Web Summit

Da igualdade de género à privacidade: 5 temas que marcaram o dia 1 da Web Summit

Da igualdade de género às "fake news" e à privacidade online, escolhemos cinco temas que marcaram o primeiro dia de conferências da Web Summit.

Gillian Tans (Booking.com) e Vera Jourova (Comissão Europeia)

ANDRE DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Da igualdade de género às notícias falsas e à privacidade online,  houve esclarecimentos, críticas e um prémio de um milhão de euros para a cidade europeia mais inovadora, Atenas. Selecionámos os cinco temas mais marcantes deste primeiro dia de conferências na Web Summit.

Igualdade de Género: “As mulheres são sobreviventes. Este é um problema social”

“Há uma certa convicção de que é normal que as mulheres sejam menos bem pagas do que os homens. E as mulheres acreditam nisso também”. A crítica foi lançada por Vera Jourova durante um debate sobre a igualdade de género no trabalho, uma das conferências que marcaram a manhã desta terça-feira. Segundo a comissária europeia da Justiça, Consumidores e Igualdade de Género, é errado considerar “a posição da mulher como vítima” e, mais do que criar leis, é necessário mudar mentalidades, “lutar contra este estereótipo”.

Na prática, referiu Vera Jourova, a Comissão Europeia tem feito campanhas e introduzido mais mulheres em projetos “que lhes permitam ter mais perspetivas de futuro nas carreiras”, criando também “melhores condições para as famílias”, para que os cuidadores dela — sejam homens ou mulheres — possam continuam a investir na vida profissional enquanto gerem a vida familiar.

Continuamos a falar desta desigualdade de género como um problema das mulheres. Não é. As mulheres são sobreviventes. Este é um problema social”, alertou a comissária europeia.

Ao lado da comissária, estava a diretora executiva do Booking.com, também para falar sobre igualdade de género. Gillian Tans acredita que o crescimento do papel das mulheres, sobretudo em cargos administrativos, começa “no momento em que fazem escolhas para os estudos”. Cabe no entanto às empresas de tecnologia “assegurarem que as mulheres podem chegar lá”. E é por essa razão que a plataforma criou um projeto para “libertar bolsas de estudo para incentivar as mulheres a escolher este tipo de estudos e de empresas”.

Gillian Tans apontou ainda a transparência nas empresas como um aspeto essencial: “É um grande passo em frente e é algo que estimulo os outros a fazer”. Do Booking, chegou também o exemplo da criação do Technology Playmaker Awards, porque “muitas mulheres querem ver mais inspirações”.

No mesmo palco, mas em momentos e contextos diferentes, Stephanie McMahon sentou-se no sofá da Web Summit para falar sobre a “revolução” das mulheres na World Wrestling Entertainment (WWE). A diretora de marca da WWE considerou que este é o tempo ideal para a mudança de paradigmas.

Sobre a competição de luta profissional, Stephanie McMahon relembrou o momento em que as mulheres começaram a ser introduzidas no combate e a ser tratadas de forma igual e destacou uma memória do primeiro combate da WWE em que uma mulher participou: “Isto é esperança”, foi a expressão que os espetadores gritaram nesse dia. “As mulheres estão a conseguir captar as atenções”, concluiu.

Privacidade e Facebook: É preciso “manter as informações das pessoas em segurança”

A intervenção de Christopher Wylie era uma das mais esperadas do dia. O ex-diretor da Cambridge Analytica, que expôs a utilização indevida de 87 milhões de contas de Facebook para ajudar a eleger Donald Trump, contou tudo o que se passou durante o tempo em que trabalhava na empresa.

Christopher Wylie que trabalhou na Cambridge Analytica no Center. ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

“O meu trabalho era tentar perceber como utilizar dados para direcionar conteúdos a pessoas em grandes eventos contra terroristas”, justificou o antigo analista de dados, acrescentando que um dos clientes da SCL estava sentado ao lado de Steve Bannon – ex-conselheiro de Donald Trump – num avião, quando este viu o trabalho da empresa britânica pela primeira vez.

