Crítica de Livros

O engenheiro que foi um bom arquitecto

Vasco Rosa escreve sobre "Transformações na Arquitectura Portuense", um título fundamental para perceber o valor da verdadeira reabilitação urbana e de um dos seus mestres.

Autor
  • Vasco Rosa

Título: Transformações na Arquitectura Portuense. O caso António da Silva
Autor: Domingos Tavares
Editora: Dafne Editora e Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
Páginas: 232, ilustradas
Preço: 17,17 €

Uma verdadeira reabilitação urbana — muito para lá e para dentro, portanto, do fachadismo em voga, politicamente consentido — precisa do reconhecimento das cidades e duma consciência da sua história construtiva que as tornem mais do que uma sucessão de lotes pouco ou muito degradados ou devolutos (e há tantos…), sem defesas perante a voracidade de negócios imobiliários que as desfigurem. Por outro lado, o estudo do património edificado ajuda-nos a recontar e fixar a própria vida urbana, que a qualidade técnica e criativa nos seus períodos mais ilustres marcou por muitas décadas adiante. Uma cidade que os seus conhecem bem terá, desde logo, melhores condições para salvaguardar os seus edifícios historicamente relevantes, por pequenos e discretos que sejam. E para que tal aconteça, além de fóruns de cidadania vigilantes e activos, como o de Lisboa, editoras especializadas como a portuense Dafne desempenham um papel valioso e determinante, que cabe aplaudir, sobretudo quando o panorama livreiro se mantém alheado dos temas mais urgentes do nosso país, em que também se incluem o passado, presente e futuro da ruralidade e da paisagem, continental — e insular…

E não tem de ser necessariamente assim. Um trabalho de grande fôlego como Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal (desenvolvido, no extremo oposto desse tal vernacular, por arquitectos modernistas e urbanos de primeira linha como Francisco Keil do Amaral e Nuno Teotónio Pereira) demonstrou toda a sua validade patrimonial na série de edições e reedições que teve: à primeira, de 1961, seguiram-se outras, em 1980, 1988 e 2004 ­— e até a digitalização das impressionantes 10 000 imagens recolhidas durante esse histórico inquérito foi prometida pela Ordem dos Arquitectos em 2011. Estudos monográficos sobre grandes nomes da arquitectura feita em Portugal passaram a livro, e algumas exposições que lhes foram dedicadas também resultaram em catálogos que vale a pena ler e guardar. Todavia, persistem recantos dessa historiografia essencial que aguardam atenção específica, tanto mais que — como depois se comprova — eles não são coisas de somenos. Talvez o caso paradigmático disso seja aquela que ficou conhecida como “casa de brasileiro”, construída e disseminada no Norte, grosso modo de meados do século XIX a começos do XX, a que foi dedicada em 2009 uma tese de doutoramento ainda inédita (Paula Peixoto de Aguiar, Casas de Brasileiros no Norte de Portugal. Do Porto à ruralidade: 1850-1930, Universidade de Santiago de Compostela), e à qual Domingos Tavares consagrou em 2015 um livro de referência fundamental sobre o assunto: Casas de Brasileiro: erudito e popular na arquitectura dos torna-viagem (212 pp.).

Professor emérito da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, depois de ter dedicado considerável atenção àquilo a que chamou “sebentas de história da arquitectura moderna” — António Francisco Lisboa. Classicismo no novo mundo (2006, 135 pp.) é livro a conhecer e recomendar, e não apenas a amigos brasileiros —, quando, já livre das tarefas do ensino, ficou mais solto para empreender uma inédita, sistemática e frutífera campanha de pesquisa em arquivos municipais e outros, sobre temas, edifícios e protagonistas deixados na obscuridade, todo um programa de monografias — à suivre, certamente — que vão ficar como marcos históricos da bibliografia portuguesa de arquitectura. Dois anos depois de Casas de Brasileiro e um ano depois de António Correia da Silva, arquitecto municipal (2016, 240 pp.), aí está, com pontualidade, Transformações na Arquitectura Portuense: o caso António da Silva (Dezembro de 2017, 232 pp.), e em finais de 2018 — revela o editor — haverá Casas na Duna: o chalé do Matos e os palheiros do Furadouro, dedicado ao cruzamento da arquitectura erudita com práticas vernaculares.

