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1 trenó, 6 cães, 300 km: a aventura de Ricardo no Ártico

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Apanhou casca de bétula para fazer fogueiras, ferveu neve para cozinhar e emocionou-se a guiar o trenó. A história do português que participou na expedição ao Círculo Polar Ártico.

24 participantes arrancaram esta prova no extremo norte da Noruega © Fjällräven/ Nicklas Blom Photography

Autor
  • Maria Espírito Santo

Todos os dias madrugavam. Antes das seis da manhã já estavam a pé e as primeiras tarefas eram dedicadas aos cães: “Tínhamos de dar-lhes água, de comer, lavar os comedouros. Depois de estarem preparados é que íamos tratar de nós – desmontar a tenda, preparar o pequeno-almoço.” O relato é feito por Ricardo Machado Carvalho, 33 anos, natural de Vila Real. Foi ele o representante de Portugal noFjällräven Polar, uma expedição pelo Círculo Polar Ártico que leva amadores de todos os pontos do planeta numa dura viagem de 300 km, em trenó.

A aventura de cinco dias terminou no passado domingo, 14 de Abril. Ricardo ainda mal regressou à realidade. “Tenho poucas palavras. Ainda estou a desfrutar do momento”, diz. Recorda os dias longos e preenchidos em que perdeu noção das horas, as paisagens pintadas a branco, o uivar dos cães (o trenó de cada participante contava com seis). Lembra ainda as pausas para descansar e as refeições no meio da floresta gelada. A comida desidratada foi a grande aliada: ao pequeno-almoço havia papas de aveia mas os pacotes pré-parados (a que se juntava água quente) também contavam outras iguarias, como caril de frango, massa à bolonhesa ou chili com carne. “Cada refeição que fazíamos tinha cerca de 2500 calorias”, conta. O chocolate quente e as barritas energéticas eram outros snacks para recuperar forças.

Um bom descanso, alimentação e hidratação são fundamentais para aguentar o programa duro. Todos os dias percorriam cerca de 50 km para totalizar os 300 da prova que arrancou perto de Tromso, no extremo norte da Noruega. Os 24 participantes, naturais de diferentes pontos do planeta (Hungria, Taiwan, Indonésia, Alemanha, Malásia, Marrocos ou Argentina) estavam divididos em grupos: no de Ricardo estava uma inglesa, um italiano e um norte-americano. O guia, norueguês, garantia que seguiam o percurso correto.

O grupo da expedição. Lá ao fundo, à esquerda, Ricardo e uma bandeira portuguesa a esvoaçar © Fjällräven/ Nicklas Blom Photography

Juntos fizeram fogueiras, montaram e desmontaram acampamento, admiraram a aurora boreal: mas apesar do bom convívio e espírito de entreajuda esta foi, essencialmente, uma viagem interior, lembra o português: “Dei por mim várias vezes em reflexão. Nunca pensei que o silêncio fosse tão bom: um silêncio visual e auditivo. Passar por lagos e florestas geladas, apreciar o céu e o chão brancos, só ouvir o silêncio e o caminhar dos cães… muitas vezes ia no trenó só a pensar nos amigos, nas pessoas de quem gosto. Caíam-me as lágrimas. Só pensava: ‘O que é que me está a acontecer?’”

Treinos de crossfit e escalada

Apesar de difícil de pronunciar, Fjällräven (ou raposa do ártico) é uma palavra que, desde os anos 60, tem chegado a todos os cantos do mundo. A culpa é da marca sueca de equipamento outdoor que se popularizou, entre outros produtos, pelas mochilas que já se tornaram as favoritas dos millenials. Foi na década de 90 que a marca lançou uma corrida de cães puxados a trenó – um evento que mudou de conceito de 2012 quando decidiram transformar a corrida numa expedição, trocando os profissionais por amadores. Tudo para provar que o contacto com a natureza é para todos.

Desde então que anualmente abrem candidaturas para a aventura. Foi assim, através de um concurso online, a nível internacional, que Ricardo conseguiu um lugar no Fjällräven Polar 2019. “Éramos o país mais pequeno, com menos população, e ainda por cima sou de uma cidade que não é grande… Mas consegui perto de 18 mil votos, contra países bastante numerosos.” O dia 14 de Dezembro ficou marcado: o dia em que soube que tinha lugar garantido na epopeia do gelo.

“A casca da bétula é uma boa acendalha para fazer fogo”, ensina Ricardo, à direita. Fazer uma fogueira foi apenas um dos desafios © Fjällräven/ Nicklas Blom Photography

Logo se começou a preparar para o ambiente de extremos. Acreditava que os principais desafios seriam psicológicos, conta, mas para isso era preciso estar bem preparado fisicamente, para resistir ao cansaço. Por isso estabeleceu um plano de treino: três sessões de crossfit e duas de escalada por semana. “Mas sempre me mantive tranquilo em relação à expedição, nunca senti ansiedade”, garante. A tranquilidade traduz-se na rapidez com que fez a mala: foi poucas horas antes da partida. Como a marca fornecia todo o equipamento, pôde viajar leve. Consigo levou apenas alguns objetos úteis, entre eles: uma câmara GoPro, um machado (que usou para cortar lenha) e uma faca do mato (para cortar a comida dos cães). Na mala levou ainda, de companhia, três bandeiras: a do agrupamento de escuteiros, a do grupo de montanhismo de Vila Real e a do Benfica. Apanhou o avião para Estocolmo a 7 de Abril mas a expedição só começou dia 9, já na Noruega.

Foi através de um concurso online que os aventureiros garantiram um lugar nesta epopeia gelada © Fjällräven/ Nicklas Blom Photography

Além de arqueólogo na Câmara Municipal de Ribeira de Pena, Ricardo é um fã das atividades ao ar livre. Conta já com 27 anos de escutismo, um percurso que o ajudou a superar alguns dos desafios, como fazer uma fogueira. “Aquela é uma zona onde existe muita bétula e a casca da bétula é uma boa acendalha para fazer fogo. Sempre que podia apanhava cascas de bétula e guardava nos bolsos para poderem secar”, diz. Quando o dia terminasse e tivessem de montar o equipamento, Ricardo estava pronto para fazer fogo. Era com o gelo que construíam uma barreira para as refeições. A neve era, aliás, também usada para “cozinhar”: ferviam-na para juntar à comida desidratada.

Num ambiente que, por esta altura do ano, tem temperaturas que se situam nos 15 graus negativos (podendo descer aos 25, durante a noite), uma das preocupações é manter o corpo quente – algo que não afligiu o participante português. “Uma pessoa está sempre ativa. Ou andar no trenó ou a ir buscar lenha ou preocupada em montar as tendas.” Aliás, o único momento de aflição nos seis dias no Círculo Polar Ártico foi provocado pelo calor. Isso mesmo, leu bem. Ricardo explica: “Tive uma noite muito stressante. Acordei e estava a transpirar imenso e entrei em paranoia porque sabia que não podia tirar a cabeça do saco de cama porque senão congelava a cara e o cabelo.” Lembra, entre risos, que acabou por não congelar nada, regressou ao sono.

Foi a 14 de Abril, que terminou a aventura. Na terça-feira estava já de regresso a Portugal e no dia seguinte a Vila Real. A primeira coisa que fez? Uma sessão de escalada com os amigos. “Vou continuar com as caminhadas, o montanhismo e a testar os limites da sobrevivência. Quero mais adrenalina como esta.”

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