Aos sete anos já dizia que queria ser escritor. E assim foi. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Christopher Hampton já escreveu para cinema, televisão e teatro. Há 30 anos, venceu o Óscar para Melhor Argumento Adaptado pelo filme “Ligações Perigosas”, mas hoje é mais reconhecido pela adaptação do romance Atonement, de Ian McEwan, para o grande ecrã (no filme “Expiação”, de 2007, realizado por Joe Wright).

Com 72 anos de juventude, Christopher Hampton não quer parar: está a escrever o argumento de uma série de televisão sobre a queda de Singapura e um filme sobre uma requerente de asilo em Inglaterra, enquanto vai traduzindo várias peças de teatro. No último sábado foi a Espinho para participar no FEST – Festival Novos Realizadores Novo Cinema e conversou com o Observador sobre a responsabilidade que é adaptar um clássico e a selva que pode ser o mundo da sétima arte. Pelo meio, falou-se da questão dos refugiados, do Brexit e de como foi voltar ao local que o viu nascer – os Açores.

[o trailer de “Expiação”:]

No FEST, falou com jovens cineastas sobre os desafios de adaptar a literatura ao cinema. Há cerca de 10 anos, adaptou o romance Atonement, de Ian McEwan, para o grande ecrã e foi um sucesso. Mas também foi um grande desafio…
Acabou por ser uma experiência fantástica. Inicialmente trabalhei com um realizador, seguimos uma determinada direção, e depois o Joe Wright chegou e disse aquelas palavras que todos os argumentistas temem ouvir: “Acho que devíamos começar de novo.” Mas, gradualmente, acabou por se revelar uma boa ideia. Muitos argumentistas quiseram escrever o guião quando o livro saiu e Ian McEwan não o queria escrever, mas queria escolher quem o faria. Por isso, o primeiro passo foi jantar com ele e explicar-lhe como iria escrever o filme – e fiquei com o trabalho. Mas, na verdade, acabei por fazê-lo de uma forma bem diferente daquela que apresentei. A parte engraçada é que, quanto mais trabalhava no guião, mais me aproximava do romance. E acabámos com algo muito próximo do original. Essa foi uma experiência completamente diferente da que tive com o “Ligações Perigosas”, por exemplo, em que me baseei num romance francês pouco conhecido do século XVIII, todo escrito em cartas. No livro, as duas personagens principais nunca se encontram e eu tive de mudar tudo para garantir que elas se encontravam. Aí, tive de dar a volta.

Quais são as melhores adaptações feitas no cinema?
É uma pergunta interessante… Há um filme com argumento de Harold Pinter, baseado no livro The Go-Between, de L.P. Hartley. Li o livro e vi o filme quando era mais novo e ensinou-me muito sobre como pensar as adaptações. Também adoro o filme “Carta de Uma Desconhecida”, realizado por Max Ophüls, que é uma bela adaptação de um conto escrito por Stefan Zweig. Há muitas adaptações boas, mas não é fácil. Há mais más adaptações do que boas. E, habitualmente, as más adaptações acontecem porque quem escreveu o argumento não tentou compreender realmente o original e a sua intenção, apenas decidiu fazer o que queria. E, quanto melhor for um livro, pior pode ser o resultado. Se estás a adaptar Joseph Conrad ou Shakespeare, tens mesmo de respeitar o original. Não mudes nada, nunca vais fazer um melhor trabalho do que eles, por isso mais vale tentar perceber o que é que eles tentaram fazer com as suas obras.

Fala por experiência própria, porque já adaptou o Conrad…
Já adaptei dois romances de Conrad. O Nostromo, com o David Lean [que nunca chegou a ser realizado], é um livro muito complicado e repensá-lo para o transformar num filme coerente foi muito difícil. Depois, também escrevi e realizei “O Agente Secreto”. Esse romance já é mais direto, mas ainda assim é construído de uma forma estranha. Foi como desmontar uma mota e montá-la de novo. E é muito importante descobrir a melhor maneira de começar um filme. Em ambas as adaptações do Conrad, as primeiras cenas do filme foram retiradas do meio do livro.

