Desfile

De Trás-os-Montes para Brick Lane: a ponte aérea de Alexandra Moura

373

Da aldeia transmontana onde ia no verão para a paisagem urbana de Brick Lane, Alexandra Moura pegou em memórias de infância e fê-las desfilar. Como sempre, Londres recebeu-a de braços abertos.

Em Londres, Alexandra Moura está no seu habitat. Gostava que em Portugal também fosse assim — desfiles a começar cedo e passerelles expostas à luz natural. A antiga fábrica de discos de vinil, no bairro londrino de Brick Lane, já está debaixo de olho há um ano. Desde a primeira visita que a designer portuguesa se imaginou a apresentar aqui uma coleção, pela altura do pé direito, pelas paredes de tijolo e pelos janelões e claraboias que, justiça seja feita, exigem que o local seja visto à luz do dia. Cá está ela, sexta-feira, na habitual azáfama que antecede o desfile, de regresso a Londres, depois de uma estação em que o roteiro internacional do Portugal Fashion não trouxe ninguém a terras de sua majestade.

“Esta coleção ganha com a luz natural, fica tudo ainda mais natural, mais real. O desfile deixa de ser só um espetáculo, passa a envolver”, desvenda Alexandra, a poucos minutos do início. A maquilhagem parece complexa — há assistentes a escrever pequenos textos com marcador preto nos pescoços, nas mãos e junto aos tornozelos dos manequins. A prosa está só a começar. Desta vez, através da roupa, Alexandra prepara-se para contar a sua própria história.

Detalhe do desfile de Alexandra Moura © Divulgação

“Esta coleção mexeu muito com o meu íntimo. Marca uma fase em que me virei para mim”, explica ao Observador. A criadora, conhecida pelas viagens a outras culturas e latitudes, foi a Trás-os-Montes, à aldeia de Vila Verde da Raia, perto de Chaves, quase colada à fronteira com Espanha. Da terra, guarda as memórias: da casa dos avós paternos, da taberna que ficava no andar de baixo, dos dias de festa e de procissão e dos verões que passou descalça a correr de um lado para o outro. De tudo isto, nasce Heirloom, uma coleção que é um cartão-postal da infância da autora. Às memórias, juntam-se elementos já reconhecidos como a assinatura de Alexandra — as laçadas, o fitting largo, as camadas e os materiais texturados.

Hoje, os avós já não estão lá, mas, dentro da cabeça da designer, tudo continua como dantes. “Basta ver fotografias, falar ao telefone com o meu pai e ouvir o sotaque transmontano. A casa já não existe, mas continua tudo tão vivo na minha memória… O som dos sinos [que abriram e fecharam o desfile], as flores com que trabalhámos nos padrões e que nos fazem lembrar os sofás e as carpetes, aquela misturada toda, o quadro na parede, muito kitsch, e claro, também tinham um Menino da Lágrima”, conta. Das roupas do avô, resgatou o clássico pied-de-poule, das blusas da avó, as peças mais fluidas em viscose, e das viúvas da aldeia, a inspiração para o negrume de alguns dos coordenados.

Detalhe do desfile de Alexandra Moura © Divulgação

À parte dos estampados florais com um toque impressionista, a criadora adicionou à coleção uma certa candura, como tão bem mostram os primeiros e os últimos coordenados do desfile. Se nos pedissem, teríamos feito a primeira comunhão ali mesmo. Longas e fluídas, curtas e encorpadas, os materiais moldam as silhuetas daquilo a que Alexandra chama o lado mais puro da coleção. “A colcha branca acetinada, as cortinas com renda e um folhinho. A festa da aldeia, em que todos se vestiam como se fosse domingo, a procissão… Foi sempre uma frustração para mim nunca ter sido um anjinho”, explica.

Esta é a segunda vez que Alexandra Moura constrói uma coleção a partir de recordações de família. O Milagre das Rosas, coleção do verão de 2016, apresentada na ModaLisboa, era na realidade uma evocação das memórias dos avós maternos. A do próximo verão tinha tudo para ser uma ode bucólica à feliz vida do campo, mas a designer resolveu juntar-lhe referências urbanas já tão enraizadas no registo da marca. “Eu própria era uma criança que vinha da cidade. Usava ténis e na altura ficava tudo a olhar para eles ou para as t-shirts com um estampado do Snoopy. Eram coisas que não havia lá”, conta.

Alexandra Moura no final do desfile, esta sexta-feira, em Londres © Divulgação

Hoje, Alexandra chega a Londres mais depressa do que na altura chegava à aldeia dos avós. A capital britânica continua a ser a melhor montra para as criações da designer. Daqui, segue para um showroom, em Paris. Leva a roupa e os sapatos que resultam de uma nova parceria com uma marca de calçado portuguesa, a Exceed Shoe Thinkers. Já o grande mercado está a Oriente. “É um mercado que entende muito bem a nossa estética. A nossa silhueta vai muito ao encontro do que eles são enquanto povo, esta coisa de ser feminina mas não ser colada ao corpo, o largo, as camadas”, explica. No final do desfile, recebeu a editora da edição chinesa da revista L’Officiel nos bastidores. “Esteve a ver a coleção, gostou muito e quer introduzir-nos no mercado”, conta. A marca já está à venda em algumas lojas no país, mas todos os incentivos são bem-vindos. E sim, no próximo verão, todos estes vestígios da pequena Vila Verde da Raia vão estar espalhados pela Ásia. É a globalização, à maneira de Alexandra Moura.

O Observador viajou para Londres a convite do Portugal Fashion.

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mgoncalves@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)