Takefusa Kubo, o Lionel Messi nipónico que assinou pelo Real Madrid e causou problemas internos no Barcelona por ter “fugido”, foi o primeiro sinal. Hiroki Abe, da mesma geração e também ele com um talento especial, saiu do Kashima Antlers para os catalães pouco depois. Alguma coisa estava a mudar no futebol japonês, capaz de produzir e exportar talentos para chegarem à Europa e cumprirem aí o último estágio de uma carreira com o objetivo final de reforçarem a seleção. Kubo e Abe foram dois dos rostos do projeto desenhado no final dos anos 90 que começam agora a dar frutos. Próximo objetivo? Ganhar o Campeonato do Mundo de 2050.

À partida, esta ideia ou uma utopia estão ela por ela. Mas a ideia foi assumida em julho deste ano por Mitsuru Murai, presidente da J-League, no “World Football Summit” em Kuala Lumpur. E com mais explicações para o projeto a longo prazo montado: criar uma competição doméstica capaz de rivalizar com as melhores ligas europeias até 2030, ter um sistema de distribuição de receitas televisivas que coloque como parâmetro chave o desenvolvimento de academias para o futebol de formação e respetivos resultados práticos, obrigatoriedade de haver uma quota de jogadores criados localmente. Com isso, os responsáveis nipónicos consideram que podem ganhar a maior fatia de destaque do futebol asiático à China e aproximar da modalidade uma população onde 50% não liga ou não segue a modalidade. É arrojado? Sim. Difícil? Muito. Mas tudo o que se está a passar no Campeonato do Mundo de râguebi obriga a que no mínimo se dê o benefício da dúvida à ideia.

Antes deste Mundial, o desporto da bola oval tinha uma expressão diminuta no Japão mas, em mais um projeto pensado e estruturado a médio/longo prazo, hoje é quase feriado nacional sempre que a seleção nipónica entra em campo: os estádios estão esgotados, os pontos de encontro para acompanhar os jogos vão-se multiplicando, o próprio interesse pela modalidade aumentou tanto que os fãs fazem questão de não perder nenhuma hipótese de irem a outros encontros que não tenham os asiáticos. Pessoas mais novas ou mais velhas, mais ou menos batidas nos eventos desportivos, todos se juntam com a pequena cartolina do “Try” para levantar em delírio sempre que há um ensaio. Uma cartolina que se levantou muito mais do que se pensaria.

Depois de uma vitória por 30-10 frente à Rússia, marcada sobretudo pela ansiedade revelada pela equipa na primeira parte até conseguir assentar o seu jogo, o conjunto comandado pelo neozelandês Jamie Joseph teve a grande surpresa da fase de grupos do Mundial ao vencer a Irlanda (seleção que este ano chegou a ganhar o topo do ranking mundial à Nova Zelândia) por 19-12. Em condições normais, bastaria este sucesso para carimbar a ida aos quartos até pelo favoritismo contra Samoa (38-19); no entanto, esta era uma poule mais aberta e a Escócia chegava à última jornada ainda com hipóteses de se juntar aos irlandeses nos quartos, “bastando” para isso que ganhasse a partida e com o ponto bónus ofensivo por fazer pelo menos quatro ensaios. E durante uns minutos, logo a abrir, esse sonho ainda pairou mas foi mesmo sol de pouca dura.

Após avanços e recuos em relação à realização do jogo por causa do tufão Hagibis que provocou uma vaga de destruição no país este sábado – até a equipa anfitriã sentiu isso mesmo, tendo de atravessar um autêntico mar entre inundações para chegar ao campo de treino –, o Japão-Escócia lá acabou por se realizar (até porque os europeus já ameaçavam com outras medidas caso fosse “neutralizado”) e começou com um ensaio a abrir de Finn Russell com conversão de Greig Laidlaw antes dos dez minutos iniciais que parecia abrir espaço à surpresa. Os nipónicos estavam nervosos, a ansiedade aumentou quando Yu Tamura falhou uma penalidade, mas 20 minutos arrasadores e com as variantes ofensivas a causarem mossa colocaram o resultado em 21-7 ao intervalo com ensaios com conversão de Kotaro Matsushima (17′), Keita Inagaki (25′) e Kenki Fukuoka (39′).

A Escócia não poderia sofrer mais nenhum ensaio e tinha ainda de conseguir pelo menos três para entrar na corrida pela qualificação mas um ensaio de Fukuoka logo a abrir a segunda parte acabou por ser um golpe rude nas aspirações do conjunto europeu, que reduziu apenas com dois ensaios com conversão de Willem Nel e Zander Fagerson que colocaram o resultado no 28-21 que não voltaria a mexer nos últimos 25 minutos. Estava assim consumada a grande surpresa deste Mundial, com o Japão a qualificar-se pela primeira vez para os quartos e logo como líder do grupo, encontrando agora no próximo fim de semana a África do Sul entre outros jogos grandes como o Nova Zelândia-Irlanda, o Inglaterra-Austrália e o Gales-França. E tudo com uma equipa que só baixa a cabeça para cantar o hino, provando que também se pode mudar o país através de uma bola oval.