Somos bons a fazer objetos. Foi desta simples constatação que nasceu a Portuguese Makers, em 2017. Na altura, Ana, Inês e Vasco Bruto da Costa deixaram de partilhar apenas a mesa dos almoços de família e arregaçaram as mangas para organizar uma semana de workshops cujo lema era criar um objeto por dia. Era para ser uma coisa única, não sabiam bem o que estavam a fazer, mas o sucesso trocou-lhes as voltas. Havia muita gente desejosa de pôr as mãos na massa, sobretudo com os parceiros que eles arranjaram.

Amorim, Vista Alegre, Viarco, Claus Porto, Joana Astolfi, Gonçalo Prudêncio e Miguel Vieira Baptista são apenas alguns dos designers e marcas que a Portuguese Makers conseguiu reunir, primeiro na Casa de Santa Maria, em Cascais, depois na Fundação de Serralves, no Porto. O funcionamento das craft weeks, como lhes chamam, parte disso: encontrar parceiros com produção em Portugal e levá-los a partilhar o que fazem com uma assistência de curiosos vindos dos quatro cantos do mundo e das mais diversas áreas.

Ana Bruto da Costa, 29, arquiteta. Teve a ideia da marca depois de perceber, na Suíça, como o made in Portugal era tão valorizado lá fora. © Maria Rita

No início ninguém lhes ligava e foi preciso enviar emails para as marcas, ligar e insistir até conseguir “falar com não sei quem que passou o telefone a quem não devia”, brinca Ana. “Mas quando nos sentamos e conseguimos apresentar o projeto, normalmente a resposta é positiva e há muito entusiasmo. Ficam surpreendidos porque normalmente não fazem isto.”

“Isto” é fornecer desperdícios de lápis para com eles fazer um objeto de secretária, no caso da Viarco, ou abrir as portas da fábrica para uma aula de pintura em cerâmica, como aconteceu com a Vista Alegre. “Se uma marca que já está estabelecida puder de alguma forma contribuir para o desenvolvimento de algumas pessoas que têm as suas ideias e querem fazer coisas, ótimo. Nós no fundo o que estamos a fazer é simplesmente pô-las em contacto”, resume Ana.

A ideia da Portuguese Makers veio da sua cabeça e nasceu quando estava na Suíça, a trabalhar no atelier de arquitetura Herzog & de Meuron, responsável por edifícios emblemáticos como a CaixaForum, em Madrid, e o estádio Ninho de Pássaro, em Pequim. “Como o escritório é muito grande, eles fazem tudo, desde o desenho de arquitetura ao dos próprios objetos que estão no espaço”, conta Ana, que rapidamente percebeu que o atelier contava com Portugal para produzir protótipos para esses mesmos objetos, “não só em cortiça mas também noutros materiais”.

Inês Bruto da Costa, 25 Irmã de Ana e formada em design, é a primeira a ajudar os participantes dos workshops a porem as mãos na massa e a resolverem bloqueios. © Maria Rita

Voltou “para fazer coisas cá” e para mostrar ao resto do mundo “como temos capacidade de produção”, mas também para “permitir a qualquer um fazer coisas com as mãos”. De caminho desafiou a irmã Inês, acabada de formar em design, e o marido Vasco, da área de gestão, a juntarem-se ao projeto, com o irmão Francisco responsável pela parte da comunicação. Elas são a parte criativa, Vasco o realista que faz os planos de negócio e define a visão estratégica. Os três brincam com isso, com Ana a atribuir a concretização da Portuguese Makers ao gestor, e Vasco a dizer que o projeto só avançou por causa das irmãs Bruto da Costa: “Eu sou racional, mas também é preciso pensar um bocadinho fora, e é isso que elas fazem. Se fosse o gestor a fazer sozinho, não se fazia.” Sobretudo se o gestor, como o próprio admite, tiver “zero jeito de mãos” e andar de penso rápido no polegar porque pegou num x-acto e cortou-se mesmo antes de a primeira aula começar.

Antes dos workshops são os três que montam tudo, com a ajuda de uma pequena equipa, e fazem questão de ter as ferramentas impecavelmente alinhadas e o espaço livre de logótipos, para “ajudar à criatividade”. O que proporcionam é contra-corrente ao mundo dos nativos digitais, ou talvez seja precisamente o contrário: “Estamos a caminhar para um mundo super tecnológico. A nossa geração e a geração abaixo da nossa desmaterializou-se. Mas aos poucos a sociedade está a fazer o movimento inverso. Porque somos humanos e temos necessidade de tocar, de fazer com as mãos, e é isso que nós queremos devolver aqui”, diz Vasco.

Vasco Bruto da Costa, 30 Marido de Ana, é o gestor e o racional. Como o próprio admite, não tem jeito nenhum com as mãos. Da última vez que pegou num x-acto cortou-se. © Maria Rita

Depois de duas edições, 2019 trouxe novidades. Em vez de ocupar cinco dias úteis, os workshops acontecem ao fim de semana, e o próximo já tem tema e data marcada: 30 e 31 de março, no Reservatório da Mãe d’Água, em Lisboa, com as cestas de verga da marca Toino Abel.

Na primavera chega outra grande novidade: a primeira coleção de mobiliário e objetos de decoração da marca. “Esta é uma parte muito importante da Portuguese Makers (na verdade foi aqui que tudo começou) e o que fazemos é contactar designers e arquitetos, nacionais e internacionais, e passar-lhes um briefing muito concreto com o tipo de objetos que queremos, qual a sua utilidade e o material”, explica Ana.

A estreia será em linho e a ideia é que esta coleção seja usada em espaços domésticos de descanso. Primeiro objeto? Um candeeiro de teto desenhado pelo arquiteto Manuel Aires Mateus com uma nova interpretação do que é um abat-jour de tecido. Seguir-se-ão outras três ou quatro peças até ao final do ano, numa lógica de coleções anuais.

No próximo workshop vai ser possível aprender a trabalhar com um tear de junco. © Dinis Santos/Sanda Vuckovic

Apesar da produção ser nacional, neste caso feita na zona de Guimarães, a Portuguese Makers quer apostar na exportação, sobretudo para o centro da Europa. E a escolha do linho enquanto material não é inocente: “Era um material muito usado e fazia parte dos momentos de lazer de algumas famílias que tinham os seus próprios fusos e os seus próprios instrumentos para produzir linho”, diz Ana, “mas pela informação que temos já não há plantações de linho em Portugal, importa-se a planta e transforma-se em fábrica.”

À semelhança dos workshops, que querem promover um regresso às técnicas manuais, aqui traz-se de volta “um material nobre que fazia parte do dia-a-dia das famílias”. Com um detalhe interessante para quem vive de pôr as mãos na massa: é que mesmo amachuchado fica bonito. Até faz parte do seu encanto.

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº 2 (novembro de 2018).