Abre portas daqui a dois anos e pretende explicar o Terramoto de 1755 com entretenimento, dados científicos e realidade virtual. O projeto está no papel, mas os contornos estão definidos. Chama-se “Quake — Centro do Terramoto de Lisboa” e é uma iniciativa da empresa Turcultur, gerida pelos empresários Ricardo Clemente e Maria João Cruz Marques. Nas três áreas principais do edifício — cave, piso térreo e primeiro andar — será instalada tecnologia que permite entender a época e fazer uma viagem realista aos momentos assustadores do tremor de terra e do maremoto que se seguiu.

O espaço vai ser construído numa terreno da Rua da Junqueira, tal como a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou a 19 de julho. O projeto é assinado pelo gabinete Fragmentos de Arquitetura, fundado em Lisboa em 1994 e responsável por vários edifícios de escritórios e de habitação em Portugal e Angola.

Documentos fornecidos ao município pela empresa promotora, e informações entretanto recolhidas pelo Observador, permitem concluir que a ideia surgiu em 2015 e estará concretizada até ao verão de 2020. Houve contactos com a Administração do Porto de Lisboa e a tentativa de instalar o museu na Baixa lisboeta, por ter sido esta a zona mais atingida pelo cataclismo do século XVIII, mas só em 2016 o empresário Ricardo Clemente conseguiu avançar — e a luz verde veio do presidente da Câmara Municipal.

O empresário reuniu-se pela primeira vez com Fernando Medina em agosto de 2016, nos Paços do Concelho. Também estiveram presentes o vereador do urbanismo e do património, Manuel Salgado, e um representante do Turismo de Lisboa. Medina viu no “Quake” uma oportunidade para apelar aos turistas que visitam a cidade e pediu aos serviços camarários que encontrassem um local adequado à instalação do projeto — desde então conhecido informalmente como Museu do Terramoto.

Em novembro de 2016, Ricardo Clemente e Maria João Cruz Marques registaram a Turcultur como empresa, com sede provisória no Largo do Casal Vistoso, no Areeiro, e capital inicial de 200 mil euros. O sítio para construção do museu acabou por ser um terreno de 688 metros quadrados ao lado do Museu dos Coches, na freguesia de Belém. Corresponde ao número 311 da Rua da Junqueira, parcela hoje ocupada por barracões e considerada devoluta pelos serviços camarários. O acordo terá a duração de 50 anos.

Até 250 mil visitantes

Na proposta de cedência do terreno, publicada no site da Assembleia Municipal, o “Quake” é qualificado como de “relevante interesse público” e diz-se que “será sem dúvida mais um polo de atração turístico de Lisboa e de promoção histórica da capital”.

A meio caminho entre museu, centro interpretativo e parque de diversões, o projeto tem a ambição de funcionar como o museu Madame Tussauds, em Londres, ou o Museu do Muro de Berlim no Checkpoint Charlie. Pretende “ocupar e entreter” turistas, “mostrar a história de Lisboa” e “criar uma atração nas vertentes científica, histórica e de entretenimento”, dizem os documentos entregues ao município.

A entrada não se fará pela Rua da Junqueira, mas pela Avenida da Índia, no lado oposto ao do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. Os promotores esperam 250 mil visitantes por ano – praticamente metade do que a Torre de Belém acolheu em 2017. Durante os meses de primavera e verão, os turistas serão o público preferencial, com o custo médio dos bilhetes a rondar 12 euros. No resto do ano, a aposta também será feita nos estudantes. Há oito salas para visitar, para um máximo de 24 pessoas de cada vez, 144 por hora.

O projeto de arquitetura do “Quake” é assinado pelo atelier Fragmentos, de Lisboa

“Experiência imersiva”

Os conteúdos vão ser apresentados em português, inglês, espanhol e francês. O visitante começa por ser informado sobre temas de sismologia e proteção civil, depois é convidado a embarcar numa viagem virtual até meados do século XVIII. Caminha pela Lisboa daquela época, entra numa igreja e aí testemunha o terramoto. “Os bancos da igreja estão assentes numa plataforma hidráulica, sincronizada com mapeamento de vídeo, som, simuladores de odor, de fumo e de calor”, descrevem os documentos. “Na sequência dos abalos, por entre várias marcas de destruição, abre-se uma enorme racha na parede, através da qual os visitantes são convidados a fugir.”

A sala seguinte simula o tsunami que atingiu Lisboa naquela manhã de 1 de novembro de 1755. Por fim, há informações sobre a corte portuguesa e os efeitos da catástrofe no pensamento e na cultura da época. Mais do que interatividade, o museu procura proporcionar uma “experiência imersiva”.

A construção e entrada em funcionamento do Museu do Terramoto deverá custar seis milhões de euros, com três fontes de financiamento: capitais próprios, financiamento bancário e fundos europeus. Nesta última componente, a Turcultur já viu aprovada uma candidatura a fundos estruturais da Comissão Europeia, a rondarem dois milhões de euros, e espera o resultado de um outro concurso da mesma fonte.

Os conteúdos terão ainda de ser produzidos e para isso a Turcultur contactará historiadores portugueses especialistas no Terramoto de 1755. A apresentação de conteúdos e  a estratégia de desenho interior das salas está a cargo da empresa holandesa JoraVision, responsável pela idealização de parques temáticos e museus um pouco por toda a Europa.

Uma da pretensões da promotora é a de “partilhar conteúdos com o visitante” enquanto este passeia pela cidade de Lisboa, daí que esteja planeado o lançamento de uma aplicação de “realidade aumentada”, para que zonas como o Terreiro do Paço possam ser vistas no local e através do telemóvel tal como eram antes do terramoto.

Críticas da oposição

O acordo entre o município e a Turcultur não está isento de polémica. A cedência do terreno por um período de 50 anos e a renda anual de 24,4 mil euros que o Quake irá pagar originaram críticas à direita e à esquerda. Ao nível da Câmara, a proposta apresentada por Manuel Salgado teve os votos contra de PSD, PCP e BE. Na Assembleia Municipal, apenas PS, CDS, MPT e um deputado independente votaram a favor. A  falta de informação sobre aos conteúdos do museu e a inexistência de concurso público foram alguns dos argumentos apresentados pela oposição.

Ao aprovarem a cedência do terreno, os deputados municipais votaram também a 19 de julho, por maioria, uma recomendação da Comissão de Cultura onde se lê que “falta uma contextualização científica sólida para o projeto avançar” e que os achados arqueológicos que venham a ser encontrados no decorrer das obras do edifício devem ser preservados e integrados no acervo do próprio museu. A agência Lusa noticiou ainda que o grupo municipal do PSD vai agora apresentar um requerimento à Câmara para que o projeto seja novamente analisado pelos deputados.