As redes sociais são a nova praça pública, onde se fazem denúncias, acusações e ajustes de contas. Mas isso não é para Mildred Hayes (Frances McDormand), a protagonista de “Três Cartazes à Beira da Estrada”, do argumentista, dramaturgo e realizador anglo-irlandês Martin McDonagh, grande vencedor dos Globos de Ouro. Mildred é uma mulher à antiga e prefere agitar as águas no mundo real e não no virtual. Acontece que o chefe de polícia da cidadezinha onde ela vive, Ebbing, no Missouri, ainda não conseguiu apanhar o homem que violou, matou e depois incinerou a sua filha adolescente. Como já passaram muitos meses após o crime, Mildred não faz a coisa por menos. Aluga espaço em três cartazes na estrada que vai dar a Ebbing, para expressar a sua indignação perante o que entende ser a ineficácia do chefe Willougby (Woody Harrelson).

[Veja o “trailer” de Três Cartazes à Beira da Estrada]

Ora longe de ser um calão e um incapaz, o chefe de polícia é um bom polícia e um homem decente, a braços com um grave problema pessoal, que investigou o caso mas não conseguiu obter a menor pista, o mais leve indício. E vai explicar isto de novo a Mildred. Mas ela não quer saber de explicações. O desgosto e a revolta sobrepõem-se a tudo. O que lhe interessa é que a notícia do assassínio não resolvido da filha seja falada e tenha visibilidade — e por quanto mais tempo, melhor. E não se importa que a simpatia de que gozava por parte dos seus conterrâneos se desvaneça, que a maior parte destes apoie o chefe Willoughby e que o seu outro filho sofra por causa da teimosia da mãe. Mildred está tão imune ao que os outros dizem e pensam, que até insulta e ridiculariza o agente Dixon (Sam Rockwell), o polícia mais burro, incompetente e violento de Ebbing. E nem quando a desgraça visita casa alheia ela manda retirar os cartazes.

[Veja a entrevista com o realizador, Frances McDormand e Sam Rockwell]

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Martin McDonagh gosta de histórias com personagens intensas e programadas para o confronto, peripécias imprevisíveis e reviravoltas quebra-costas (ver os seus filmes anteriores, “Sete Psicopatas” e “Em Bruges”). “Três Cartazes à Beira da Estrada” é a sua fita mais bem acabada, na qual sobressai mais claramente o seu talento de dramaturgo. A tragédia rasgada convive com o humor negro e sarcástico, a narrativa é atarefada mas legível, dramaticamente densa mas volátil, as personagens muito bem caracterizadas e sempre a fazerem chispas umas nas outras, e McDonagh impermeabiliza o filme contra o sentimento fácil, as piedades de micro-ondas, as resoluções confortáveis e os estereótipos ambulantes. “Três Cartazes à Beira da Estrada” é um filme que não faz juízos apressados. Uma das personagens principais até pode abrir os olhos de repente e dar uma volta de 180 graus, e o inimigo de ontem converter-se no aliado de hoje.

[Veja imagens da rodagem do filme]

O falecido Saddam Hussein falava na “mãe de todas as batalhas”. Em “Três Cartazes à Beira da Estrada”, Frances McDormand interpreta a mais batalhadora de todas as mães, uma Padeira de Aljubarrota “redneck”. McDonagh até mete na história um “flashback” arrepiante para frisar ainda mais o tormento que a possui e faz levar tudo à frente, como uma força da natureza em forma de mulher. Uma mulher que se deixou de preocupar com a aparência e cujos lábios agora raramente conhecem um sorriso. E quando aparece, é escarninho e vem na companhia de palavrões de fazer corar um carroceiro. É a melhor interpretação de McDormand desde “Fargo”, dos irmãos Coen, em 1996, e depois de ganhar o Globo de Ouro de Melhor Actriz Dramática, está mesmo a puxar pelo respectivo Óscar.

[Veja uma sequência do filme]

E, qual eucalipto, o papelão de McDormand secaria tudo à sua volta, não a acompanhassem aqui actores como Woody Harrelson, cada vez mais com sólida pinta de “secundário principal; Peter Dinklage no anão da vila com um fraquinho por Marge; o lingrinhas John Hawkes no ex-marido, Lucas Hedges (de “Manchester by the Sea”) no filho que a atura, e sobretudo Sam Rockwell no agente Dixon. Bronco e violento mas também ingénuo e infantil, Dixon sofre por ser em grande parte o produto de uma mãe boçal, intolerante e brutinha, e Rockwell personifica-o exactamente como o rufia lorpa à espera de redenção que ele é. No final, por portas e travessas, os três cartazes à beira da estrada pagos por Mildred acabam por mudar alguma coisa.