O braço de ferro entre a Universidade Católica Portuguesa e a Ordem dos Médicos continua. Depois de a Ordem se ter mostrado contra a criação de um curso de Medicina naquela universidade, e ter enviado um parecer negativo à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), entidade responsável pela decisão, agora é a vez de a Católica responder. Num comunicado a que o Observador teve acesso, a universidade procura “repor a verdade” desmontando um por um os argumentos usados pela Ordem dos Médicos no seu parecer contra a existência de um novo curso de medicina. Trata-se, diz a universidade, de “objeções infundadas”.

Um dos primeiros argumentos da universidade, a favor da criação do novo curso, é o facto de a Católica propor replicar para a sociedade portuguesa o currículo da universidade holandesa de Maastricht, que já está validado pela agência de acreditação responsável e é considerado “exemplar”. “É importante recordar que a nova Faculdade de Medicina da UCP vai aplicar, após adaptações à realidade portuguesa, o currículo da Universidade de Maastricht, com quem tem uma estreita colaboração, sendo este acreditado pela agência de acreditação holandesa. Este currículo, altamente conceituado e considerado pela Comissão de Avaliação da própria A3ES como ‘exemplar’, distingue-se dos currículos tradicionais por ter uma abordagem mais prática e integrada desde os primeiros anos”, lê-se.

Mas não é só por aí que a Católica se defende. Um por um, o comunicado procura desmontar todos os argumentos invocados pela Ordem dos Médicos, e divulgados numa notícia do jornal Público do dia 30 de agosto. Primeiro, em relação às horas de contacto previstas com os doentes, a Católica afirma que estão previstos 81 ECTS, e não apenas 24 como diz a Ordem. “O contacto com os doentes começa no terceiro ano do curso, durante o qual estão dedicadas 120 horas para contacto com pacientes. Os quarto e quintos anos são compostos pelas rotações clínicas, durante as quais estão dedicadas 1.632 horas para contacto com pacientes, dentro das mais importantes especialidades, nas quais os estudantes estão completamente integrados nas equipas médicas (…) Finalmente, no sexto ano, um semestre inteiro, representando 540 horas de trabalho dedicadas ao contacto com pacientes, está contemplado um estágio clínico”, explica a universidade.

Depois, em relação ao número de professores, que a Ordem diz ser insuficiente, a Católica garante que tem “compromisso escrito com mais de 170 docentes, habilitados com as qualificações doutorais necessárias”, o que assegura um total de 26500 horas. A isto, prevê que se juntem outros professores convidados, que irão perfazer mais um total de 3 mil horas de aulas especializadas.

Também no que diz respeito à articulação com os hospitais onde os estudantes devem ter a sua formação prática, a Católica rejeita a argumentação da Ordem. A Ordem dos Médicos diz que o número de camas disponibilizadas pelos hospitais com os quais a universidade se propõe fazer parceria (Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, Hospital da Luz e o hospital do mesmo grupo privado em Setúbal) é insuficiente (760 camas), mas a Católica diz que estão em causa mais de 1650 camas. “O ensino clínico decorrerá predominantemente no Grupo Luz Saúde, compreendendo 24 unidades de Saúde (1 pública e 23 privadas), com um total de 1.650 camas (418 públicas e 1.232 privadas) e não 760 camas como referido”, lê-se.

Além destas camas, a nova faculdade prevê que o ensino clínico se faça também em ambulatório, durante as consultas. “Para este efeito, a nova Faculdade também contará com as unidades Hospital da Luz Odivelas e Amadora. Já está elaborado o plano de distribuição dos estudantes nas rotações e estágio clínicos e não foi encontrado nenhum constrangimento de colocação de estudantes, mesmo sem contar com a expansão do Hospital da Luz Lisboa”, afirma a Católica no referido comunicado.

A Ordem manifestou também reservas quanto ao facto de o novo curso de Medicina da Católica vir a ser ministrado em inglês – com a justificação de que será uma forma de atrair estudantes estrangeiros para fazer a formação em Portugal. Mas a Católica defende-se: só os três primeiros anos são em inglês, e a parte prática, de contacto com o doente, será em português. Os alunos estrangeiros terão formação obrigatória sobre língua portuguesa.

“Os primeiros três anos serão lecionados em inglês, que é a língua universal da ciência. É muito importante o domínio do inglês para um médico poder estar atualizado e colaborar a nível internacional. Naturalmente que o contacto com os pacientes em Portugal será em português e por isso, todos os estudantes que não sejam fluentes em português terão obrigatoriamente formação disponibilizada pela UCP e de comprovar a sua fluência antes de iniciarem o contacto clínico no 3.º ano”, escreve a Universidade Católica.

Assim sendo, a Católica reitera que, num contexto de falta de médicos e sobrelotação das atuais escolas de Medicina, “é urgente expandir a oferta formativa, dando liberdade de escola aos jovens, e evitando a emigração forçada”. Pelo que se mostra confiante numa análise favorável por parte da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), já que o parecer negativo da Ordem dos Médicos não tem caráter vinculativo.