A certeza de publicação imediata numa editora pertencente a seu filho André Tavares, e financiamentos institucionais de médio prazo, como Compete 2020, garantem ao autor de 78 anos modos e meio de trabalho que lhe dão uma confortável velocidade de cruzeiro, além de suporte efectivo, que resolve o défice de um comércio livreiro sem dúvida muito residual entre nós. Ao mesmo tempo, o design-paginação de Manuel Granja confere aos livros da Dafne uma legibilidade muito agradável e a máxima clareza a plantas e alçados, desenhados ou redesenhados num padrão uniforme e elegante, sem aquele preguiçoso sortido de proveniência e risco variados que encontramos noutras publicações. Dá gosto ver esta sinergia de capacidades numa oficina editorial que se supõe mínima, mas demonstra ser extremamente esclarecida nas suas realizações.

O próprio estilo literário de Domingos Tavares (um bom classicismo, que lembra Orlando Ribeiro ou Rómulo de Carvalho), ainda que quase austero ou seco no indispensável rigor tecnicista das suas descrições, mas servido por um léxico largo e por frases breves e limpas, diverge radicalmente do discurso actualmente dominante nos trabalhos académicos, em que banalidade redactorial ou pretensão literária, mas sobretudo opacidade, prevalecem sobre o que precisa de ser dito curto e de modo acessível a muitos. Se algo pode ser criticado nestes livros — como em muitos outros no nosso país, apesar da evidência da sua enorme utilidade —, é a falta de índices remissivos que facilitem uma consulta ágil quanto a estilos estéticos, elementos arquitectónicos, topónimos, proprietários, arquitectos e outros protagonistas, enfim tudo e todos que o bom senso recomende aparecerem nesses instrumentos editoriais para estudo. Seriam um degrau mais acima na excelência editorial da Dafne, que globalmente importa reconhecer, agradecer e viabilizar, acompanhando-a como leitores com a curiosidade que merece.

As “transformações” a que o título do presente livro se refere são sobretudo duas: a da cidade do Porto, esticando-se Avenida da Boavista afora até à Foz do Douro e ao Passeio Alegre; e as primeiras construções de um novo tipo, claramente distintivo e distinto, ocupando lotes generosos em áreas de urbanização recente, que no curto período de uma década apenas conseguiu afirmar-se através de um curioso e rapidíssimo mimetismo por parte da sua clientela, a burguesia dos grandes negócios comerciais — em especial a exportação de vinhos, transitários marítimos, “frequentemente sócios da Associação Comercial do Porto” (p. 111) — e brasileiros torna-viagem enriquecidos pela exploração da borracha no Amazonas.

A capa do livro mostra isso mesmo: uma vista da Rua de Gondarém, em que um pequeno comboio a vapor “suburbano” passa rente à porta de um desses palacetes — no caso o da residência do protagonista principal deste livro, o engenheiro António da Silva (1853-1909), professor universitário de Desenho, “arquitecto por iniciativa própria” (p. 81) e “personagem escondida no quadro da cultura burguesa portuense” (p. 77), que “saiu realmente do discurso da arquitectura portuguesa, se alguma vez lhe pertenceu, por antipatia ou desconfiança dos principais protagonistas. Ficaram por aí algumas das suas obras feitas ruína, por vezes à venda, transformadas em mitos do lugar” (p. 83), ou já perdidas “nas inevitáveis práticas do demolir que caracteriza o progresso material das cidades” (p. 82).

