Estamos no separador correto? Aquele em que o reggaeton nos assaltou as casas e as ruas, os passeios e as conversas, as tascas e todo o tipo de discotecas, das mais tradicionais àquelas de beira-de-estrada? Estamos? Ótimo. Aquilo que tem sido descrito muitas vezes como música “urbana latina” é, inegavelmente, uma das modas sonoras da atualidade, precisamos disto para estar socialmente, há uma certa de forma de dançar e, consequentemente, de estar na vida: é o chamado perreo.

Perreo, para os mais distraídos, é a palavra utilizada para a forma como se dança reggaeton. E quando se escolhe ser do perreo, escolhe-se ser da festa, do verão, das bebidas frescas, das festas com pouca roupa. Oasis – disco feito a meias entre os heróis latinos J Balvin e Bad Bunny – é puro perreo, é um objeto que reúne todo esse abanar de anca, que nos atira violentamente contra uns 40 graus.

“Mojaita”, primeiro tema do disco fala-nos de biquínis, toalhas, Bora-Bora, portanto é aquele tema-resort, pulseirinha-tudo-incluído, quando nos surpreendem com mojitos connosco dentro da maior piscina do hotel, assim com os braços e tatuagens à vista, a trocar olhares escaldantes. Aliás, se pensarmos bem, o disco é muito sobre isto. Sobre esses enredos de pista de dança ao ar livre, sobre saídas da água triunfantes onde se sacode a água com sensualidade. É, nesse sentido, um bocado parolo. Mas o mundo, em 2019, chegou a esse ponto de liberdade, de podermos curtir a parolice, porque, na verdade, a parolice tem pinta, uma certa onda, um prazer que já não é proibido.

A capa de “Oasis”, de J Balvin e Bad Bunny

A ligação Colômbia-Porto Rico, isto é, J Balvin-Bad Bunny, não é nova. Em 2017, com uma série de outros companheiros, lançaram “Sensualid”. E ainda antes disso, no mesmo ano, Bad Bunny participa na canção “Si Tu Novio Te Deja Sola”.

E depois, melhor ainda, coisa mais internacional e com mais prestígio como é participarem ambos num tema de Cardi B que saqueou o verão de 2018 e que serviu como uma espécie de juras de amor, ou antes a certeza de que estes dois tinham que se sentar à mesma mesa mais vezes.

As promessas – ou as expectativas – cumpriram-se. Oasis é para aprender a dançar e a cantar rapidamente. “Yo Le Llego”, segunda faixa, dá-nos um instrumental mais citadino, portanto, menos resort, mais instrumentos tradicionais da América do Sul, cuba-libre num boteco em Havana, festa de rua com carros de alta-cilindrada em Bogotá:

“Dime dónde e’ que está la bebida, ey, y yo le llego
Dónde están las mujere’, eh, eh, y yo le llego
Dime dónde está mi gente, eh-eh, y yo le llego, ey
Dónde e’ que están los cuartos, ‘manito, ey, y yo le llego”

A sua combinação de estilos é, de facto, uma delícia. Bad Bunny é aquilo que se conhece como “trapero”, um tipo que utiliza o seu ADN latino para se aproximar das correntes internacionais do trap, o que torna a coisa muito mais cantada, com menos auto-tune e mais prolongamento assumido de palavras, que parecem às vezes serem as mesmas ou simplesmente não terminarem.

J Balvin é outra coisa, é voz menos estridente, mais rap salteador de corações, fanfarrão sem camisola e, outras vezes, mais coisa pop, versos apelativo, que ficam perfeitos para quando estamos já algo cansados de perrear, poder ir abaixo, descansar um bocado as pernas, ir ao bar para uma bebida rápida, algo do género. E todo o dançarino empenhado agradece esses curtas acalmias. “Qué Pretendes” é mais isso, mais baile por acontecer:

Espaço para a nostalgia, para a ideia do romance a desfazer-se, o comboio ou o autocarro a levar a nossa paixão de verão, as duas semanas de pulseirinha a passarem em polaroides na nossa cabeça. “La Canción” percorre esse trilho arenoso, a retrospetiva dos copos deitados abaixo, da embriaguez a fazer emergir calores inesperados e, por fim, aquela melancolia, praticamente tristeza, de achar que estava tudo bem, mas bastar meterem a “nossa” música a tocar, aquela que dançámos juntos a toda a hora, aquela que nos juntou, para nos irmos abaixo:

“Pensaba que te había olvida’o
Pero pusieron la canción”

É isso é. Oasis é a nossa paixoneta de verão. Que, neste caso se pode bem prolongar até ao outono ou até o verão de outras geografias, sim, porque o Natal não se celebra com frio em todo o planeta. “Como Un Bebé (feat. Mr. Eazi)” é provavelmente coisa para se agarrar à nossa roupa nos próximos tempos, belos tempos, grandes tempos. Quando der consigo a cantar “así que baila pa mí (baila pa mi) / me gusta la manera en que tú me lo mueve así” não estranhe. Abrace o perreo.