Bruno e Wendel, um português e um brasileiro que se juntam e fazem um avançado (a crónica do Sporting-Sp. Braga)

Sem Dost, Bruno Fernandes e Wendel assumiram a função goleadora e garantiram a vitória do Sporting com o Sp. Braga (2-1). Os leões ganharam pela primeira vez desde maio e têm tudo para virar a página.

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Wendel abriu o marcador, Bruno Fernandes fez o segundo dos leões

NurPhoto via Getty Images

Wendel abriu o marcador, Bruno Fernandes fez o segundo dos leões

NurPhoto via Getty Images

Costuma dizer-se que no amor, tal como em tudo na vida, o timing é fulcral. A história tem vindo a contar que no futebol, também como em tudo na vida, o timing representa uma função crucial. Seja o timing do remate, na hora de tomar a decisão de levantar a perna e encher o pé; seja o timing do desarme, na hora de esticar o corpo e roubar a bola; seja o timing da desmarcação, na hora de correr um milésimo de segundo antes do adversário para ganhar dois passos de vantagem. Mas o timing fora de campo, sem bola e sem chuteiras calçadas, mantém uma preponderância quase equivalente.

Na véspera da receção do Sporting ao Sp. Braga, os adeptos leoninos ficaram a saber que o clube chegou a um princípio de acordo com o Eintracht Frankfurt por Bas Dost para a venda do avançado holandês. Esmiuçada a frase, quer isto dizer que no dia anterior a um jogo fundamental para o momento que os leões vivem — em que ainda não venceram esta temporada e começaram a Primeira Liga com um empate na Madeira, contra um adversário historicamente complicado –, o clube de Alvalade decidiu anunciar que a referência ofensiva da equipa, autor de mais de 90 golos nas últimas três temporadas, ia rumar a outras paragens.

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Ficha de jogo

Sporting-Sp. Braga, 2-1

Segunda jornada da Primeira Liga

Estádio de Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Luís Godinho (AF Évora)

Sporting: Renan, Thierry, Coates, Mathieu, Acuña, Doumbia, Bruno Fernandes, Wendel (Eduardo, 88′), Raphinha, Luiz Phellype (Vietto, 85′), Diaby (Neto, 77′)

Suplentes não utilizados: Maximiano, Ilori, Camacho, Borja

Treinador: Marcel Keizer

Sp. Braga: Matheus, Esgaio, Bruno Viana, Pablo, Sequeira, Claudemir, Fransérgio (Murilo, 72′), André Horta, Wilson (Galeno, 79′), Hassan (Paulinho, 72′), Ricardo Horta

Suplentes não utilizados: Eduardo, Tormena, Diogo Viana, João Novais

Treinador: Ricardo Sá Pinto

Golos: Wendel (16′), Bruno Fernandes (44′), Wilson Eduardo (73′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Pablo (38′), Thierry Correia (43′), Diaby (62′), Hassan (66′), Bruno Fernandes (75′), André Horta (90+1′), Claudemir (90+4′)

Timings à parte, a verdade é que o Sporting recebia mesmo o Sp. Braga este domingo, depois de ter empatado com o Marítimo na ronda inaugural da Liga e de Marcel Keizer ter dito depois do jogo que a equipa jogou bem durante “os primeiros seis minutos e meio”. Ainda sem vencer esta temporada e com a última vitória a remontar já à final da Taça de Portugal do fim de maio, os leões procuravam de forma imprescindível um resultado positivo que pudesse ser o início de um mais do que necessário virar de ciclo. Do outro lado, porém, estava um Sp. Braga que arrancou muito bem a temporada — tanto com a vitória perante o Moreirense, na primeira jornada, como com a ultrapassagem do playoff da Liga Europa, perante o Brondby. As saídas de Abel Ferreira e Dyego Sousa, treinador e referência ofensiva da equipa, foram colmatadas com as chegadas de Ricardo Sá Pinto e de Galeno e a verdade é que os minhotos estão a começar novamente uma época enquanto candidatos às competições internas, com uma palavra a dizer quanto ao Campeonato e ativos na Europa.

Era neste contexto que Sá Pinto, antigo jogador, diretor desportivo e treinador do Sporting, regressava a Alvalade, agora enquanto líder do Sp. Braga. Para a visita ao Sporting, os minhotos apresentavam-se com Hassan e André Horta na frente, apoiados por Ricardo Horta e Wilson Eduardo nas alas, e com um banco de suplentes de qualidade acima da média — pelo menos no que às opções ofensivas diz respeito, com João Novais, Paulinho e ainda Galeno disponíveis. Do outro lado, e depois do empate na Madeira, Keizer tirava Borja e Eduardo do onze inicial e lançava Diaby e Doumbia, com Acuña a regressar à posição de lateral esquerdo depois de ter sido médio na semana passada. Thierry Correia, muito criticado devido ao lance do golo do Marítimo e associado a um empréstimo durante a toda a semana, mantinha a titularidade na direita da defesa.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Sporting-Sp. Braga:]

O Sporting entrou mais forte no jogo, a procurar de imediato assentar arraiais no último terço do Sp. Braga. Com Luiz Phellype destacado na frente, Bruno Fernandes e Wendel estavam soltos nas costas do avançado brasileiro, com o capitão a recuar mais do que o antigo médio do Fluminense. Diaby, na esquerda, procurava mais o jogo interior do que Raphinha, mais preso ao corredor direito, mas ambos os jogadores solicitavam linhas de passe em zonas mais centrais para depois procurar a desmarcação de Luiz Phellype. A primeira oportunidade apareceu logo aos cinco minutos, com Bruno Fernandes a aparecer à entrada da área a rematar rasteiro depois de um passe de Raphinha, e o Sp. Braga só conseguiu causar alguns calafrios à defesa leonina com um remate de muito longe de André Horta, que passou perto do poste de Renan (14′).