António da Silva

O projectista haveria de construir a sua própria residência na Foz do Douro, no ambiente selecto da sua clientela “restrita mas com elevada capacidade financeira” (p. 85), mas a sua história tem de recuar até à Rua de Belmonte, onde o engenheiro civil recém-formado e “lente proprietário da Academia Politécnica” (p. 131) foi vizinho de Constantino Batalha, “senhor de uma considerável fortuna e empresário de sucesso da Baixa portuense” (p. 111) que em 1896 decidiu transferir-se para um palacete defronte do Jardim do Passeio Alegre, de cuja reconstrução parcial encarregou António da Silva e a sua equipa. Com espaçosas varandas em ferro fundido, trata-se de uma das construções mais vistosas daquele lugar que Raul Brandão imortalizou com algumas páginas de livro, e na verdade também uma grande prova de capacidade técnica dos seus construtores, que imaginaram “uma hábil solução para um terreno muito difícil” (p. 111), tornando imperceptível o pesado muro de suporte existente nas traseiras da casa, junto à sobranceira Rua da Bela Vista.

Domingos Tavares considera não apenas que o palacete Batalha foi o “protótipo de uma linguagem própria deste projectista” (p. 114), como a proximidade residencial deste comerciante com a casa de veraneio dos dinamarqueses Andresen “pode explicar a encomenda quase simultânea” (p. 116) do palacete Alberto Henrique Andresen na Avenida de Montevideu, tida como a “obra chave” de António da Silva — um edifício cuja planta quadrada facilita a racionalidade moderna ao serviço da mais clara funcionalidade doméstica. Dois anos depois, em 1899, já um pouco mais acima, na Rua da Índia, será construída a Casa Charles Tait, um chalé afrancesado de quatro pisos, a indispensável torre-miradouro, telhados muito inclinados e com beirais salientes em madeira, obrigando a “carpintarias dispendiosas” e de “complexidade estrutural” (p. 136), e pela primeira vez uma intensa carga decorativa externa (cerâmica incluída), inspirada em revistas estrangeiras da especialidade.

António da Silva projecta, logo depois, em 1900, uma outra casa icónica do Passeio Alegre, o palacete Santos Júnior, facilmente reconhecível pela sua torre quadrada que domina quase metade da fachada principal e pela sua entrada através de um “expressivo telheiro em ferro forjado e vidro” (p. 128) na lateral poente. A estas três casas tão relevantes juntou-se em 1902 a já citada morada do próprio, consistindo — como patente na carta topográfica de 1892 — na reabilitação de uma construção geminada, próxima “dum certo pitoresco rural inglês, com os largos balanços dos telhados a marcar o ritmo da rua” (p. 132). A nova linha de carros eléctricos facilitava-lhe sobremaneira a deslocação até à Academia, onde leccionava.

Este último exercício ampliou consideravelmente o leque de soluções que tornariam o engenheiro-arquitecto reconhecido. Uma vez mais o sincretismo social imperou, com a encomenda de João Andresen (irmão mais velho de Alberto, já referido)  e Joana Lehmann para duas casas geminadas na próxima Rua António Cardoso, bem perto da Quinta do Campo Alegre, onde residiam, e que, por serem de investimento, tiveram materiais menos nobres e uma distribuição interna desprovida do “conforto dos serviços próprios de uma casa burguesa do princípio daquele século” (p. 137). Tal convivência entre projectista e clientes poderosos sairia ainda mais reforçada com os casamentos, em 1902, da filha mais velha de António da Silva, Cesarina, com João, irmão de Joana Lehmann, e de desta, com Severiano José, irmão de António, um médico cirurgião que foi administrador da Carris (p. 139).

Duas novas casas geminadas na Rua do Crasto, esquina com Corte Real, e a Vila Delfina, um chalé na Avenida da Boavista, respectivamente de 1901 e 1903, representam exemplos da mais elegante arquitectura da época (mesmo quando nitidamente decalcados de modelos impressos), que prosseguirá com a intervenção na residência do comerciante e exportador de vinhos Bento Pereira da Cunha, na Rua da Senhora da Luz, em especial com pormenores Arte Nova nas madeiras e nos azulejos, junto aos beirais dos telhados e das águas-furtadas.