[o trailer de “O Agente Secreto”:]

Prefere escrever para teatro ou para cinema?
Acho que prefiro escrever para cinema. Mas, assim que a escrita está feita, é muito mais fácil trabalhar no teatro. As peças de teatro são tecnicamente difíceis, mas o teatro é um espaço muito mais civilizado para trabalhar. Tudo ou nada pode acontecer no cinema. Eu escrevi mais de 50 guiões e apenas 17 foram realizados. Ou seja, dois terços dos filmes que escrevi acabaram por não ser feitos – e é frustrante. Por outro lado, no teatro escreves a peça e eles fazem-na tal como a escreveste.

Portanto, a persistência é uma qualidade essencial para todos aqueles que querem escrever para cinema.
Sim. E não podes ser muito sensível. Tens de desenvolver maneiras de lutar pelas tuas ideias. Uma coisa interessante que observei, ao longo dos anos, é que quando os produtores te dizem “sim, o guião está bom, mas não gosto daquela cena”, geralmente essa é a cena mais original do filme. Mas as pessoas repararam nela, sentem que não gostam e querem que a tires. De certa forma, se queres escrever para cinema, tens de aprender a ser um diplomata. É claro que, se a certo ponto vir que eles têm uma visão claramente diferente da minha, prefiro dizer que não vou poder fazer o que eles pedem. E depois sou despedido. Mas o que acontece na maior parte das vezes é que chamam um escritor atrás de outro, mas o filme acaba por nunca ser feito, porque a visão dos produtores simplesmente não funcionava.

Há um par de anos, disse que estava a escrever um argumento sobre requerentes de asilo em Inglaterra.
Estava precisamente ao telemóvel a trabalhar nesse projeto quando me ligaram para marcar esta entrevista. E acho que encontrámos uma realizadora. Vai ser uma história sobre uma jovem mulher, que está a tentar conseguir asilo em Inglaterra e a sofrer todo o tipo de coisas. Ia realizá-lo, mas pensei melhor e achei que faria mais sentido que se fosse uma mulher a fazê-lo. Na próxima semana vou encontrar-me com a realizadora e esperemos que tudo corra bem.

Mas como é que surgiu essa ideia?
Alguém deu-me um livro que não havia sido publicado sobre um assunto que me interessava muito – e o livro mexeu comigo. É sobre uma rapariga queniana a tentar escapar da violência do seu país. A pessoa que escreveu o livro, o Jason Donald, trabalhou durante vários anos numa instituição de caridade que cuida de requerentes de asilo. Por isso, ele conhecia todos os procedimentos. E achei muito interessante, porque acho que ninguém no meu país sabe que depois de pedires asilo político tens nove meses de burocracias diante de ti – não podes trabalhar, vives com 35 libras [o equivalente a 40 euros] por semana, és enviado para uma cidade da qual não poderás sair. E depois de nove meses a um ano, dois terços das pessoas são enviadas de volta. É um assunto de que toda a gente fala, mas ninguém sabe o que realmente acontece. Por isso, achei que valia a pena fazer um filme para mostrá-lo.

Acha que o tema dos refugiados precisa ser tratado com mais frequência no cinema?
Sim. As pessoas devem ter o conhecimento destes problemas sociais e o maior problema atual é o fluxo dos refugiados e as reações que se levantam contra eles na Europa. Temos de reagir com humanidade e compaixão. E eu acho que, de certa forma, o cinema tem o dever de informar a pessoas sobre coisas que elas não sabem ou sobre as quais têm ideias demasiado simplistas. É isso que vou tentar fazer com o meu filme, que se chama “Dalila” e que, em princípio, vai sair em 2020.

Em jovem, morou em Áden, Alexandria, Hong Kong e Zanzibar.
Sim, nós íamos para todos os locais onde o meu pai trabalhava. Foi uma experiência muito importante, porque sempre fui um outsider e isso é bastante útil se fores um escritor – porque vês o mundo de um forma diferente e estás constantemente a tentar fazer o melhor das situações em que és colocado. Eu frequentava uma escola nova a cada dois anos. Mas até gostava, era muito estimulante ir de um sítio para o outro.

E de que forma é que esse passado multicultural influenciou o seu trabalho?
Sempre tive muito interesse pelo que se passava fora do meu país. Uma larga percentagem do meu trabalho não tem a ver com assuntos locais. Escrevi sobre a América do Sul, sobre o Extremo Oriente, o meu trabalho cobre vários locais por todo o mundo. Eu também, ao estudar esses temas. Ou seja, de certa forma, o treino que tive em criança foi bastante bom.

