NOS Alive

Pearl Jam: a simplicidade como arma contra a ganância do mundo

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A banda apresentou-se no NOS Alive como se apresentou durante toda a carreira: simples, fazendo do rock and roll uma festa coletiva e procurando nos problemas do mundo um elo de ligação com fãs.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A noite estava praticamente ganha pelos Pearl Jam. Só um grande imprevisto faria do concerto no NOS Alive algo menos do que foi, ou algo menos do que tinham sido os concertos neste festival em 2007 e 2010: um espetáculo de grande comunhão entre o público, que esgotou o recinto, e uma banda que não só sobreviveu aos efeitos secundários mais nocivos do rock and roll e do grunge (os nomes de Kurt Cobain e Chris Cornell chegam para os explicar?), como manteve intocável o charme de outros tempos. O que se perdeu em irreverência — ela ainda lá está, mas Eddie Vedder e restantes Pearl Jam já não têm 20 anos –, ganhou-se em eficácia e popularidade. Afinal, aos miúdos dos anos 1990 juntaram-se os filhos dos anos 2010. E não faltavam durante o dia jovens com t-shirts dos Pearl Jam vestidas ou cartazes à entrada com pedidos desesperados de bilhetes.

Embora a banda valha como um todo — todos os músicos são de grande nível e os impressionantes riffs de guitarra de Mike McCready e Stone Gossard são disso prova evidente –, Eddie Vedder tem um carisma muito particular. A voz grave e profunda é um grande trunfo, a atitude de rocker intransigente que se move no mainstream sem o habitar totalmente (e sem se coibir de criticar o mundo que o rodeia) é outro. De que outra forma se explicaria que um dos músicos mais populares do mundo inteiro, líder de uma banda que não deve cobrar cachês modestos, faça um discurso crítico a propósito da desigualdade económica no mundo?

O concerto começou às 23h30, 15 minutos depois do esperado, com “Low Light”, tema repescado de Yield, álbum de 1998. Uma escolha diferente daquela que foi feita para o concerto de quinta-feira no Mad Cool Festival, em Madrid (“Release”), e da opção de arranque para o concerto de há 11 anos neste festival: “Interstellar Overdrive”, dos Pink Floyd, que os Pearl Jam voltaram a tocar nesta noite, mas mais tarde, e a que acrescentaram o clássico floydiano “Comfortably Numb” já no encore.

Seria a segunda música do concerto, contudo, a causar o primeiro momento de entusiasmo nas mais de 50 mil pessoas que assistiam ao concerto. “Better Man” é um daqueles temas que apaixona até os fãs mais ocasionais de Pearl Jam e acabou com um salto estilístico de Eddie Vedder no último acorde da guitarra. Já os mais aficionados, esses vibraram nas filas da frente até com as inesperadas “Low Light”, “Down” e “In My Tree”, temas menos habituais nos concertos da banda. À inclusão destas surpresas, um doce para os mais conhecedores da discografia da banda, ajudou a longa duração do espetáculo, que ultrapassou o marco das duas horas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Ok, alright”, atirava Eddie Vedder, nas primeiras palavras dirigidas ao público. As seguintes ouviram-se depois do tema “Go” (em que Mike McGready deu show num solo de guitarra), e logo em português: “Olá, boa noite Portugal. Estamos felizes por vos ver. Muito obrigado por nos convidarem para o vosso festival”, apontou o cantor. O rock prosseguia com “Mind Your Manners”, que antecedeu “Do The Evolution”, com Vedder já a reluzir de suor enquanto gritava a tirada satírica “It’s evolution baby”, e também “Given to Fly”. A primeira estreou inclusivamente as várias dedicatórias de Eddie Vedder a amigos portugueses. Ainda é preciso dizer que foi um arranque de luxo?

O vocalista voltou a pegar na guitarra e voltou ao rock depois de “Given to Fly”. A primeira homenagem aos Pink Floyd da noite, “Interstellar Overdrive”, abriu caminho a “Corduroy” e “Rats”. Eddie Vedder estava enérgico e a voz que o obrigou a cancelar um concerto da banda há dias não dava sinais de falhar — como se viu precisamente em “Rats”, em que o cantor não a poupou. Espirituoso, fez um brinde a Portugal com um copo de vinho: “Bebo este gole por vocês, por Portugal”. Talvez o quase tropeção que deu no último tema do concerto e o tom arrastado com que falou ao público tivessem algo a ver como esse tinto português.

Os hits voltavam, com “Evenflow” e “Daughter” a porem as filas de trás a cantar. Na última (“É para o Miguel”, pareceu-nos ouvir da boca do cantor), Eddie Vedder foi às laterais e, na segunda, operou uma pequena mudança: “está tudo bem” passou a ser mais um verso da canção. “Unthought Known” e Down” foram as seguintes e a estas juntou-se uma boa semi-surpresa no alinhamento, “Jeremy”.

Por essa altura, surgiu nos ecrãs um cartaz de um fã a pedir que os Pearl Jam cantassem “Rise” em “homenagem às vítimas dos incêndios”. Um pedido que quem não conhecer o historial da banda e do cantor poderá estranhar, mas que até se explica com facilidade, dadas as constantes posições interventivas, críticas e progressistas, que Vedder e os Pearl Jam há muitos veiculam publicamente.

“Can’t Deny Me”, a seguinte, veio acompanhado de uma mensagem incisiva sobre a violência contra as mulheres. Lembrando que tem duas filhas, Vedder apontou o dedo a um Portugal que não é o Portugal de que gosta: “A quantidade de violência a que as mulheres estão neste momento a ser sujeitas no vosso país…”. O resto da frase não precisava de ser concluída, Vedder avançou logo para a estratégia de combate: “É altura de protegerem as vossas mulheres, as vossas filhas, as vossas amigas”.

O concerto já ia avançado mas a banda não se cansava, com o seu rock de combate, de versos e acordes grandiosos, ora mais delicados e emocionais ora catárticos. E, se o que poderia ter sido o final do concerto foi um pouco menos forte. “Black”, introduzida entre “In My Tree” e “Lukin” e “Rearviewmirror”, não salvou uma ponta final menos forte.

A banda saiu de palco sem grande convicção, sem sequer se despedir do público. Era prova suficiente de que haveria mais e houve mesmo: o encore começou com um discurso de Vedder a criticar “as pessoas que pensam mais na ganância e no lucro do que no ambiente, nos imigrantes ou na igualdade” e a lembrar o “nosso amigo Barack Obama”. O timing das palavras não foi ocasional, antecedeu uma versão de “Imagine”, de John Lennon.

“Comfortably Numb”, dos Pink Floyd, deu continuidade à onda dos clássicos alheios. A esta seguiram-se os êxitos antigos “Porch” e “Alive”. Se acabasse assim, a noite estava mais do que ganha para todos, mas o grande momento ainda não tinha chegado: Vedder chamou o amigo Jack White ao palco e juntos tocaram “Rocking in the Free World”, de Neil Young. Duas referências do rock juntas a tocar um grande tema e hino libertador que na atual fase do mundo ganha uma pertinência ainda maior. Não se poderia imaginar final melhor para um concerto que provou que a (maior)idade assenta bem aos Pearl Jam.

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