A partir daí, António da Silva vai trabalhar sobretudo para brasileiros torna-viagem em imponentes construções fora do Porto, entre as quais — e sem dúvida de um modo muito especial — em Salréu, a reconstrução da casa paternal como palacete do irmão Domingos, também ele emigrante bem-sucedido, que recebeu do rei D. Carlos o título de Visconde de Salréu em reconhecimento de filantropia — a edificação da escola primária local, encomendada ao jovem arquitecto lisboeta Manuel Norte Júnior, então em início de carreira (p. 179).

Domingos Tavares considera que estas últimas obras são “sínteses com coerência que nenhuma das obras tinha revelado até então” (p. 149). A residência de Manuel Marques Gomes no Canidelo, de 1904 — hoje uma ruína, após incêndio e abandono da actividade da quinta envolvente —, replica parcialmente o Palácio Andersen e o modelo francês das várias residências que construiu na Foz. O palacete de João Alves de Freitas, em Fafe, projectado quase em simultâneo com o anterior, tem parecenças com ele mas também foi buscar pormenores à Casa Tait e ao Palacete Santos Júnior. No centro de Oliveira de Azeméis, o Palacete dos Brandões remete igualmente para a Casa Andersen na Avenida de Montevideu (cujo projecto o autor admite lhe seja contemporâneo), ainda que sem escadórios nem varandas nas diferentes fachadas da casa, que por isso a casa ficou “uma caixa de paredes” (p. 164) divorciada do amplo e frondoso jardim aberto para a via pública por um gradeamento baixo, no vértice de um cruzamento viário (v. fotografia da p. 187).

Também em Estarreja António da Silva haveria de projectar “duas outras notáveis residências que constituem, ainda hoje, memória referenciadora da transformação arquitectónica por que passou a antiga vila de Antuã” (p. 167): o palacete do escrivão e autarca local António Caetano Lopes da Fonseca, na Rua Manuel Barbosa, de 1901; e a casa de seu irmão Joaquim, sem data especificada, mas “pouco posterior a 1900” (p. 178), acredita Tavares. Se na primeira são “numerosos os pormenores repetidos de outras obras” ou as “características organizativas” (pp. 169, 173) — o que bem facilmente se compreende pelo “elevado grau de coincidência no tempo” (p. 178) —, o declive do terreno permitiu-lhe criar uma varanda-miradouro a toda a largura do pavimento principal, prolongando a sala de jantar para o desfrute panorâmico do vale do Antuã até às planícies do Vouga. Na casa do irmão, é já a experiência das casas geminadas da Rua do Castro e o chalé da Rua da Índia a inspirar soluções para o “funcionamento equilibrado de uma casa menor” (p. 177). E como fecho da curta mas intensa obra de arquitectura de António da Silva, sobressai no alto da colina de Salréu, “acima do perfil das torres da igreja matriz” (p. 180), a referida casa do outro irmão, o referido Visconde de Salréu, construção de 1904-8, com um imponente mirante bem acima dos três andares que compõem o corpo principal da residência, que o autor considera “obra da primeira geração moderna do século, versão erudita […] na simplicidade das opções formais, de volumetria compacta mas muito bem definida, sem adornos ou complementos decorativos”, desprovida, portanto, na organização dos espaços interiores e nas ligações da propriedade com a rua, da “exuberância com que foram tratados os outros palacetes de torna-viagem” (p. 181).

Num capítulo final, intitulado “Eclectismos” (15 páginas ilustradas), Domingos Tavares expõe e discute outras transformações e protagonistas da arquitectura portuense finissecular (Marques da Silva, José Teixeira Lopes, António Rigaud Nogueira…) e daquilo a que chama “representação simbólica no espaço público”, para concluir que António da Silva, que “chegou tarde à dimensão criativa do processo construtivo”, “não deixou instruções, polémica pública ou discurso teórico para justificar o valor de um caminho próprio no campo da arquitectura”, apenas “obras notáveis, capazes de assinalar um momento marcante da transformação da arquitectura portuense” (pp. 214-15) — as quais, a partir de agora, graças a este pequeno livro, podemos observar e admirar com um olhar renovado.

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