Há um ano, em Londres, uma página de história no atletismo era escrita pela mão de uma portuguesa, com Inês Henriques a vencer a primeira edição dos 50 quilómetros marcha femininos em Mundiais, conseguindo também o primeiro recorde mundial homologado pela Associação Internacional de Atletismo nos 50 km marcha (4.05.56). Esta terça feira, em Berlim, a concorrência era maior, mas nem por isso a atleta do CN Rio Maior se deixou abalar e voltou a marchar em direção a um ouro histórico, o primeiro em campeonatos da Europa para qualquer mulher na categoria, alcançado com a marca de 4:09.21 horas, à frente da ucraniana Alina Tsviliy e da espanhola Julia Takács. Inês Henriques acumula, assim, os títulos de campeã europeia e mundial de 50 km marcha femininos conquistados nas estreias das provas nas grandes competições internacionais, depois de uma luta pela igualdade entre géneros que tem permitido à atleta de Rio Maior demonstrar a sua superioridade perante as restantes mulheres. 

Para contar a história do triunfo da atleta portuguesa nos Europeus de Berlim é preciso recuar dois anos, até 2016, quando, na vertente feminina, apenas existia a distância de 20 km marcha nas grandes competições internacionais de atletismo. Se, no setor masculino, os Mundiais de atletismo contam com os 50 km marcha desde 1983, na sua primeira edição, os campeonatos da Europa têm esta prova na sua agenda desde 1934, ano de estreia da competição. No setor feminino, os 50 km de marcha tiveram a sua primeira competição oficial nos Mundiais de 2017, com a estreia nos Europeus a acontecer apenas esta terça feira.

E desengane-se quem pensar que a luta na estrada foi a única travada pelas atletas que, 84 anos depois, conquistaram  o direito de competir numa distância vista pela Associação Internacional de Atletismo (IAAF) (até agora?) como sendo apenas para homens. Na verdade, o combate burocrático e igualitário foi talvez o mais desgastante para as atletas que lideraram esta pequena grande revolta no atletismo, não acatando as ordens mais ou menos diretas da organização que tutela a modalidade a nível mundial e fazendo barulho suficiente para que tivessem de ser ouvidas.

Inês foi à luta e essa marcha valeu a pena: o ano de loucos nas estradas e fora delas para fazer história

O burburinho começou em 2016, com algumas vozes a levantarem-se no sentido de integrar os 50 km marcha femininos nos Campeonatos do Mundo, pela primeira vez na história. A IAAF respondeu, numa espécie de ‘não’ disfarçado de ‘sim’: as atletas femininas poderiam participar nessa vertente, mas teriam de competir com os homens e segundo as suas regras, ou seja, teriam a mesma marca de qualificação que o setor masculino (4.06.00).

Enquanto a IAAF tentava tirar a ideia de competir da cabeça das atletas, Inês Henriques provava que não queria outra coisa e, em Janeiro de 2017, foi até Porto de Mós dar um passe importante na guerra pela igualdade: a competir entre os homens, a atleta cumpriu os 50 km marcha em 4.08.25 e desceu a marca da sueca Monica Svensson (4.10.59), registando o melhor tempo de sempre na modalidade, no setor feminino. Ainda assim, este não foi homologado como recorde mundial.

(Créditos: Getty Images)

Ainda assim, a IAAF precisou que algumas federações internacionais se juntassem para combater a injustiça decidida pelo órgão maior do atletismo mundial e, só depois de a americana Erin Talcott ameaçar levar o caso para o Tribunal Arbitral do Desporto, o tempo de qualificação para os Campeonatos do Mundo subiu para os 4.30.00, uma marca bem mais realista que a anterior, ao passo que Inês Henriques viu o tempo obtido em Porto de Mós reconhecido e homologado como recorde do mundo.

E foi como recordista que Inês Henriques chegou a Londres, para competir numa prova histórica, fruto da luta das atletas, dentro, mas principalmente fora das estradas. Aí, com apenas sete corredoras, a portuguesa foi a mais rápida. Inês Henriques superou as chinesas Hang Yin e Shuqing Yang, a brasileira Nair da Rosa e as americanas Kathleen Burnett, Erin Talcott e Susan Randall para fazer o seu melhor tempo e encurtar o recorde mundial que já era seu para 4.05.56. Em maio deste ano, a chinesa Liang Rui até já roubou o recorde à portuguesa, retirando-lhe um minuto e 20 segundos, no Mundial de marcha por Nações, realizado na China, mas Inês Henriques não se deixou abalar e partiu para Berlim com o desejo de voltar a fazer história.