O Steve [Bannon] estava a olhar para um projeto para conseguir começar uma guerra cultural. E ele queria mesmo dizer guerra. As armas era a desinformação e a munição eram dados. Estávamos numa situação em que estávamos a trabalhar num projeto para uma coisa, e depois mudou-se para o contrário”, contou Wylie. Sobre o envolvimento do Facebook, foi perentório: “Avisei a administração Obama sobre isto e que essa informação [os dados dos milhões de utilizadores] tinha ido parar à Rússia. O Facebook aprovou isto. Sempre soube disso e nunca fez nada. A administração de Obama disse-me para não me preocupar. Achavam que o Donald Trump era um parvo e que Hillary Clinton ia ganhar”, continuou Christopher Wylie.

Sobre se valeu a pena ou não ter denunciado o caso, a resposta foi positiva. “Porque agora as pessoas estão a falar sobre isso. Sinto que tenho o dever de falar. Eu estava ali sentado num dos maiores abusos de dados de sempre. Agora tenho de falar sobre isso”, acrescentando que daqui a 20 anos o mundo “vai ser só inteligência artificial.

Também a vice-presidente da Google falou da privacidade online e de como as nossas informações podem (ou não) ser partilhadas. Em cima da mesa esteve também a recente polémica da Google+, que, devido a uma falha, expôs os dados de meio milhão de utilizadores e levou ao encerramento temporário da plataforma. Mas Tamar Yehoshua garantiu que a missão da Google continua a mesma: “Estamos sempre focados em tornar a informação acessível e útil”.

A vice-presidente da gigante tecnológica avisou ainda que “as decisões [sobre os dados] não são apenas preto e branco”, e que é necessário cumprir a responsabilidade em “manter as informações das pessoas em segurança”.

Segurança para todos não significa que toda a gente tem de ter o mesmo nível de segurança. Temos de garantir que temos proteções que assegurem diferentes contextos”, explicou Tamar Yehoshua.

Na Google, referiu Yehoshua, cabe aos utilizadores “a escolha de decidirem que ferramentas querem utilizar” e é preciso “ser mais transparente sobre a informação que é recolhida e sobre como essa informação vai ser utilizada”.

Uma das vertentes que Tamar Yehoshua destacou foi a capacidade de saber simplificar as informações que as empresas dão aos utilizadores no que toca à privacidade e aos dados que podem ser utilizados. “Temos de garantir que toda esta informação é simples e compreensível”, explicou. “Só vocês é que decidem o que é certo para vocês”, terminou Tamar Yehoshua, apelando ao trabalho em conjunto “para que tudo isto resulte”.

Na última conferência do dia, Young Sohn também abordou, ainda que de forma mais leve, a questão da privacidade. “A informação pertence a vocês, não a nós”, foi com esta frase o presidente da Samsung terminou a sua intervenção, depois de falar sobre o que a Inteligência Artificial permite fazer na área da saúde, na área da condução autónoma e sobretudo dos benefícios para os utilizadores.

Young Sohn ( Samsung Electronics) no Center Stage da Web Summit. ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Criptomoedas: 25 dólares para cada participante da Web Summit

A intervenção de Peter Smith, cofundador e presidente da Blockchain, começou com um anúncio a todos os participantes da Web Summit: cada pessoa vai receber 25 dólares em XLM (Stellar Lumens). Basta inserir o código que a organização enviou a cada participante para ter direito às criptomoedas. Na hora do debate, juntaram-se a Peter Smith, Tim Draper, fundador da Draper Associates e Garry Tan, cofundador e parceiro da Initialized Capital.

Tim Draper não teve dúvidas: “Os melhores governos vão estar abertos e a encorajar as pessoas a explorarem este novo mundo” das criptomoedas. Já Peter Smith admitiu que é “um pessimista notável” por natureza, mas diz que os resultados desta área ultrapassaram as expectativas. “Estamos mais à frente do último modelo que desenvolvemos há alguns anos”.

Sobre a falta de liberdade no mercado, o fundador da Draper Associates lamenta que “os mercados sejam tão restritos que magoam as empresas”. Gary Tan concordou que este é “um dos grandes problemas” que o mundo das bitcoins tem de enfrentar.

“Vão comprar uma criptomoeda!”, apelou ainda Tim Draper. E acrescentou: “Vão sentir-se muito melhor”. “Porque é que temos de deixar as decisões políticas impedirem este negócio? Os bancos centrais imprimem dinheiro quando lhes apetece”, rematou o fundador da Draper Associates.

