Marcelo Rebelo de Sousa fez esta segunda-feira um balanço dos três anos de mandato como Presidente da República numa entrevista em direto de Belém a Miguel Sousa Tavares nos estúdios da TVI. Na primeira pergunta sobre a queda de popularidade nas últimas sondagens (um valor que está atualmente nos 81%) disse não estar preocupado: “Se isso é uma queda, não é propriamente uma coisa que cause uma depressão”.

Os incêndios de outubro de 2017 foram o momento de maior tensão entre o Presidente português e o Governo, especialmente com o primeiro-ministro António Costa. Nessa altura, Marcelo Rebelo de Sousa fez um ultimato: ou haveria um novo ciclo que desse prioridade à reforma florestal e prevenção de incêndios ou teria que “exercer todos os seus poderes”, pedindo ainda a demissão da ministra da Administração Interna.

Sobre esse período, Marcelo explica o que o levou a tomar esta posição. “Falei porque entendi que a maioria esmagadora dos portugueses olhava para o poder político como estando descolados da realidade. Eles não podem perceber que não podem morrer 100 pessoas e não haver uma mudança no estilo de vida. Eu não escondo que foi a única circunstância que me levou a dizer aquilo que disse e que traduzido por miúdos é que se no ano seguinte houvesse uma situação idêntica, haveria dissolução do Parlamento“.

Já sobre o estilo presidencial que tem mantido, e questionado sobre se o vai manter, o Presidente da República dividiu o que resta do mandato em vários períodos: o primeiro, explicou, vai até às eleições e é “de protagonismo dos partidos”. Depois, “há um período importante, de transição”. Por fim, “em meados do ano que vem”, tomará uma decisão sobre um novo mandato. “E das duas uma, ou sou candidato, e se for candidato não vou utilizar a Presidência para a campanha eleitoral, terei o recato de apenas fazer aquilo que tenho a fazer na política externa, ou não sou candidato e saberei sair de forma discreta para deixar o palco aos candidatos”.

Apesar de não confirmar se vai ou não recandidatar-se, Marcelo garantiu que essa possível candidatura vai depender de dois fatores: do seu estado de saúde e do panorama em que se candidata. “Se for idêntico àquele que me levou a considerar que era o meu dever de ser candidato em 2015” avança.

O Presidente da República recordou ainda como nos primeiros seis meses em que chegou à Presidência da República, “havia, de facto, uma parte do país que não perdoava o Governo, que só pensava que ele caísse rapidamente”. No entanto, “ultimamente não”. O mesmo em relação a ele: “Para as sondagens [de popularidade] andarem nos 70% é porque há uma fatia muito importante do centro-direita que tem um juízo positivo sobre mim, uma vez que há um eleitorado mais à esquerda que nunca irá apoiar uma candidatura minha”, explicou.

Entrando no tema da economia, o chefe de Estado português considera que Portugal está “financeiramente” preparado para uma possível mudança de conjuntura, uma vez que tem “uma almofada em termos orçamentais”, mas avisa que muita coisa depende “da relação entre os Estados Unidos e a China, da evolução do Brexit, da capacidade da Europa em tomar decisões ainda antes das eleições de maio”.

Mas, o que falta a Portugal para “sair da cepa torta”? Marcelo dá três dicas: 1) “Falta haver consensos de regime”, pois “não é compreensível como é que em matérias básicas como a Justiça, a Segurança Social ou a Saúde há sempre a tentação de mudanças de governo para governo e não há capacidade de antecipação e estabilização”; 2) “Falta haver uma atenção dos protagonistas políticos à reforma do Estado”; 3) E “falta haver uma capacidade de antecipação e de fortalecimento da sociedade civil”.