Há aqueles que colocam tudo em causa, recusando-se a acreditar, por exemplo, que o homem tenha ido à Lua – há precisamente 50 anos – e que o aquecimento do planeta e as crescentes tempestades que o assolam, estejam relacionados com o excesso de dióxido de carbono (CO2) que existe no ar. Se esquecermos os que teimam em virar as costas à ciência, a maioria dos restantes está consciente que o ar que se respira na Terra tem hoje 400 partes por milhão (PPM) de CO2, o que é “só” o valor mais elevado dos últimos 800.000 anos. E se as consequências estão à vista, os danos e as dificuldades vão aumentar (rapidamente).

O Acordo de Paris, assinado em Dezembro de 2015 por nada menos que 195 países do mundo, determinou que era imperativo, para evitar o aquecimento global e a consequente subida da água dos oceanos, limitar as emissões de CO2. Com a curiosidade de que este que é o nosso maior problema ambiental nem sequer é um poluente, pois não só nós, os humanos, o exalamos quando respiramos, como as plantas o absorvem como alimento. Mas todos os esforços vão no sentido de limitar o incremento das temperaturas médias a menos de 2ºC, face aos níveis pré-industriais, quando a concentração de CO2 era de apenas 275 PPM.

Com o crescimento da economia (e capacidade industrial) chinesa e indiana, a que em breve se vai juntar uma série de outros países asiáticos em desenvolvimento, a humanidade emite anualmente para a atmosfera 37,1 mil milhões de toneladas de CO2 (em 2018). Para respeitar os níveis acordados em Paris, seria necessário baixar a fasquia para os 20 mil milhões em 2030 e para zero em 2050.

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Os meios de transporte têm a sua responsabilidade na quantidade de CO2 que existe no ar, que rondará 14%, muito menos do que a produção de energia, de que necessitamos para nos iluminar, aquecer e fazer funcionar as nossas fábricas. A queima de carvão é a maior fonte emissora de CO2, mas até os países que usam e abusam deste recurso, como a Alemanha, China e EUA, começam a virar-lhe as costas desde que as fontes renováveis permitem produzir energia a preços inferiores.

O truque está num aspirador gigante

Afirmam os especialistas que o excesso de dióxido de carbono é de tal forma elevado que as metas não serão atingidas apenas adoptando formas renováveis para gerar energia e veículos eléctricos para não poluir enquanto se deslocam. Isto já para não falar de países como a Alemanha, onde não faz sentido recarregar as baterias dos automóveis com energia produzida a partir da queima do carvão. Além de passar a gerar electricidade de fontes não poluentes e de recorrer a meios de transporte limpos, é forçoso retirar o excesso de CO2 que existe na atmosfera. O que é bem mais fácil de dizer do que fazer…

A tecnologia para o fazer existe há muito, mas era cara. Pelo menos, até aqui. Há essencialmente três empresas com conhecimentos nesta matéria: os suíços da Climeworks, os canadianos da Carbon Engineering e os americanos da Global Thermostat, em parte com fundos atribuídos por bilionários como Bill Gates.

Ainda que com tecnologias distintas, o que conduz a preços diferenciados, todos eles sabem aspirar o ar, filtrá-lo, retirar o CO2 e guardá-lo ou processá-lo, de forma a que não prejudique o ambiente. Mas por um valor entre 500 a 600€ a tonelada do gás, não abundavam os clientes desejosos de o adquirir, ou países com vontade de pagar para livrar o planeta de um problema que é de todos.

Sucede que com os custos da energia renovável a caírem a olhos vistos, da eólica à fotovoltaica, passando pela hidráulica, hoje já é possível retirar CO2 da atmosfera por pouco mais de 80€ a tonelada, o que abre as perspectivas para viabilizar um negócio que vale, a prazo, muitos triliões.

O que já está feito?

A Climeworks já possui uma fábrica para capturar carbono na Suíça e outra na Islândia. A primeira extrai CO2 que os suíços depois vendem aos fabricantes de bebidas gaseificadas (a Coca-Cola suíça) e a estufas de vegetais, para incrementar a produção entre 20 e 30%. Mas as instalações islandesas destinam-se a capturar o CO2 e enterrá-lo nas rochas basálticas da região, onde, com o passar dos anos (muitos anos), o CO2 se transforma em rocha. Para a empresa suíça, se possuísse 250.000 unidades como as duas que explora, o excesso de CO2 deixaria a prazo de ser um problema.

A Carbon Engineering fornece grande parte do CO2 que recolhe à indústria petrolífera, que o injecta no solo para optimizar a extracção petrolífera – o que, a prazo, não faz muito sentido, se o objectivo é reduzir o consumo de petróleo. Os canadianos, que têm actualmente vários projectos entre mãos, com valores médios de 600 milhões de dólares, calculam que seriam necessárias 5.000 das suas fábricas para capturar todo o CO2 produzido pelos EUA (cerca de 5,3 gigatoneladas), o que acarretaria um custo de 3 biliões de dólares.

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Pelo seu lado, a Global Thermostat usufrui da vantagem tecnológica de possuir filtros que necessitam apenas de ser aquecidos a 80ºC para libertarem o CO2, o que lhe permite poupar por se tratar de uma temperatura inferior à dos seus concorrentes. Esta empresa chegou a desenvolver projectos para capturar o CO2 que saía directamente das chaminés das refinarias, até concluir que o ar, nessas condições, com concentrações 300 vezes superiores às 400 PPM da média do planeta, não permitia que o filtro funcionasse de forma tão eficaz quanto o pretendido.

O que se poderia fazer?

Com todos os cientistas de acordo em relação à necessidade de ser fundamental acabar com a produção de energia eléctrica através da queima de carvão, petróleo ou gás, apostando cada vez mais nas renováveis, os veículos eléctricos irão desempenhar um papel preponderante. Porém, os automóveis a bateria não são a solução para todos os males e vão continuar a circular durante muitas dezenas de anos camiões, navios e até aviões a consumir derivados de petróleo, sobretudo nos países emergentes.

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Daí que o CO2 capturado por estas fábricas convertidas em aspiradores gigantes possa ter outro destino – um que fará os ambientalistas torcer o nariz, mas que numa primeira fase resolveria o problema de alguns países e de alguns meios de transportes. Referimo-nos aos combustíveis sintéticos, produzidos com este CO2 retirado da atmosfera, junto a hidrogénio igualmente retirado do ar.

Há muitas empresas a trabalhar no desenvolvimento deste tipo de combustível, que tanto pode ser gasolina como gasóleo, que ao serem fabricados com carbono retirado da atmosfera seriam neutros em termos de CO2, não diminuindo, mas também não incrementando a concentração do gás no ar que respiramos. Isto permitiria cessar de imediato a produção de CO2 adicional pelos camiões, navios e até aviões. Pelo menos, até surgir uma solução alternativa menos poluente, além de resolver o problema dos transportes nos países menos desenvolvidos.