Ex-alunos, fãs de armas e inspirados pelos massacres dos EUA. Quem são os atiradores da escola em São Paulo

Duas páginas de Facebook estão a ser associadas aos atiradores de São Paulo. Têm publicações de armas e militares. Eram ex-alunos da escola. Podem ter-se inspirado em massacres nos EUA e no cinema.

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À esquerda, Guilherme, um dos atiradores, em criança. À direita, Luiz, o segundo atirador

G1

À esquerda, Guilherme, um dos atiradores, em criança. À direita, Luiz, o segundo atirador

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Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro. São estes os nomes dos dois atiradores que mataram pelo menos oito pessoas na Escola Professor Raul Brasil na cidade de Suzano, estado de São Paulo. O primeiro tem 17 anos e o segundo celebraria 26 anos já este sábado. Ambos são ex-alunos da escola. Primeiro mataram o dono de uma loja perto da escola; depois mataram cinco crianças e dois funcionários.

Depois cumpriram o que o G1 diz ser o plano desde o início: o atirador mais novo, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, matou o mais velho, Luiz Henrique de Castro, de 25 anos. Guilherme Taucci Monteiro suicidou-se de seguida.

As páginas de Facebook que estão a ser associadas aos dois atiradores, e que foram entretanto eliminadas, mostram dezenas de publicações sobre armas de fogo e partilhas tiradas da página de Eduardo Bolsonaro, filho do Presidente do Brasil. E podem ter-se inspirado em massacres nos Estados Unidos e em filmes norte-americanos sobre esse tipo de crimes.

As duas páginas de Facebook associadas aos atiradores

Entre as imagens que a página de Facebook associada a Guilherme Monteiro publicou para ilustrar o perfil está um “A” vermelho rodeado por um círculo da mesma cor num fundo negro — um símbolo da anarquia. Outras fotografias mostram duas pessoas a observar um céu estrelado com um telescópio, uma fotografia da banda Slipknot, uma ilustração de uma multidão com caveiras no lugar do rosto à frente da bandeira brasileira, uma imagem de divulgação do jogo “Counter-Strike: Global Offensive” e uma ilustração de duas mãos acorrentadas por algemas forradas com notas verdes.

O perfil que está a ser associado a Guilherme Monteiro.

Esta página de Facebook estava a ser invadida por comentários de internautas que condenam os atos de Guilherme Taucci Monteiro. Entre as publicações mais procuradas está a partilha de um evento de solidariedade para recolha de ração para cães. E outra feita a 13 de agosto de 2017, que é uma partilha tirada do perfil de Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo estado de São Paulo e filho do Presidente do Brasil.

Nessa publicação, Eduardo Bolsonaro lamenta a morte de Marcos Marques da Silva, um cabo da Polícia Militar que aos 36 anos foi vítima de uma quadrilha de assaltantes de bancos na cidade de Santa Margarida. Debaixo de uma fotografia desse militar, Eduardo Bolsonaro colocou uma foto de uma prisão brasileira. Na descrição da montagem, condena que haja mais justiça para os detidos nessa prisão do que para o cabo que morreu enquanto trabalhava: “Neste Dia dos Pais [no Brasil celebra-se no segundo domingo de agosto], este homem [o polícia] não vai para a sua casa. Estes [os detidos] vão”.

A publicação mais recente feita nesta página de Facebook foi colocada por volta das 13h de Portugal Continental, ou seja, pouco tempo antes do ataque na escola brasileira. São 30 fotografias que pertencem alegadamente a Guilherme Taucci Monteiro, algumas das quais mostram um homem com o rosto tapado por uma máscara ilustrada com o desenho de uma caveira, tal como um dos atiradores usava quando entrou a matar na escola em São Paulo. Nessa publicação, Guilherme — que na página se chamará “Guilherme Alan” — diz estar “a viajar para São Paulo”. As fotografias foram partilhadas mais de 5.500 vezes e recolheram quase 8 mil comentários.

O perfil associado ao segundo atirador, Luiz Henrique de Castro, foi o primeiro a ser eliminado do Facebook. Mas capturas de ecrã publicadas no Twitter permitem ver algumas das imagens que ilustram o mural. A fotografia de perfil é uma imagem monocromática de militares de um Exército a olhar pela mira das armas. E a fotografia de capa é um graffiti com uma pistola que dispara contra pequenas sombras de pessoas, que fogem em três direções.

https://twitter.com/Movie_Freak86/status/1105865125175742464

Além dessas imagens, entre as fotos destacadas pode ver-se também o símbolo da Federação Alemã de Futebol, uma imagem do brasão de armas da Rússia, uma ilustração do jogo “Counter-Strike: Global Offensive”, a capa do jogo “Grand Theft Auto”, uma fotografia de armas de plástico espalhadas no chão e outras imagens de ambiente militar, muitas das quais com a bandeira russa.

