A primeira-ministra britânica, Theresa May, confirmou esta quarta-feira no Parlamento que fez um pedido de extensão curto do Artigo 50 à União Europeia (UE), ou seja, um adiamento do Brexit até 30 de junho.

Downing Street divulgou entretanto a carta enviada ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, onde May escreve que “informa o Conselho Europeu de que o Reino Unido está a pedir uma extensão do Artigo 50 (…) até 30 de junho de 2019.” Na mesma carta, a primeira-ministra explica qual é a sua estratégia e pede, uma vez mais, a ajuda dos líderes europeus para conseguir que o Reino Unido saia da UE com um acordo: reforço dos 27 Estados-membros aos documentos sobre o backstop que May conseguiu em Estrasburgo na semana passada, para assim poder regressar ao Parlamento britânico e apresentar de novo o seu acordo a votação.

“Ficaria grata se o Conselho Europeu pudesse aprovar os documentos suplementares que eu e o presidente Jean-Claude Juncker acordámos em Estrasburgo, colocando o Governo em posição de trazer estes acordos à Câmara [dos Comuns] e confirmar as alterações à proposta do Governo”, escreve a primeira-ministra.

Este é um ponto necessário para May, que viu o presidente da Câmara, John Bercow, anunciar esta semana que não permitirá uma nova votação do acordo da primeira-ministra a não ser que haja alterações “de substância” na proposta apresentada. Mesmo que os líderes europeus aceitem aprovar estes documentos, não significa que Bercow considere que essa é uma alteração de fundo e permita que o acordo seja votado novamente.

Isto significa que a primeira-ministra recuou na intenção que tinha explicitado inicialmente aos deputados: pedir uma extensão curta se o acordo fosse aprovado até esta quarta-feira, longa se não fosse o caso. Mesmo sem a aprovação do acordo, May optou pelo adiamento curto, segundo os jornais britânicos devido à pressão interna dos eurocéticos presentes no seu Governo. A estratégia, explica o editor da Sky News Faisal Islam, é de pressionar um dos lados do Parlamento com “a ameaça da saída sem acordo” e o outro com a “ameaça de não haver Brexit”. A primeira-ministra espera assim que os deputados cedam e aprovem o seu acordo nas próximas semanas.

As reações dos deputados na Câmara dos Comuns foram, na sua maioria, negativas. O líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, acusou a primeira-ministra de liderar um Governo mergulhado no “caos” e defendeu que qualquer adiamento só faz sentido se tiver “um propósito claro”. Do seu próprio partido, o conservador e eurocético Peter Bone avisou-a de que irá “trair o povo britânico” se pedir outro adiamento para lá deste, já que a saída estava inicialmente marcada para 29 de março. “A História irá julgá-la sobre este momento”, sentenciou.

UE não concorda com data de 30 de junho por causa de eleições europeias. Saída sem acordo ainda não está totalmente excluída

“Como primeira-ministra, não estou preparada para adiar o Brexit para lá de 30 de junho”, reforçou May perante os deputados na Câmara dos Comuns — uma afirmação que está a ser interpretada por alguns analistas como uma ameaça de que pode demitir-se se esse adiamento não for aceite. Questionado pelos jornalistas se deve ser essa a interpretação correta da frase, o porta-voz de Downing Street limitou-se a dizer que “o que deve ser entendido dessas palavras é a força da determinação da primeira-ministra”.

Não é certo, contudo, que a UE conceda esse adiamento. Ainda na manhã desta quarta-feira, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, previa que nenhuma decisão pudesse ser tomada na cimeira europeia desta quinta-feira. “Não haverá nenhuma decisão, provavelmente teremos de reunir na semana seguinte, porque a senhora May não consegue entendimento sobre nada, nem no Governo dela nem no Parlamento. Enquanto não soubermos o que a Grã-Bretanha pode aprovar, não podemos tomar uma decisão”, afirmou.

A agência Reuters divulgou entretanto uma notícia que dá conta de que a Comissão Europeia estará contra um adiamento até 30 de junho. “Qualquer extensão oferecida ao Reino Unido deverá ser ou até 23 de maio de 2019 ou substancialmente mais prolongada e que implica a realização de eleições europeias”, pode ler-se no documento resultante da reunião desta quarta-feira, a que a Reuters teve acesso. Ou seja, para os europeus, ou a extensão é de facto curta para impedir a participação nas eleições europeias ou então deve ser bastante mais dilatada no tempo.

Isso mesmo confirmou pouco depois um dos assessores da Comissão, Daniel Ferrie, citando o porta-voz Margaritis Schinas: “Juncker avisou formalmente Theresa May [num telefonema esta quarta-feira] de que não deveria escolher uma data de extensão para lá das eleições europeias. A saída deve ocorrer antes de 23 de maio, caso contrário enfrentaremos dificuldades institucionais e incerteza jurídica. Se a extensão for para lá de 23 de maio, devem ocorrer eleições [europeias].”

Também o ministério dos Negócios Estrangeiros francês avisou entretanto que não vê com bons olhos o anúncio de May: “A nossa mensagem sobre o Brexit é clara: ratifiquem o acordo ou saiam sem acordo”, declarou a tutela, de acordo com a Reuters. “Se May não consegue oferecer garantias de que o seu acordo será aprovado no Parlamento, o Conselho Europeu irá recusar o seu pedido de extensão.”

Qualquer adiamento só poderá acontecer se os responsáveis dos Estados-membros aprovarem esse pedido; caso contrário, o Reino Unido sairá da UE a 29 de março, sem qualquer acordo de saída.