A glória de Inês Henriques: medalha de ouro com recorde mundial nos 50 km marcha dos Mundiais

Um ano depois da estreia oficial em grandes competições, os 50 km marcha femininos contavam com quase o triplo das participações. Se nos Mundiais eram sete as atletas inscritas à partida, nos Europeus o número subia para 19 (!), a prova mais que viva que a adesão à categoria existe, bastava criar condições. Inês Henriques chegava a Berlim com o melhor tempo de inscrição, 4.05.56 obtido em Londres, bem longe da segunda melhor marca, da espanhola de origem húngara Julia Takacs, com 4.13.04.

Favorita à partida, a portuguesa sagrou-se vencedora no final, sem grandes dificuldades, confessando que se sentiu melhor na primeira metade do percurso. “Durante os primeiros 20 km, senti-me bastante relaxada, mas depois as temperaturas começaram a subir e, aos chegar aos 30 km, comecei a lutar um bocado. Ainda assim, sabia que tinha uma vantagem considerável sobre as atletas que vinham atrás de mim e não me preocupei em acabar com um tempo mais rápido”, confessou Inês Henriques no final da prova.

Inês Henriques terminou os 50 km em 4:09.21 horas, superando a concorrência da ucraniana Alina Tsviliy por mais de três minutos (4.12.44) e da espanhola Julia Takacs (4.15.22). Das 19 competidoras a iniciar o percurso, apenas 14 terminaram a prova; o dobro de Londres, nos Campeonatos Mundiais. A tendência é, por isso, os 50 km marcha femininos crescerem nas grandes competições internacionais. E, depois de garantia a categoria nos Mundiais e nos Europeus, o próximo objetivo está bem definido: venham os Jogos Olímpicos.

Inês Henriques sagra-se campeã europeia nos 50 quilómetros marcha

“Foi uma conquista para mim e outras mulheres conseguirmos ter esta prova aqui. Já há um esforço conjunto para termos os 50 km marcha nos Jogos Olímpicos, por isso estou muito orgulhosa de ser uma das mulheres a lutar para que isso aconteça”, apontou Inês Henriques, com os olhos já postos em 2020.

Natural de Rio Maior, Inês Henriques cresceu a ver Susana Feitor, sua conterrânea, competir. Os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1991, onde acompanhou a prestação de Susana Feitor pela televisão, levaram-na a investir no atletismo. Filha da terra, por Rio Maior ficou. Campeã europeia, foi à sua cidade que dedicou o título: “Estavam cá a presidente da câmara e do centro de estágio, simbolizando que este é o trabalho de uma equipa. A força do trabalho de todos é que conseguiu este titulo, esperamos conseguir mais”, referiu em declarações à Sport TV.

Já com a medalha de ouro conquistada, Inês Henriques celebrou com o seu treinador de longa data, Jorge Miguel (Créditos: Getty Images)

Aos 38 anos, Inês Henriques lutou fora das estradas para conseguir o melhor resultado a marchar; venceu burocracias, barreiras e obstáculos impostos pelo órgão que tutela a modalidade que pratica; correu com homens para provar que as mulheres também o podem fazer; frente às mulheres, foi mais rápida e sagrou-se campeã do mundo e da Europa. Como se isto não bastasse, as conquistas já são passado e foca-se agora na batalha olímpica que terá pela frente de levar os 50 km marcha femininos a Tóquio, em 2020.

“Estou a fazer história e a provar que conseguimos fazer a prova com grande qualidade. Ser aos 38 anos é bom, mas ainda tenho coragem para continuar e fazer coisas mais bonitas”, confessava Inês Henriques, no final da prova. E, se nova luta for ganha pelas atletas femininas, que venham os Jogos Olímpicos, a história e a possibilidade de Inês Henriques. fazer mais coisas bonitas.