espanha começou a preocupar-se mais com os próximos encontros do que com a estreia no Europeu, pelas substituições que Jorge Vilda foi promovendo na equipa. Patrícia Morais, apesar de algumas precipitações nas bolas pelo ar, foi evitando a goleada com algumas boas intervenções (foi a melhor jogadora nacional, a par de Ana Borges, que costuma jogar na frente mas atuou no lado direito da defesa).

Até que, aos 78′, Diana Silva conseguiu chegar primeiro a um cruzamento de Cláudia Neto da esquerda, amorteceu a bola para Carolina Mendes e a defesa espanhola conseguiu cortar quando a portuguesa se preparava para rematar. De uma forma ou outra, a Espanha iria sempre ganhar o encontro. Mas tinha sido um prémio para a Seleção Nacional esse golo, que mais não seja pelo feito de conseguir a qualificação para a fase final do Europeu.

Estatísticas finais: 17-1 em remates, 7-0 em cantos, 76%-24% de posse de bola, 739-203 nos passes tentados, 89%-61% nos passes certos, 32-37 nas bolas recuperadas. Portugal não virou a cara à luta, mas perdeu com naturalidade frente à Espanha. Agora sim virá o verdadeiro jogo da Seleção: o duelo com a Escócia será a grande possibilidade de deixar marca nesta primeira presença de sempre no Campeonato da Europa.