Cinema

“Missão: Impossível — Fallout”: Tom Cruise, o trabalhador incansável do “blockbuster”

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O novo título da série "Missão: Impossível" deve ser o mais portentoso filme de acção do Verão, quiçá do ano, mas temos que abdicar do raciocínio para o apreciar. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas

Autor
  • Eurico de Barros

Justiça lhe seja feita, Tom Cruise sua bem cada dólar dos milhões que ganha, dá o corpo ao manifesto e fica cheio de mazelas. Em “Missão: Impossível-Fallout”, sexto filme da série, escrito e realizado por Christopher McQuarrie, Cruise atira-se de um avião em queda livre, cruza Paris a toda a velocidade numa moto, em sentido contrário e sem capacete, corre como numa final olímpica pelos telhados e terraços dos prédios de Londres saltando de um para o outro (na rodagem de uma destas sequências, magoou-se e a produção do filme esteve interrompida durante dois meses), anda á pancada numa casa de banho, pendura-se de um helicóptero por uma corda, e trepa por uma falésia acima sem equipamento de alpinismo. Isto aos 56 anos e já depois de umas plásticas. Tom Cruise é um efeito especial vivo, a estrela que tira o pão da boca aos “duplos”, o trabalhador incansável do “blockbuster”.

[Veja o “trailer” de “Missão: Impossível-Fallout”]

Tal como ele, também a série “Missão: Impossível” procura superar-se de filme para filme, num constante “upgrade” de dimensões, de espectacularidade, de risco, de fôlego cinematográfico, de esforço para espantar o espectador. Já sem quase nada a ver com a série de televisão original, onde pontificavam Peter Graves e Martin Landau, exceptuando o gravador de fita que informa Ethan Hunt (Cruise) da missão que poderá ou não aceitar e depois se auto-destrói, e dos gosto pelos disfarces, esta “franchise” de acção e espionagem é um colossal compósito dos filmes de James Bond, de Jason Bourne, e de super-heróis à paisana. As histórias importam muito menos do que a elaboração e sofisticação técnica e a coreografia das sequências de suspense e acção, e a audácia das proezas físicas ou motorizadas, sejam terrestres, aquáticas ou aéreas, a elas associadas.

[Veja a entrevista com Tom Cruise]

Tudo isto constitui um sério teste à verosimilhança e à capacidade de conseguir manter em suspensão a descrença dos espectadores. A fronteira entre a credibilidade e o absurdo é muito ténue neste tipo de produções, e a série “Missão: Impossível” já a ultrapassou há bastante tempo. Pelo menos desde que, em “Missão: Impossível 3”, de J.J. Abrams (2006), Ethan esteve morto durante alguns minutos e depois ressuscitou (Tom Cruise devia andar mesmo muito metido a fundo na Cientologia por esta altura, e subiu-lhe á cabeça). “Missão: Impossível-Fallout” será o mais embasbacador filme de acção do Verão, quiçá do ano, mas é também o mais obviamente disparatado. A única maneira de o apreciar é mesmo pôr o cérebro em ponto morto.

[Veja a entrevista com o realizador Christopher McQuarrie]

O enredo, turvo e vagamente exposto (a certa altura, a personagem de Simon Pegg exclama: “Mas porque é que fazem sempre as coisas tão confusas?”) tem como “mcguffin” para fazer disparar a acção o roubo de três núcleos de plutónio por uma organização terrorista com nome de banda de rock cristão, Os Apóstolos, que vai usá-las para fazer uns atentados que fiquem na história. Aos comparsas do costume (Pegg, Ving Rhames, Rebecca Ferguson, Sean Harris no vilão Solomon Lane, que precisa de chupar uns rebuçados do Dr. Bayard), vêm juntar-se algumas caras novas, como Vanessa Kirby (de “The Crown”) na Viúva Branca, uma amoral multimilionária que faz mediação entre governos e criminosos, ou Henry “Super-Homem” Cavill em Walker, um agente da CIA de punhos e coração duros como betão armado.

[Veja as proezas de rodagem do filme]

Depois de alguma conversa explicativa, considerável tiroteio, muita correria e as costumeiras reviravoltas quebra-costas do enredo, em geral implicando máscaras de látex, o filme vai desaguar à Caxemira para um clímax daqueles que envolve não só o cortar mesmo no último segundo dos fios que impedem que as bombas nucleares sejam detonadas, como também um “cliffhanger” literal, como os dos “serials” por partes do tempo do mudo. Há uma coisa que faz todo o sentido em “Missão: Impossível-Fallout”:  a frase de Ethan Hunt que remata a fita, “Não me façam rir que dói muito”. Considerando todo o esforço desenvolvido por Tom Cruise na pele do super-agente da IMF ao longo de quase duas horas e meia, e as amolgadelas que levou para casa no corpo todo, é-lhe totalmente legítimo fazer suas as palavras da personagem.

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