Num período de insistência do Sporting, em que os leões subiram as linhas e pressionaram a saída de bola dos minhotos, principalmente os dois centrais, Coates esteve perto de inaugurar o marcador com um cabeceamento que Matheus conseguiu parar (15′) e o golo apareceu logo depois. No exemplo daquilo que estavam a ser os últimos dois minutos da equipa de Keizer, que deixou de permitir que o Sp. Braga saísse a jogar, Raphinha cruzou rasteiro a partir da direita depois de uma recuperação de bola, a defesa minhota tentou aliviar, Luiz Phellype ganhou a posse e assistiu Wendel, que apareceu vindo de trás para rematar na diagonal e bater Matheus (16′). Vantagem merecida do Sporting pouco depois do quarto de hora: a equipa conseguiu marcar ao quinto remate e levava 70% de posse de bola contra 30% do Sp. Braga, numa entrada surpreendente e que entusiasmou as bancadas de Alvalade.

Depois do primeiro golo, os leões baixaram todos os setores e procuraram controlar sem grande vertigem, num período em que o Sp. Braga foi crescendo e conquistando metros no meio-campo adversário. Fransérgio e André Horta, um no meio-campo e outro mais adiantado, iam tentando explorar o espaço nas costas de Doumbia, que estava algo perdido entre ajudar nas tarefas defensivas ou servir como primeiro homem da construção. Thierry Correia, responsável por cobrir os irmãos Horta, estava em bom plano e ia conseguindo esvaziar as tentativas do Sp. Braga; do outro lado, Acuña estava alguns furos abaixo no plano defensivo, somava perdas de bola e foi precisamente pelo corredor esquerdo da defesa do Sporting, direito do Sp. Braga, que a equipa de Sá Pinto acabou por conseguir criar perigo. Renan foi obrigado a três grandes defesas — um ressalto que Pablo ia aproveitando (30′), um cabeceamento de Hassan (39′) e um remate também do egípcio (40′) — e o Sporting começou a temporizar, claramente à espera do intervalo, através da circulação de bola.

A equipa de Marcel Keizer acabou por conseguir chegar ao segundo golo ainda antes do intervalo, através de Bruno Fernandes, num lance que deixou visíveis as dificuldades da equipa do Sp. Braga em render Claudemir, o elemento minhoto que estava a marcar de forma mais constante o capitão leonino. Bruno desarmou Claudemir e correu sem oposição durante vários metros, até à grande área, deixando Bruno Viana para trás com uma finta de corpo para depois rematar forte para bater Matheus (44′). Na ida para o intervalo, Sá Pinto precisava de retocar o esquema defensivo, que ia mostrando algumas fragilidades e que traía o movimento ofensivo, onde o Sp. Braga esteve perto do golo diversas vezes. Do outro lado, o Sporting ia para o balneário com uma vantagem merecida e convincente, muito assente nas operações de Wendel e de Bruno Fernandes.

Na segunda parte, Sá Pinto optou por trocar Fransérgio com André Horta e colocar Ricardo Horta e Wilson Eduardo a procurar mais espaços interiores, de forma a envolverem-se mais na toada ofensiva minhota, com os laterais Ricardo Esgaio e Sequeira a subirem vários metros em relação às zonas que ocuparam durante a primeira parte. Depressa se percebeu que o segundo tempo seria inverso, em toda a linha, ao primeiro, já que o Sp. Braga colocou a fase inicial de construção muito subida e encostou o Sporting à cordas e à própria grande área. A partir dos 60 minutos, as oportunidades dos minhotos tornaram-se sucessivas: primeiro foi Ricardo Horta a rematar ao lado (63′), depois Fransérgio a cabecear para mais uma defesa de Renan (65′) e o guarda-redes brasileiro acabou por assumir um caráter totalmente decisivo na partida, já que ia evitando a todo o custo as inúmeras oportunidades da equipa de Sá Pinto.

Renan só foi traído por uma recarga, já nos 20 minutos finais da partida, quando Wilson Eduardo aproveitou uma bola vinda do poste depois de um remate muito forte de Ricardo Horta para reduzir a desvantagem (73′). O ala minhoto, que realizou toda a formação no Sporting, voltou a marcar à antiga equipa e já leva seis golos marcados aos leões. Sá Pinto fez all in e lançou Murilo e Paulinho, para as saídas de Fransérgio e Hassan, e Keizer reagiu com a entrada de Neto para o lugar de Diaby, claramente numa ação que tinha como objetivo defender o resultado e mostrou que, a partir daquele momento, o foco dos leões era garantir a vitória e não ir à procura do terceiro golo — do qual só esteve perto uma vez, através de uma combinação entre Luiz Phellype e Bruno Fernandes que Matheus anulou (69′).

Até ao final, o festival de ataque do Sp. Braga — que chegou ao terceiro registo mais alto de remates dentro da área adversária na Liga, com 12 — foi esbarrando tanto em Renan como em Mathieu e Coates, que renderam uma exibição muito pouco inspirada de Acuña e a inexperiência de Thierry. O Sporting conseguiu alcançar a primeira vitória da temporada, num jogo historicamente difícil, e deu um passo importante na retoma que terá de ser feita a partir de agora. O Sp. Braga sofreu a primeira derrota da época mas deixou indicações muito positivas, principalmente no que diz respeito à forma física e à resposta à desvantagem, isto tendo em conta que fez este domingo o quarto jogo em dez dias. Wendel e Bruno Fernandes, na ausência de Bas Dost e com Luiz Phellype a não protagonizar nenhuma oportunidade clara, formaram um híbrido de duas cabeças que aliviou a crise leonina e abriu espaço à esperança em Alvalade.

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