Dois concertos de Pearl Jam em Londres — entre outras bandas — foram a desculpa que arranjei para ir passar uma semana de férias à capital inglesa. Esta é uma frase que provoca sempre uma expressão facial de estranheza na maior parte dos meus interlocutores, à qual se pode seguir entre uma a três perguntas, consoante o grau de ligação com a música da pessoa à minha frente.

1 – “Mas tu já não viste Pearl Jam uma vez?”

2 – “Dois concertos seguidos? Mas porque é que vais ver um concerto repetido?”

3 – “Vais vê-los a Inglaterra? Mas eles não vêm a Portugal?!”

A resposta a estas perguntas ajuda a explicar, em parte, porque é que os Pearl Jam se tornaram na mais bem sucedida banda da cena de Seattle. A única que, quase 30 anos depois da explosão do grunge, arrasta multidões por onde quer que passe. Este sábado, 55 mil pessoas vão apertar-se no Passeio Marítimo de Algés. A grande maioria quer ver Eddie Vedder, Mike McCready, Stone Gossard, Jeff Ament e Matt Cameron. Se numa qualquer fila para comer ou para ir à casa de banho tiver de fazer conversa de circunstância com um fã com uma tatuagem de Pearl Jam, evite fazer as perguntas supracitadas. Em caso de dúvida sobre como lidar com este espécime, segue uma espécie de FAQ sobre os concertos de Pearl Jam:

Então mas o Eddie Vedder já não tem voz?

Esta que vos escreve teve pontaria suficiente para comprar bilhete para o único concerto que a banda, em 28 anos de carreira, cancelou por falta de voz do seu vocalista. Quando a digressão europeia arrancou, em junho passado, a voz de Eddie Vedder não estava no seu melhor. No dia 18 de junho, em Londres, o vocalista quis ouvir o público cantar mais vezes do que o habitual, poupando-se sobretudo nas músicas mais rápidas e nos agudos. Os graves continuavam perfeitos. Durante o espetáculo, partilhou mesmo com a audiência que tinha aproveitado a estadia em Londres para se consultar com um médico da voz.

No dia seguinte, os Pearl Jam deveriam ter dado o segundo concerto previsto para a 02 Arena. Mas, ao início da tarde, anunciaram o cancelamento, Motivo: “Eddie Vedder perdeu completamente a voz”.

As notícias dos problemas de voz do vocalista dos Pearl Jam foram manifestamente exageradas. O resto da digressão tem decorrido com normalidade, a voz está recuperada e em melhor forma do que nos primeiros concertos de junho. Se Eddie Vedder tem tido mais cuidados com a saúde ou excelentes medicamentos, não sabemos. Certo é que no NOS Alive é garantido que o veremos beber a habitual garrafa de vinho em palco. E todos sabemos como o álcool faz bem às cordas vocais.

Quanto tempo é que os Pearl Jam vão tocar no NOS Alive e qual tem sido o alinhamento desta digressão?

Os Pearl Jam dão concertos longos, embora em festivais a duração tenha de ser mais curta. Olhando para o cartaz do NOS Alive, é provável que o espetáculo, com início marcado para as 23h15, dure duas horas.

O alinhamento é outra conversa. Desde que há Internet que quem quer antecipar as músicas que vai poder ouvir em determinado concerto de uma qualquer banda pode satisfazer a curiosidade sem problema, em páginas como o Setlist.fm. No caso dos Pearl Jam, essa rotina não existe. Não há um concerto igual ao outro, e é por isso que há legiões de fãs a correr atrás do grupo, de país em país, páginas de estatísticas de músicas tocadas e sites que dizem ao utilizador quantas músicas diferentes de Pearl Jam já ouviu ao vivo na vida. É como jogar à caça ao tesouro, mas em vez de ficarmos ricos só acumulamos despesa.

A cada espetáculo, a banda tem o cuidado de ver que músicas tocou naquele país em concertos passados, por vezes aceita pedidos especiais dos fãs no seu site e oferece raridades. No concerto de dia 18 de junho, em Londres, surpreenderam com “Parting Ways”, inserida no disco Binaural, do ano 2000. Nunca a tinham tocado na Europa.

Na digressão de 2018, e sem disco novo para promover, o coletivo de Seattle tem apostado nos clássicos do primeiro disco, Ten. Hinos como “Alive”, “Even Flow”, “Black” e “Porch” farão quase de certeza uma aparição, “Why Go” e, com sorte, “Once” ou “Jeremy”, também. Os álbuns Yield (1998), Vitalogy (1994) e Vs. (1993) surgem a seguir nas preferências.