Também foi em criança que decidiu que queria ser escritor.
Tinha sete ou oito anos. A essa idade comecei a escrever peças, incentivado pela professora de Teatro de uma escola em Alexandria. Desde aí nunca mais parei. Sempre quis ser escritor, o que é muito estranho, porque toda a minha família é mais ligada ao desporto e ninguém lia livros. Mas o meu pai foi fantástico. Eu sei que há muita gente que quer ser escritor e que se depara com a oposição dos pais, mas eu tive uma conversa séria com o meu quando tinha mais ou menos 14 anos e ele disse “Então devias começar já”. Escrevi um romance quando tinha cerca de 16 e enviei-o para todas as editoras que consegui encontrar em Londres.Todas recusaram-no, acho que não devia ser muito bom. Então, aos 18, pensei “Ok, como o romance não funcionou, vou escrever uma peça”. Escrevi e foi aceite. [risos]

Essa peça era a “When Did You Last See My Mother?”, que foi muito bem recebida e que o tornou no escritor mais jovem a ter uma peça no West End. Houve alguma desvantagem em ter atingido esse reconhecimento quando era tão novo?
Acho que foi confuso. Logo a seguir essa, escrevi uma segunda peça chamada “Total Eclipse”. Tinha 21 anos. Eu sabia que era uma peça muito melhor do que a primeira. Mas o mesmo teatro apresentou a peça e as críticas foram muito más, terríveis. Foi muito confuso, mas eventualmente apercebi-me que é assim que as coisas funcionam – escreves uma coisa e eles dizem que és fantástico, logo a seguir já não és. E, a parte engraçada, é que de todas as minhas peças essa é a que é apresentada mais vezes por jovens. E acabou por resultar num filme, com Leonardo DiCaprio e David Thewlis.

[o trailer de “Eclipse Total”:]

Já chegou a dizer que o seu ritmo de trabalho aumentou em vez de diminuir com a idade. Tem 72 anos agora – não sente a necessidade de fazer uma pausa?
Estou sempre entusiasmado para trabalhar. Nos meus 20 anos, escrevia uma peça, demorava sempre algum tempo até ela ser apresentada e depois fazia uma pausa. Era muito preguiçoso, mas viajei muito, vivi muito, constituí família. Agora quero simplesmente trabalhar e até acho que gosto mais de fazê-lo. Quando era mais novo, ficava muito mais ansioso quando escrevia, ficava preocupado, andava em busca da perfeição. Cada trabalho era uma carga de stress. Mas agora não, divirto-me, gosto do que faço.

Nasceu na ilha do Faial, nos Açores, e viveu lá durante três anos, por causa do trabalho do seu pai. Soube que voltou lá recentemente. Como foi?
Foi ótimo. Eu e a minha família alugámos uma casa em Faial, éramos seis. E uma das pessoas que veio foi o meu irmão, que é sete anos mais velho que eu – por isso ele lembrava-se muito bem daquele sítio. No terceiro dia em que lá estivemos, ele levou-me à casa onde nasci. E estávamos a espreitar para dentro das janelas quando um homem muito velho saiu da casa ao lado e contou-nos que se lembrava dos meus pais, que chegou a trabalhar com o meu pai, que se lembrava de eu ter nascido. E ele ainda estava a viver na mesma casa! Foi incrível, mexeu comigo. E é um sítio lindíssimo. A paisagem até tem algumas parecenças com o sudoeste de Inglaterra.

E quanto ao país em que vive: o que tem a dizer sobre a situação atual de Inglaterra, sobre o Brexit?
Foi precisamente quando estava nos Açores que se deu o Brexit. Estava a dormir no segundo andar da tal casa que tínhamos alugado. Eram 7h30 quando desci, todos os outros já estavam lá em baixo, e a minha filha disse-me “Estamos fora”. Nesse momento, decidi voltar para a cama. [risos] Ainda estive deitado durante umas horas a pensar “Como é que eles puderam ser tão parvos?”. Sempre me senti muito europeu e fiquei muito feliz quando nos juntámos à União Europeia. Toda a História da primeira metade do século XX foi sobre conflitos na Europa. Parar tudo isso e juntarmo-nos foi incrível. É claro que é difícil, mas tem de fazer sentido estar numa união, juntos. A última coisa realmente estúpida que fizemos foi a Crise do Suez, na qual estive envolvido porque eu e os meus pais tivemos de abandonar o Egito e não pudemos voltar. Isso foi muito estúpido. Mas o Brexit foi igualmente estúpido.