Liga Europa

O futebol é um jogo para fortes mas o segredo é encontrar o elo mais fraco (a crónica do Eintracht-Benfica)

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Eintracht chegou à vantagem por linhas tortas, Benfica não mais se conseguiu endireitar e saiu da Europa (2-0). Entre o erro externo, sobrou muita culpa própria. Incluindo a própria abordagem ao jogo.

Fejsa voltou à titularidade e voltou a acumular erros anormais para quem foi durante anos a fio o principal pêndulo da equipa

AFP/Getty Images

Feriado à porta, fim de semana prolongado, muito provavelmente mais tempo com a família. Bom para colocar a conversa em dia, para fazer uma pausa, para matar saudades, para ver umas séries em atraso, para recuperar horas de sono perdidas. Vá, e sem vergonhas, para dedicar um tempinho a mais para outros hobbies daqueles que todos têm mas só alguns assumem. Tratando-se de futebol, por exemplo, jogar Football Manager. Como o francês agora campeão mundial Griezmann, que na temporada passada conquistou esta mesma Liga Europa. Afinal, o real e o virtual podem não estar assim tão distantes como isso.

Para quem joga, para quem já jogou ou para quem não pensa jogar, a ideia de gestão perfeita de um plantel é relativamente fácil de compreender: construir um plantel competitivo, equilibrado, com duas soluções prontas para entrar no onze e, de preferência, contar com algumas promessas com potencial entre as equipas mais jovens que possam subir ao conjunto principal caso seja necessário. Depois, a rotatividade torna-se fácil – escolhe-se o principal objetivo, aposta-se nos que dão mais garantias nesses encontros e roda-se nas outras provas. De certa forma, foi isso que Bruno Lage fez nas primeiras partidas da Liga Europa, ainda nos 16 avos e nos oitavos, com o lançamento de unidades como Corchia, Yuri Ribeiro, Florentino Luís, Salvio, Cervi ou Krovinovic. E ia garantindo que outras unidades decisivas na ideia da equipa fossem recuperando em termos físicos. Quando se chega às fases decisivas, aí, as coisas começam a mudar de figura. Como se viu nesta eliminatória.

Depois das dificuldades sentidas na Luz, onde o Eintracht conseguiu ainda marcar dois golos na derrota por 4-2 apesar de estar em inferioridade numérica desde meio da primeira parte, o técnico dos encarnados fez apenas mexidas pontuais na equipa. Jardel fez dupla com Rúben Dias deixando Ferro no banco, num misto de gestão e experiência; Fejsa entrou com Samaris no meio-campo por uma questão estratégica, até pela lesão contraída por Gabriel no jogo da Taça de Portugal em Alvalade; Gedson Fernandes vestiu-se de Pizzi mas interpretando um papel diferente à frente do duplo pivô no meio-campo com Rafa mais na ala direita. Com isso, deixará de contar com quase todos os jogadores a 100% no início do próximo jogo do Campeonato mas é um risco, assumido. E, verdade seja dita, se for como no Manager, entram a 93% ou 94%…

A parte física foi um das razões para a derrocada do Benfica na Alemanha, numa derrota por 2-0 que valeu a eliminação frente ao Eintracht Frankfurt nos quartos da Liga Europa. Depois, e de forma inevitável, um erro da equipa de arbitragem que deveria ter anulado o primeiro golo de Kostic, ainda na primeira parte. No entanto, houve muito mais do que isso. É certo que com o virtual, neste caso o VAR, as coisas podiam ter sido diferentes, mas a forma como os encarnados entraram em campo sem tocarem uma única vez na bola na área contrária ao longo da primeira parte e foram incapazes de reagir à adversidade no segundo tempo tiveram um peso determinante na derrota. Recuperando o exemplo de Griezmann, o francês colocou nas redes sociais uma foto da “sua” equipa no Arsenal que tinha caras conhecidas dos portugueses como Alex Telles, João Félix e Fernandes (Gedson ou Bruno, não se sabe). Mas podiam ser outros porque o segredo não está tanto nos nomes mas sim na ideia de jogo que definiu – um “tiki taka” personalizado. Esse aspeto, a fuga a uma maneira de estar em campo, foi fundamental.

Ficha de jogo

Eintracht Frankfurt-Benfica, 2-0 (4-4 na eliminatória)

2.ª mão dos quartos de final da Liga Europa

Commerzbank-Arena, em Frankfurt (Alemanha)

Árbitro: Daniele Orsato (Itália)

Eintracht Frankfurt: Trapp; Hasebe, Falette (Willems, 90+2′); Danny da Costa, Gelson Fernandes, Rode (Torró, 85′), Kostic; Gacinovic, Jovic (Gonçalo Paciência, 76′) e Rebic

Suplentes não utilizados: Ronnow, De Guzmán, Chandler e Russ

Treinador: Adolf Hütter

Benfica: Vlachodimos; André Almeida (Jonas, 79′), Rúben Dias, Jardel, Grimaldo; Samaris (Pizzi, 70′), Fejsa; Gedson Fernandes, Rafa (Salvio, 72′); João Félix e Seferovic

