Era uma vez a Whitbread Round the World Race (WRWR), uma competição à vela que se disputava de três em três anos e que pressupunha dar uma volta ao mundo por etapas. O seu nome derivava do patrocinador principal, a Whitbread, empresa que nasceu como cervejeira em 1742, mas que hoje controla cadeias de hotéis, restaurantes, cafés e bares, um pouco por todo o mundo. Em 1997, a Volvo Cars e a Volvo Group (camiões e máquinas de construção) adquiriram a empresa organizadora e os direitos de organizar o evento, baptizando-o de Volvo Ocean Race (VOR).

Depois de 20 anos como organizadora e patrocinadora da reputada maratona para veleiros, a Volvo anunciou agora a venda à Atlant Ocean Racing Spain, formada por Richard Brisius, Johan Salén e Jan Litborn, ex-velejadores da VOR, que se tornaram chefes de equipas da mesma competição e que agora passam para o leme da mais reputada volta ao mundo à vela (os dois primeiros já eram presidente e vice-presidente da VOR desde Novembro). A Volvo mantém o patrocínio, para suavizar financeiramente a transição, mas deixa de dar o nome à competição, que regressará ao mar, já com os novos donos, na edição de 2021-2022.

Nos primórdios, a WRWR era uma aventura para marinheiros e barcos, que algumas vezes terminava com a morte dos primeiros e o afundamento dos segundos. Mas esse risco era parte do isco que atraía os tipos duros do mar e a prova está que depois de ter apenas 17 veleiros à largada da primeira edição (1973-1974), chegou a aliciar 29 tripulações, antes de se tornar demasiado cara e afastar os interessados não profissionais, sem qualquer possibilidade de discutir a vitória.

Com a entrada da Volvo a situação não melhorou, pelo menos em termos de custos, pois para disputar a prova em condições e apesar do corte de cerca de 50% realizado com a introdução do novo barco, o VO 65, continuamos a falar de entre 15 e 20 milhões de euros para um projecto a três anos, que se disputa durante nove meses no mar (a edição de 2017-2018 arrancou a 14 de Outubro de 2017, com a chegada prevista para 30 de Junho de 2018).

A polémica que afasta a Volvo

Sem que conseguisse incrementar o número de barcos à largada – a oscilar entre seis e os oito, onde apenas metade podem aspirar a fugir às últimas posições – nas cinco edições da prova que organizou, a Volvo viu-se este ano criticada por nomes pesados da vela mundial, como Tom Ehman. Afirmou este antigo director do Team Oracle da America’s Cup, que “a Volvo Ocean Race perdeu a credibilidade”, reforçando as teorias da conspiração que há muito circulavam, apontando para resultados viciados, de forma a permitir que certas equipas vencessem em determinados portos, para aumentar a popularidade da competição.

Como se isto não bastasse, Ehman critica ainda a forma como a organização lidou com o acidente de que resultou um morto, entre o veleiro do Vestas 11th Hour Racing e um barco de pesca ao largo de Hong Kong, acusando-a de tentar escamotear a verdade, organizando conferências de imprensa fictícias e impedindo até os marinheiros de falar sobre o tema.

Sejam ou não verdade as acusações de Tom Ehman, certo é que na edição deste ano morreu John Fisher, da equipa Sun Hung Kai, após cair ao mar, e se a publicidade de estar envolvida no mundo da vela é bom para a marca sueca, estar rodeada de polémicas e morte não é nada bom, sendo mesmo o pior pesadelo de qualquer patrocinador, especialmente se for organizador. Até porque a opinião pública, que via as mortes de marinheiros como um acto de bravura nos anos 80 e 90, agora condena esses casos como desumanos. Sem nada a ganhar – a VOR não aporta muito, se alguma coisa, à saúde financeira da Volvo – e muito para perder, o construtor sueco fartou-se e saiu. Curiosamente, ficam no comando da competição os responsáveis pela confusão deste ano, pelo que a volta ao mundo tem tudo para voltar a dar que falar.