Está abandonado e em ruínas, mas é uma preciosidade lisboeta. Espantoso miradouro sobre a cidade, cenário de frescos e painéis cerâmicos dos artistas portugueses Manuela Madureira e Luís Dourdil, o Panorâmico de Monsanto vai agora ser palco do Iminente — Festival Urbano de Arte e Música, com início nesta sexta-feira e duração de três dias.

O artista visual Vhils (ou Alexandre Farto) é um dos criadores do evento e propôs à Câmara Municipal a revitalização deste espaço – depois de duas edições de Iminente em Oeiras. Em visita guiada na quarta-feira de manhã, Vhils disse ter uma “relação muito especial” com o Panorâmico, que conhece “há vários anos”, e revelou que o festival voltará a acontecer ali mesmo em 2019 e 2020. “É um espaço que tem muito para explorar e com o qual ainda se pode aprender muito”, afirmou o artista, de 31 anos.

As mudanças que se preparam podem ser de larga escala. O edifício tem vindo a ser recuperado pela Câmara de Lisboa, através da limpeza de entulho e de vidros partidos que se amontoavam desde há muito, a instalação de grades de segurança e o reforço de estruturas decadentes. Reabriu ao público há cerca de um ano e meio, já com nova cara, e conhece muitas centenas de visitantes ao fim de semana, segundo a presidente da Junta de Freguesia de Benfica, Inês Drummond, também presente na visita guiada.

Agora, com o Iminente, o Panorâmico vai “ganhar um novo potencial de utilização” e esse modelo poderá ser replicado noutras zonas da capital, sugeriu o presidente da Câmara, Fernando Medina, que se fez acompanhar por José Sá Fernandes, vereador do Ambiente, e Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura.

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“Esta utilização era imaginável há dois anos e acho que depois do festival muita coisa vai mudar na forma como olhamos a potencialidade deste espaço”, afirmou Medina. “O espírito criativo que o Iminente introduz aqui, não só no Panorâmico como no parque florestal de Monsanto, fará surgir imensas ideias novas sobre como o espaço pode ser utilizado. Veremos a que é que isto nos leva. Há vários espaços em Lisboa que precisam deste tipo de arrojo. Para já, o maior projeto em que estamos envolvidos é a recuperação de toda a área da Manutenção Militar, uma fábrica que estava abandonada na zona oriental da cidade, e que será um espaço para empresas e artistas.”

A visita de quarta-feira, para a qual foram convocados os jornalistas, durou cerca de uma hora e levou responsáveis políticos e criadores do Iminente a quatro áreas principais do festival: Palco Principal (estrutura provisória para concertos), Palco Cave (onde surgem obras inéditas de Vhils e de João Louro), Primeiro Balcão (onde um DJ aparecerá de surpresa na sexta-feira) e o Panorâmico propriamente dito (cujos pisos superiores serão usados pela equipa e pelos artistas convidados, mas não pelo público).

O entorno será pontuado por intervenções e propostas de artistas visuais como André Saraiva, Francisco Vidal, ±maismenos±, VSP Crew, Wasted Rita ou Ricardo Jacinto. No primeiro dia, a partir da 16h00 e até cerca da uma da manhã, atuam Conan Osiris, Bonga, Omar Souleyman, Nástio Mosquito, Cumbadélica, Celeste Mariposa e Shaka Lion, entre outros. No sábado, destaca-se Norberto Lobo, Valete e DJ Nigga Fox. No domingo, Carlão, Sara Tavares e Gisela João. O bilhete diário custa 10 euros e só estão disponíveis 4.500 bilhetes por dia.

O Iminente vai na terceira edição anual e tem Vhils como um dos fundadores. A programação teve curadoria do próprio; da galeria de arte que ele criou, a Underdogs; e das editoras independentes de música Enchufada, Príncipe e Versus.

Aos jornalistas, o mais conhecido dos artistas portugueses que usam a rua como lugar de criação e exibição, descreveu o Iminente como “uma reunião de todas as subculturas urbanas, de Lisboa e Londres” (houve uma edição britânica em 2017 e deverá repetir-se ainda este ano).

“Tentamos reunir aquilo que está iminente e a borbulhar em diferentes áreas artísticas: música, arte, dança e performance. Desta vez, houve abertura da Câmara para trazermos o festival para dentro da cidade de Lisboa. A intervenção no Panorâmico traz esculturas ou peças que quase não mexem no edifício, porque a ideia foi deixar o espaço o mais cru e honesto possível, respeitando o que já cá estava”, explicou Vhils. “Lisboa atravessa um grande momento, o que tem aspetos positivos e negativos. É berço de uma criatividade enorme, em diálogo com muitas outras cidades. Estas iniciativas são importantes para mostrar o contributo que as subculturas dão à cidade, apesar de muitas vezes não terem atenção ou espaço.”

Projetado por Chaves da Costa, o Panorâmico de Monstanto foi inaugurado em 1968 e é propriedade da Câmara Municipal, estando devoluto há quase duas décadas. Foi restaurante, discoteca, bingo, armazém e espaço de escritórios. Situa-se junto ao Parque da Serafina,  Estrada da Bela Vista, no alto de Monsanto.

Pedro Ferreira, designer do estúdio multidisciplinar Pedrita, colaborador do Iminente desde a primeira edição, disse que o projeto de intervenção no Panorâmico teve como principal desafio a existência de áreas interditadas, que não podem ter circulação por motivos de segurança. “Tivemos de tornar isso suave, para que o público sinta o espaço de forma harmoniosa. Colocámos paredes e portas de madeira, que criam circuitos dentro do edifício, e usámos algumas obras de arte e os palcos para quebrar o acesso. Um grande puzzle”, classificou.

Sobre a revitalização que o festival traz ao edifício, Pedro Ferreira afirmou que é “sobretudo uma revitalização do olhar das pessoas”.

“Há estruturas novas, algumas provisórias, foram limpos os espaços verdes, existe alguma uma cosmética, mas não obras de fundo. O mais importante é o público voltar a olhar o edifício, apropriar-se dele. Ter aqui quatro mil pessoas por dia vai ser fascinante. Estou muito curioso para ver como o festival e o edifício reagem”, adiantou o designer.

Tanto Vhils como Fernando Medina sublinharam que o Iminente em Monsanto vai “respeitar” a área florestal circundante. “Pensámos o evento de forma muito prudente, com muito respeito pelo meio ambiente, e estamos aprender como utilizar esta zona de Lisboa de forma mais intensiva”, disse o autarca. Sobre a transformação deste edifício na sede da Proteção Civil, como tinha sido aventado há quatro anos, José Sá Fernandes respondeu categoricamente que a ideia já não está em cima da mesa.

À margem do tema da visita, o Observador questionou Medina acerca do Museu da Descoberta – uma proposta do autarca, ainda por concretizar, contestada por setores que lembram o papel de Portugal nas rotas da escravatura durante a época dos Descobrimentos. O presidente do município garantiu que não há novidades e remeteu para o Programa de Governo da Câmara para o período 2017 a 2021, no qual a proposta aparece inscrita.

Toda a informação sobre o Iminente aqui.