Guilherme Taucci Monteiro tinha andado na Escola Raul Brasil até ao ano letivo passado, mas tinha sido expulso. De acordo com o jornal Destak brasileiro, um dos sobreviventes do tiroteio desta quarta-feira disse ter reconhecido o rosto de um dos atiradores: “Um eu já tinha visto na escola, outro não deu para ver bem. O que eu vi, deu para reconhecer que estudava no ano passado na escola”, disse Igor Ribeiro Ângelo, de 16 anos.

Guilherme tinha vergonha das borbulhas e Luiz era jardineiro

“Era um menino bonzinho, não tinha problemas com drogas e nunca me deu trabalho”. As palavras foram ditas pelo avô de Guilherme, em entrevista à revista Veja. O jovem de 17 anos, que tem duas irmãs mais novas, sempre viveu com os avós e não mantinha contacto com os pais, que eram toxicodependentes. Guilherme chegou a trabalhar no stand automóvel onde esta quarta-feira matou o seu tio, tendo sido demitido recentemente.

Era o avô de Guilherme que pagava os seus tratamentos de pele, pois o jovem tinha vergonha das suas espinhas. Mas isso nunca fez com que sofresse de bullying, garante Bruno César, um rapaz que mora na mesma rua dos dois atiradores.

Encontrei o Luiz e o Guilherme ontem mesmo, comprimentei-os normalmente. Somos amigos há vários anos, íamos à lan house juntos. Eram moleques normais. O Guilherme teve o problema das espinhas, mas não sofria bullying. Estudei com ele, ele tinha vários amigos. Nunca falou sobre armas”.

No entanto, um antigo aluno da escola que estudou com Guilherme, em 2016, contou ao Folha de São Paulo uma versão diferente: “Ele falava sempre sobre armas e postava coisas estranhas na Internet. Um dia, ele falou que queria repetir o que aconteceu nos Estados Unidos”. O jovem referia-se ao massacre de Columbine, que ocorreu em abril de 1999 numa escola no Colorado, Estados Unidos.

Já Luiz Henrique de Castro era auxiliar de jardinagem e trabalhava com o seu pai em Guaianeses, a 14 quilómetros de Suzano. Segundo um tio, também em declarações à Veja, o jovem nunca tinha dado problemas. “Era um rapaz tranquilo, gostava de jogar com os amigos. Era corintiano, mas ultimamente dizia que torcia pelo Barcelona”, descreveu Américo José Castro.

Esta terça-feira, Luiz tinha saído para trabalhar com o pai, mas a meio do caminho disse que se estava a sentir mal e voltou para trás. “A família é formada por idosos e estão todos perplexos”, contou Fabrício Tsunami, advogado da família de Luiz.

As teorias sobre o crime

Fora das redes sociais também se encontram semelhanças entre o plano de ataque destes dois atiradores com outros tiroteios ocorridos no passado. Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro levaram roupas semelhantes às que os atiradores usaram no Massacre de Columbine, a 20 de abril de 1999, quando dois jovens entraram na Columbine High School, mataram 13 pessoas e se suicidaram a seguir.

https://twitter.com/orphanindiekj/status/1105874871014379521

Durante esse massacre em 1999, os dois atiradores colocaram um pequeno explosivo num campo nas vizinhanças da escola com o intuito de distrair as autoridades e mantê-las longe da escola. Esta quarta-feira, Guilherme e Luiz também entraram numa loja, dispararam contra o dono — Jorge António Morais — e mataram-no antes de irem de carro para a escola. De acordo com as declarações da Polícia Militar, as autoridades estavam a socorrer esse homem quando souberam do tiroteio na escola. A estratégia, disse a própria polícia, pode ter sido distrair os agentes com uma ocorrência menor.

No Twitter também se compara o tiroteio em São Paulo com o filme norte-americano “Temos de Falar Sobre Kevin”, um filme de 2012 sobre um massacre escolar fictício em que um rapaz mata sete colegas, uma professora e um funcionário da sua escola. Nesse filme, o protagonista realiza os crimes com recurso a um arco e flecha — as mesmas armas que Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro levaram para a Escola Raul Brasil.

[“Entrei em pânico”. Como aconteceu o tiroteio numa escola do Brasil]

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