Fake news: “Uma mentira percorre meio mundo antes de a verdade ter tempo de vestir as calças”

As eleições intermédias nos Estados Unidos são esta terça-feira, lembrou Matthew Garrahan ao introduzir em palco Ana Brnabic, a primeira-ministra da Sérvia, David Pemsel, presidente executivo do The Guardian Media Group e Mitchell Baker, a presidente executiva da Mozilla. “As fake news estão a começar a ser um problema. Vamos ter de investir mais e mais tempo a seguir as notícias e ver se são verdadeiras do que em realmente trabalhar”, começou por dizer Ana Brnabic, citando ainda uma frase de Churchill para explicar que o fenómeno é antigo: “Uma mentira percorre meio mundo antes da verdade ter tempo de vestir as calças”.

Mas David Pemsel disse não acreditar que não haja tecnologia, engenheiros e dinheiro suficiente para resolver o problema da disseminação de notícias falsas: “Não acredito que seja tão difícil assim encontrar uma tecnologia que consiga distinguir o que é bom e o que é mau”. Mitchel Baker, pelo contrário, afirmou que o problema é mais do que tecnológico.

Mentimos ao longo de toda a história. Temos de viver com esse aspeto da natureza humana? Sim, temos, a nossa espécie é assim. O que acho que se está a fazer é rebuscar o pior do que há na nossa espécie. Isto tem de ser solucionado, mas vai demorar demasiado tempo. Requer uma evolução das plataformas. E que os governo estejam muito mais empenhados nisso do que estão agora”, disse Mitchel Baker, presidente executiva da Mozilla.

O jornalista Matthew Garrahan lembrou que umas das notícias mais partilhadas no ano passado foi uma notícia falsa “porque as pessoas o gostam de fazer, partilhar conteúdos”. Mitchell Baker interrompeu para completar o pensamento: “As pessoas gostam de o fazer, de partilhar. Mas nós, cidadãos, temos de perceber que as coisas que gostamos de fazer, como partilhar estas notícias, também nos cria responsabilidade para não o fazer”.

Mitchell Baker ( Mozzila), David Pensei (The Guardian Media Group) e Ana Brnabic (Primeira Ministra da Sérvia). ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

A política sérvia alertou, no entanto, para a regulação como ferramenta para combater as notícias falsas. “Regulação a mais leva a sociedades mais próximas e isso não é bom para a democracia”, argumentou. Qual a melhor ferramenta? “A educação”, respondeu.

O segredo é investir estrategicamente na educação. Acho que investir na educação no mundo de hoje é ensinar crianças a saber como pensar — não o que pensar. É preciso questionar informação, questionar a autoridade e ter pensamento criativo. Isso é do mais difícil para se fazer num governo, mas temos de o fazer”, explicou Ana Brnabic.

Ao terminar a conferência, a primeira-ministra da Sérvia falou também do lado positivo do fenómeno das fake news: “Há coisas muito positivas. Lentamente está-se a exigir aos governos que sejam mais transparentes. Acho que as fake news vão levar os cidadãos a exigir mais verdade e exigência da informação”.

Prémio Inovação Europeia: 1 milhão de euros para Atenas

Atenas foi a grande vencedora do prémio Capital Europeia da Inovação deste ano, um prémio com o valor de um milhão de euros. O cheque foi entregue no palco principal da Web Summit por Carlos Moedas, comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação, que referiu que “as cidades são os laboratórios vivos para a inovação”.

O presidente da Câmara de Atenas subiu também ao palco para destacar a luta do povo da cidade: “Para ser honesto, Atenas não é uma cidade inteligente mas tornou-se uma cidade sábia. Para nós, esta distinção é mais do que um prémio. É um reconhecimento de como a cidade lutou para continuar de pé. É uma cidade forte que está a ultrapassar as dificuldades”.

Mayor de Atenas e Carlos Moedas. ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Giorgis Kaminis disse mais tarde em conferência de imprensa, que “depois de ser eleito em 2011 foi um tempestade autêntica. O país estava numa crise moral e económica”. “A grande coisa foi que percebermos que não estamos sozinhos. Graças à crise vimos grupos e comunidades a surgirem na cidade para ajudarem as pessoas. Isso foi um incentivo”.

*Artigo editado por Ana Pimentel

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)