Óliver fez o Twist e resolveu um problema que ainda não existe (a crónica do Nacional-FC Porto)

O espanhol não era titular desde março e foi o melhor do FC Porto que goleou na Madeira e levou a decisão do título para a última jornada. E explicou que a saída de Herrera não é o fim do mundo.

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Óliver foi titular face ao castigo de Herrera

LUSA

Óliver foi titular face ao castigo de Herrera

LUSA

Uma das grandes qualidades normalmente atribuídas à equipa do FC Porto, quer na era Sérgio Conceição quer em todas aquelas que tiveram moderado êxito, é o facto de nunca vacilar em ocasiões decisivas. Quando era preciso vencer um adversário direto, quando era necessário não perder pontos para garantir um título, quando era obrigatório não escorregar para não ficar em maus lençóis, o FC Porto raramente tremia. Foi essa frieza quase alemã que tornou os dragões campeões nacionais na temporada passada, impedindo o penta do Benfica — e foi precisamente essa frieza que faltou nos momentos decisivos da presente época.

Em fevereiro, e numa altura onde tinha uma vantagem confortável para o Benfica, o FC Porto empatou em duas jornadas consecutivas (contra V. Guimarães e Moreirense) e perdeu a margem de manobra que tinha face aos encarnados. Já no início de março, quando recebeu o Benfica no Dragão e onde uma vitória poderia ser um passo praticamente decisivo no que toca às contas do título, a equipa de Sérgio Conceição perdeu depois de ter começado a ganhar e perdeu a liderança. Finalmente, há duas semanas, quando estava em igualdade pontual com os encarnados, o FC Porto permitiu o empate ao Rio Ave já nos descontos e viu o Benfica fugir no primeiro lugar.

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Ficha de jogo
Nacional-FC Porto, 0-4

33.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Madeira, no Funchal

Árbitro: Carlos Xistra (AF Castelo Branco)

Nacional: Daniel, Kalindi, Diogo Coelho, Júlio, Nuno Campos, Vítor Gonçalves, Marakis (Diego Barcelos, 81′), Alhassan, Camacho (Rochez, 77′), Hamzaoui (Witi, 84′), Riascos

Suplentes não utilizados: Framelin, Cerqueira, Avto, Kaká

Treinador: Costinha

FC Porto: Vaná, Manafá, Felipe, Militão, Telles, Corona (Fernando Andrade, 75′), Danilo, Óliver, Otávio (Maxi Pereira, 86′), Soares (Loum, 75′), Marega

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Hernâni, Aboubakar, Pepe

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Alex Telles (14′), Óliver (28′), Corona (59′), Marega (gp, 88′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Riascos (71′)

Talvez por isso Sérgio Conceição tenha sentido necessidade de deixar claro que este domingo, na Madeira, o FC Porto ia fazer tudo aquilo que estava ao seu alcance para adiar (ou evitar) o título do Benfica. “É possível vencermos o Campeonato. Temos dois jogos e temos de os ganhar. Depois temos de ver o que acontece nos outros. Não depende só de nós. Pensamos que é possível, senão não íamos à Madeira sequer dar despesas ao clube”, explicou o treinador, que estava então obrigado a ganhar a Nacional para impedir o Benfica de ser campeão nacional já esta jornada (caso vença o Rio Ave em Vila do Conde).

O FC Porto encontrava o pior registo defensivo da temporada, uma equipa de que não ganha há oito jogos e que está à beira da descida: mas também encontrava um Nacional motivado com a derrota do Desp. Chaves frente ao V. Setúbal e a precisar de todos os pontos possíveis para se manter na Primeira Liga depois de ter conseguido a promoção na época passada. Sérgio Conceição não tinha desde logo Herrera, que estava castigado, e Brahimi, devido a lesão, e lançava Óliver e Otávio (para além de Casillas, que voltava a ser substituído por Vaná). Danilo ficava com a braçadeira de capitão que costuma ser de Herrera e era notoriamente o líder que tentava impulsionar a equipa para a frente e para a vitória obrigatória.

Os dragões começaram por cima do jogo, até porque o Nacional deixou perceber que iria entregar a iniciativa ao adversário e tentar jogar no contra-ataque, apostando na velocidade de Riascos e Hamzaoui. O FC Porto começou por ameaçar logo ao minuto 6, quando Otávio rematou cruzado na sequência de um canto batido na direita, mas não estava a conseguir penetrar com frequência no último terço do meio-campo adversário, tendo dificuldades em fazer entrar o último passe em Marega ou Soares. A primeira verdadeira oportunidade de golo acabou mesmo por surgir do outro lado, precisamente através da velocidade e da profundidade em que o Nacional de Costinha estava a colocar todas as fichas: Marakis lançou largo para as costas de Éder Militão, Vaná saiu demasiado cedo e ficou a meio do caminho e Riascos, de baliza aberta, atirou às malhas laterais (12′). Um lance que exemplifica em toda a linha a diferença de eficácia entre as duas equipas, a diferença da qualidade individual das duas equipas e ainda a diferença no aproveitamento de oportunidades entre as duas equipas: até porque, no lance seguinte, o FC Porto acabou por chegar à vantagem.