Suplentes não utilizados: Svilar, Ferro, Florentino Luís e Cervi

Treinador: Bruno Lage

Golos: Kostic (37′) e Rode (67′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Abraham (74′), Falette (78′), Rebic (83′) e Jonas (90+3′); Bruno Lage expulso do banco (38′)

Mantendo essa analogia do virtual com muito de real, a primeira parte foi como se Bruno Lage tivesse trocado na parte em que pede que se escolha um estilo de jogo de “positivo” ou “fluido” para “cauteloso”. A ponto de, com meia hora de jogo, o Benfica não ter um único remate, um único cruzamento ou um único canto – nem à baliza de Kevin Pratt chegou. Pode falar-se de mérito do Eintracht na forma como foi conseguindo cortar linhas de passe na fase de construção, pode falar-se de desinspiração na altura de sair em transição com Rafa como exemplo paradigmático de jogador a cair em pique comparando com os últimos compromissos, mas o problema esteve sempre na forma como a equipa, de forma consciente ou não, andou sempre com linhas demasiado recuadas para poder esticar mais o jogo e dar outra verticalidade como é habitual desde que Lage assumiu o comando.

Mais uma vez, Fejsa voltou a ter demasiados erros posicionais e no passe que ainda assim foram sendo disfarçados por um super Samaris que continua a ser o principal pêndulo do meio-campo dos encarnados. E também Jardel não conseguiu propriamente uma exibição muito segura, com deslizes que a equipa em termos coletivos ia tapando. No entanto, a verdade é que, até aos 35 minutos, houve apenas uma oportunidade flagrante (de Kostic na área, para grande defesa de Vlachodimos, aos 8′) e um corte decisivo de André Almeida no coração da área quando Jovic se preparava para encostar para golo (23′). O problema estava nas ações ofensivas – o Benfica não fez nenhum remate, não ganhou nenhum canto, não arrancou nenhum cruzamento e nem sequer tocou na bola na área contrária ao longo de quase toda a primeira parte do encontro na Alemanha.

E por falar em virtual, ou na falta dele, seria por linhas tortas que o Eintracht conseguiria materializar a sua superioridade total na partida: Gacinovic teve demasiado espaço à entrada da área sem que ninguém saísse ao portador da bola, rematou forte e rasteiro ao poste de Vlachodimos e, na recarga, Kostic fez a recarga para o 1-0 (37′). A própria reação do sérvio depois do golo, a olhar a medo para a indicação do árbitro assistente que não saiu, indiciava algo que se percebeu logo na primeira repetição: na altura da recarga, o número 10 estava em posição irregular. Problema? Na Liga Europa só haverá VAR na final que será realizada em Baku no final de maio, pelo que erros grosseiros como o que aconteceu não podem ser corrigidos. E no meio da confusão e dos protestos no banco das águias, a fava saiu a Bruno Lage (que nem costuma ser propriamente um técnico que conteste muito as decisões dos árbitros) que foi expulso e teve de ver o resto do encontro na bancada.

No segundo tempo, o Benfica melhorou. Não foi muito, ficou longe da capacidade ofensiva habitual mas melhorou. E por pouco não conseguiu empatar logo a abrir, com João Félix a ter uma grande jogada pela esquerda a tirar adversários da frente antes do cruzamento atrasado que Falette quase transformou num autogolo (47′). Uns minutos depois, novo lance com algum perigo na área alemã, com Seferovic a cabecear em boa posição à figura de Trapp. No entanto, seria sol de pouca dura e bastou um remate de Gacinovic após jogada individual à entrada da área, que passou a rasar o poste, para colocar os portugueses em sentido.

O Eintracht voltou a marcar mais presença no meio-campo encarnado, ainda que de forma atabalhoada, e sufocou a melhoria paulatina do Benfica. Tudo com um grande segredo: cabeça. Os alemães souberam ser pacientes na forma como nunca entraram em descompensações posicionais quando o conjunto de Bruno Lage tinha mais posse na zona de meio-campo e inteligentes na maneira como procuraram sempre explorar o elo mais fraco chamado Fejsa, com mais uma exibição a anos luz daquele talismã que valia vitórias e troféus. Seria exatamente por aí que nasceria o segundo golo, com Rode, que não marcava desde setembro de 2016, a aproveitar a falta de oposição à entrada da área para rematar sem hipóteses para Vlachodimos (67′).

Lage foi arriscando tudo. Em menos de dez minutos, lançou Pizzi, Salvio e Jonas, que se juntaram a Gedson Fernandes, João Félix e Seferovic. Unidades atacantes não faltavam, ao contrário da organização ofensiva habitual que perdeu mesmo a viagem para a Alemanha. É certo que Salvio, a cinco minutos do final, ainda teve uma bola no poste após cruzamento da esquerda mas essa seria a única oportunidade flagrante dos encarnados ao longo de 90 minutos, num registo curto sobretudo olhando para aquilo que as duas equipas conseguiram fazer quando o Benfica assumiu linhas mais subidas e aproveitou a quebra física do Eintracht. No entanto, o futebol é um jogo de erros. E as águias tiveram demasiados por culpa própria.

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