Educação

Estudo. Só 1% dos portugueses quer ser professor

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Estudo apresentado na nova edição do Global Teacher Prize mostra que 76% dos inquiridos nunca ponderou ser docente. Taxa de rejeição sobe se se juntar os que pensaram nisso, mas mudaram de opinião.

O estudo da GfK mostra ainda que são os professores primários quem mais marcou a vida dos portugueses

FILIPE FARINHA/LUSA

É a terceira profissão mais confiável na opinião dos portugueses, só ultrapassada por médicos e bombeiros, mas, apesar disso, quase ninguém pensa seguir a profissão de professor. Esta é uma das conclusões do estudo que será apresentado esta quinta-feira no lançamento de mais uma edição do Global Teacher Prize, feita a cidadãos com 15 ou mais anos, e que mostra que só 1% dos inquiridos tem como objetivo profissional ser professor.

Do outro lado, há 76% de portugueses que responderam nunca terem pensado tornar-se professores, 13% chegaram a pensar seguir esse caminho profissional, mas mudaram de opinião e 4% foram professores, mas deixaram de exercer a profissão, não clarificando o estudo se foi por motivo de reforma ou por mudança de carreira. Ou seja, contas feitas, 93% das respostas afastam a docência do caminho profissional dos portugueses.

Um dado curioso é que quanto maiores são as habilitações literárias e o status social do inquirido, menor é a rejeição à ideia de ser professor. Entre os portugueses cujas habilitações não passam do 1.º e do 2.º ciclo do ensino básico, a taxa de rejeição é de 93%. Mas para quem tem o secundário o valor desce para 82%, baixando ainda mais (51%) quando a pergunta é feita a quem concluiu o ensino superior.

Feita a desagregação por classe social, os resultados são semelhantes: a taxa de rejeição de uma carreira como docente é de 56% nas classes A e B e dispara para 89% nas classes mais baixas, D e E.

O estudo, feito pela GfK a pedido da organização portuguesa do Global Teacher Prize e da Fundação Galp, parceira do prémio, tem como objetivo perceber como é que a sociedade perceciona os docentes e, a partir dos resultados, abrir um debate sobre o papel dos professores.

Esse é também um dos objetivos do prémio internacional: trazer o tema da educação para a ordem do dia, premiando os professores que se distinguem pelas suas boas práticas pedagógicas. Reconhecido como o Nobel da Educação, o prémio está estabelecido em 120 países. Em Portugal, em 2018, na primeira edição do prémio, o vencedor foi o professor Jorge Teixeira, contemplado com 30 mil euros, e que está agora entre os finalistas da edição mundial de 2019.

A grande vencedora do ano passado foi Andria Zafirakou, considerada a melhor professora do mundo e que, como tal, recebeu um milhão de dólares.

Professores: confiáveis, respeitáveis, mas uma profissão desgastante que não é para todos

O que é que afasta então os portugueses da carreira docente? Desde logo, a explicação parece ser a perceção de que esta é uma carreira desgastante e que nem todos terão perfil para exercê-la. Apesar de a profissão ter um índice de confiança de 83% — surgindo no terceiro lugar das carreiras mais confiáveis (bombeiros têm 94% e médicos os mesmos 83%) — e de estar em quinto lugar no índice de respeitabilidade (com 70%, abaixo de polícias, militares, médicos e bombeiros), não é vista como uma carreira atrativa.

Segundo o estudo, quase metade dos inquiridos (49%) concorda que “os bons alunos na faculdade não vão para professores, seguem outras profissões”, enquanto 89% considera que “ser professor é uma profissão desgastante”. Mesmo acreditando que não são os melhores estudantes que querem tornar-se professores, as conclusões do estudo mostram que a esmagadora maioria (76%) acredita que para ser um bom docente é preciso estudar muito. E mais de metade (62%) acredita que “não é qualquer um que pode ser professor”. Por outro lado, 44% acredita que os alunos não respeitam os professores, o que também pode ser um fator a explicar a falta de atratividade da profissão.

São também os mais jovens, e que poderiam vir a ponderar este percurso profissional, os mais desencantados com a carreira docente. Os jovens entre os 20 e os 24 anos, seguidos pelos de 35-44 anos, são quem mais acredita que a sociedade não respeita esta profissão.

Os bons professores são os que motivam

Apesar de a maioria dos inquiridos considerar que a qualidade do ensino e dos professores em Portugal é boa, a opinião não é consensual: 69% contra 31% considera que “a qualidade dos professores em Portugal é elevada”. A divisão é praticamente a mesma (68% contra 32%) quando a pergunta é sobre a qualidade do ensino português. Ou seja, há uma confiança moderada na qualidade dos professores e da educação.

Mas o que é ser um bom professor? Aqui, as respostas são quase unânimes: um bom docente “é aquele que motiva os alunos, mesmo que não seja o maior especialista na disciplina”. Dito de outra forma, esta fatia (92%) dos portugueses dá maior valor às competências pedagógicas do que a quaisquer outras.

Não é assim de estranhar que 71% diga que teve um professor que foi muito importante na sua vida, valor ainda mais alto entre os jovens dos 20 aos 24 anos (80%) e entre a população com habilitações universitárias (78%).

E esta importância afeta várias dimensões da vida. Falando dos professores em geral, e não de um em particular como na questão anterior, a esmagadora maioria (91%) considera que os docentes foram importantes na sua vida escolar e 86% afirma que essa influência afetou a sua vida em geral. O estudo mostra ainda que são os professores primários (1.º ciclo do ensino básico) quem mais marcou a vida dos portugueses. À pergunta “o professor que marcou a minha vida foi”, quase metade (47%) elegeu o docente do 1.º ciclo, em contraste aos 5% que apontaram um professor universitário. No meio termo, com 10% das respostas, ficam os docentes do secundário.

Olhando para os dados demográficos, vê-se que é entre a população com mais de 65 anos e com curso superior que o professor primário tem um papel mais preponderante, enquanto que os docentes universitários são escolhidos pela população entre os 20 e os 35 anos.

Global Teacher Prize. As novidades da edição de 2019

A edição portuguesa tem este ano três objetivos principais, conforme explica a organização: “Sublinhar a importância do papel dos professores no desenvolvimento da educação e do país; partilhar boas práticas de evolução e mudança, mais adaptadas às novas necessidades e promover um debate construtivo sobre o futuro da educação e os novos desafios”.

Uma das novidades deste ano, na edição portuguesa, é a “dinamização de um movimento de reconhecimento do papel dos professores, que, com iniciativas especialmente desenhadas para cada grupo, pretende envolver todo o ecossistema educativo: professores, alunos, pais, comunidade educativa e a sociedade em geral”.

As candidaturas nacionais arrancaram esta quinta-feira, 17 de janeiro, e decorrem até 3 de março. Todo o processo é feito online, tendo o professor de explicar o motivo pelo qual acha que merece receber o prémio. A edição de 2019 abrange professores de todos os níveis de ensino, do pré-escolar ao 12º ano, do ensino público ou particular, e em atividade em Portugal ou em instituições nacionais.

Na sua edição nacional, o júri tem como presidente honorário o professor Álvaro Laborinho Lúcio e é presidido por Afonso Mendonça Reis (que integra o júri do prémio internacional). Em representação da comunidade científica está Pedro Carneiro, Sara Rodi em representação dos pais, João Brites em representação dos alunos e ainda o psicólogo Eduardo Sá. A edição portuguesa mantém os mesmos parceiros do ano anterior, Fundação Galp, Delta e Federação Portuguesa de Futebol.

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