Alhassan fez falta sobre Otávio e Carlos Xistra assinalou um livre em ligeira posição frontal mas a descair para a esquerda do ataque dos dragões. Alex Telles bateu de pé esquerdo, numa situação em que esse nem era o pé mais favorável, e fez a bola voar até às redes de Daniel Guimarães (17′). O FC Porto colocava-se em vantagem no primeiro remate enquadrado que fazia no jogo e Alex Telles chegava ao sexto golo da temporada, mais do que marcou nas duas últimas juntas. Os dragões poderiam ter marcado novamente logo no minuto seguinte, quando Marakis fez um corte fulcral quando Otávio se preparava para rematar à baliza, mas a verdade é que a equipa de Sérgio Conceição optou por não arriscar e manter as linhas muito juntas, os passes curtos e o conjunto totalmente equilibrado.

O segundo golo acabou por surgir através daquele que estava a ser o filão explorado pelo FC Porto: os erros individuais dos jogadores do Nacional. Os madeirenses perderam uma bola na primeira fase de construção, perto da linha do meio-campo, e Corona lançou a arrancada de Óliver. O médio espanhol, que não era titular desde a derrota no Dragão com o Benfica, correu sem oposição até à grande área do Nacional e bateu Daniel Guimarães com um remate rasteiro (28′). O FC Porto fez cair ainda mais o ritmo depois de aumentar a vantagem e poderia ter visto o Nacional reduzir o marcador, novamente através de Riascos (41′), mas também poderia ter chegado ao terceiro golo ainda antes do intervalo, já que Marega rematou com perigo duas vezes nos últimos cinco minutos da primeira parte (44′ e 45+1′).

Os dragões foram para o intervalo com o controlo total da partida e a ganhar por dois golos mas a noção clara, até pelas ameaças de Riascos, de que não era possível adormecer demasiado e permitir espaço aos avançados madeirenses. Nota de destaque para Óliver, que assumia o lugar do quase imprescindível Herrera e além do golo levava 22 passes certos e três desarmes. Já Costinha descia para o balneário com a certeza de que este resultado valia a despromoção do Nacionla à Segunda Liga.

O Nacional regressou para a segunda parte a deixar perceber que iria correr alguns riscos para tentar chegar ao golo: afinal, a derrota significava a despromoção imediata e a conquista de pontos era o único caminho possível para ainda lutar pela manutenção até à última jornada. O problema era que os riscos dos madeirenses deixavam espaços aos jogadores do FC Porto, que foram aproveitando cada erro e cada perda de bola para criar sucessivas ocasiões de golo: primeiro foi Corona, que rematou ao lado após passe de Soares (48′), depois Marega, que atirou contra Nuno Campos (50′), e novamente Corona, que ganhou a Kalindi na esquerda e disparou para uma defesa apertada de Daniel Guimarães (51′).

Adivinhava-se o golo do FC Porto, até porque o Nacional não conseguia progredir para lá da linha do meio-campo e ou jogava para trás ou perdia a bola, sempre sem soluções de passe e sempre demasiado previsível para enganar Danilo e Óliver no centro do terreno. Foi precisamente a partir de um desarme na zona intermédia que Otávio lançou Marega em velocidade no corredor direito: o maliano perdeu o ângulo para rematar mas conseguiu cruzar para Corona, que surgiu na zona central com um remate acrobático e fez golo à terceira tentativa (59′).

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Nacional-FC Porto:]

Marega ficou perto de marcar logo no minuto seguinte, ao rematar ao lado quando estava totalmente isolado (60′), mas o FC Porto continuou a manter-se muito compacto e com muita densidade do meio-campo, setor que funcionava praticamente como um muro que impedia as transições do Nacional. Os madeirenses iam apostando naquilo que estavam a fazer desde o primeiro minuto, a busca pela profundidade e os remates algo surpreendentes à procura de uma desconcentração de Vaná, mas isso não era funcionar para fazer tremer os dragões. O principal calafrio apareceu já a 20 minutos do fim, quando Carlos Xistra assinalou uma grande penalidade de Felipe sobre Riascos: o árbitro da partida acabou por consultar as imagens do VAR e voltou atrás na decisão, mostrando cartão amarelo ao avançado por simulação.

O FC Porto acabou o jogo apenas com Marega em terrenos mais adiantados e o maliano chegou mesmo ao quarto golo, convertendo uma grande penalidade cometida por Alhassan (88′). Os dragões não tremeram, ao contrário do que já aconteceu mais do que uma vez esta temporada, e adiaram todas as decisões do título para a última jornada (onde recebe o Sporting no Dragão) — o Nacional, por sua vez, está já despromovido à Segunda Liga. Óliver, que voltou a ser titular mais de dois meses depois devido à ausência de Herrera, foi o elemento mais constante da equipa de Sérgio Conceição — mais passes acertados, mais desarmes e o golo marcado — e mostrou ao treinador que a eventual saída do médio mexicano para o Atl. Madrid não tem de ser um grande problema para o FC Porto.

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