O concerto deverá abrir calmo. Na última passagem dos Pearl Jam por Portugal, em 2010, no mesmo festival, arrancaram com “Release”. Se fizerem o trabalho de casa e não quiserem repetir, deverão optar por “Of The Girl” ou “Long Road”. De seguida, talvez chegue “Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town”. A partir daí, o ritmo poderá acelerar.

O último disco editado pelo coletivo de Seattle, Lightning Bolt, data já de 2013. Sendo a primeira vez que vêm a Portugal desde que Lightning Bolt saiu, podem dar ao público uma amostra desse material, com “Pendulum” e “Mind Your Manners” como opções mais prováveis.

Que versões de músicas de outras bandas vão tocar?

Como tudo o que diz respeito às escolhas para um concerto de Pearl Jam, é difícil dizer com certeza. “Imagine”, de John Lennon, é uma forte possibilidade. “Rockin’ in the Free World”, de Neil Young, ou um simples excerto de “Interstellar Overdrive”, de Pink Floyd, antes de “Corduroy”, quem sabe as vontades que terão este sábado.

Vão tocar alguma música do “Into The Wild”?

Por norma, os Pearl Jam não tocam canções dos álbuns a solo de Eddie Vedder. Ukulele Songs também não se vai escutar em Algés. Na digressão deste ano, contudo, a banda presenteou o público com “Setting Forth”, de Into The Wild, fruto de um pedido muito especial que recebeu. Foi uma vez sem exemplo e não deveremos ter direito ao mesmo tratamento no sábado.

Que cenário vai estar em palco?

A criatividade cénica do grupo de Seattle não prima pelo impacto. Contudo, este ano nota-se algum esforço em apresentar serviço. Em suspenso estão diversos suportes de luzes, cada um apontado em direções diferentes. Do topo descem e sobem também umas bolas brilhantes, com foco de luz ao centro, como se fossem astros.

Quando é que os Pearl Jam tocam numa sala fechada, como um Coliseu?

Em 2007, os Pearl Jam atuaram na primeira edição no então chamado Oeiras Alive, cujo nome se inspira na sua própria canção, “Alive”. Três anos depois, resolveram regressar ao mesmo palco. Em 2018, a história repete-se.

Há uma diferença substancial entre ver uma banda em nome próprio numa sala fechada e vê-la inserida num festival. Em sala, os concertos são mais longos, as escolhas de músicas são menos consensuais e o público é mais dedicado porque, se está ali, é porque quer mesmo ver quem vai estar em palco.

A resposta não é, por isso, animadora: tão cedo, não deveremos voltar a ver Pearl Jam em Portugal de outra forma. Os preços que cobram por espetáculo não são públicos, mas os rumores de valores superiores a um milhão de euros tornariam os preços de bilheteira de um Coliseu proibitivos para a carteira dos portugueses. Na Altice Arena poderiam fazer duas noites, como fizeram em 2006 no então Pavilhão Atlântico, o que corresponde ao dobro do trabalho para a banda. Dada a atual dimensão internacional dos Pearl Jam, em nome próprio, só um estádio lhes encherá as medidas por cá.

Agora a sério: vale a pena ver dois concertos seguidos de Pearl Jam no mesmo ano?

Havendo disponibilidade financeira e fanatismo em doses suficientes, a resposta é sim. Não havendo interesse por Pearl Jam, o ar de estranheza continuará no rosto de quem ouvir falar em semelhante ideia. O grupo tem um repertório extenso, construído ao longo de 28 anos de atividade ininterrupta, ao qual junta uma lista generosa de versões de outras bandas que admiram. E não tem medo de variar nas escolhas de uma noite para a outra, mesmo correndo o risco de ver Eddie Vedder esquecer-se de uma outra parte de alguma letra.

Em palco, a banda dá tudo o que tem, com destaque para a simpatia do guitarrista Mike McCready. Se estiver inspirado, Eddie Vedder lerá algumas palavras em português, sendo certo que dirige sempre ao público algumas palavras. Na plateia serão vários os estrangeiros presentes. Nem todos são festivaleiros habituais do Alive: há muitos que seguem a banda para onde ela vai. Se me esqueci de responder a alguma pergunta, abordem uma dessas pessoas. Só não lhe perguntem porque é que já viu tantos concertos seguidos da mesma banda.