As negociações para um possível acordo para o Brexit entre o Governo britânico e a Comissão Europeia continuam esta quarta-feira, depois de uma noitada de conversações que não trouxe, ainda, um acordo final.

O negociador-chefe da União Europeia (UE), Michel Barnier, tinha imposto um prazo limite — até à meia-noite de terça-feira — para que fosse alcançado um acordo a tempo de ser aprovado na cimeira europeia de quinta e sexta-feira (17 e 18 de outubro). Apesar de esse deadline ter sido quebrado — as equipas estiveram reunidas até às 2h30 da madrugada —, os negociadores continuam esta quarta-feira a tentar alcançar um compromisso que possa ser aceite por ambas as partes.

“As equipas trabalharam noite dentro e continuam a fazer progressos. Encontram-se de novo esta manhã”, declarou uma fonte do Governo britânico ao jornal The Guardian.

De acordo com o que fontes de ambas as equipas negociais transmitiram à imprensa britânica, o acordo que está em cima da mesa neste momento envolve um mecanismo semelhante ao polémico backstop das Irlandas — o mecanismo de salvaguarda que mantinha a Irlanda do Norte numa união aduaneira com a UE, para impedir a criação de uma fronteira física entre as duas Irlandas e respeitar assim os Acordos de Paz de Sexta-Feira Santa —, que levou ao chumbo do acordo de Theresa May na Câmara dos Comuns.

No plano que está desenhado, a Irlanda do Norte não seria formalmente parte da união aduaneira europeia, mas teria de respeitar as regras do bloco europeu. “A Irlanda do Norte estaria de jure no território aduaneiro do Reino Unido, mas estaria de facto no território aduaneiro da UE”, definiu uma fonte diplomática ao Guardian. Contudo, para combater as reservas dos deputados britânicos, estará a ser estudado um mecanismo de consentimento para “delegar responsabilidades” nos partidos da Irlanda do Norte, como avançaram ao Telegraph fontes europeias.

Aliados do DUP não estão contentes com acordo que está em cima da mesa

O problema que parece atrasar a finalização de um texto aceite por ambas as equipas é o possível veto dos deputados britânicos no Parlamento, nomeadamente os grupos que chumbaram o acordo de May: os conservadores mais eurocéticos do European Research Group (ERG) e os norte-irlandeses unionistas do DUP, razão pela qual Boris Johnson se encontrou na noite de terça-feira com representantes de ambos os grupos em Downing Street.

Os membros do ERG parecem bem mais convencidos do que os aliados da Irlanda do Norte, para já. Na sequência da reunião de terça-feira, o líder do grupo, Steve Baker, comunicou aos membros do ERG que devem “confiar no primeiro-ministro”, segundo conta o Telegraph. Também o ex-ministro do Brexit e conhecido eurocético, David Davis, pediu a todos os conservadores que apoiem o acordo que saia das negociações, dizendo que pode “não ser perfeito”, mas que é “o mais próximo possível daquilo que foi prometido ao eleitorado”.

Já os representantes do partido unionista da Irlanda do Norte não foram tão positivos. “Não podemos dar um comentário detalhado, mas é justo indicar que ainda há falhas para corrigir e que é necessário mais trabalho”, afirmou um porta-voz do partido depois de a líder Arlene Foster se ter reunido com Boris Johnson. O DUP está, por enquanto, a ser a maior pedra no sapato para ser alcançado um acordo: “As hipóteses de um acordo estão baixas. Não parece provável que o DUP apoie o que quer que seja que se possa negociar“, lamentou uma fonte do Governo ao jornalista Robert Peston, da ITV, esta manhã.

As reservas a um acordo da manhã desta quarta-feira surgem depois de um dia de otimismo, com várias fontes a avançar aos media que se estava mais próximo do que nunca de um acordo. Os mercados reagiram inclusivamente de forma positiva, com a libra a atingir máximos de maio, tanto face ao dólar como face ao euro.

Michel Barnier deverá fazer uma atualização do estado das negociações aos Estados-membros às 13h (hora de Bruxelas, 12h em Lisboa) e Boris Johnson fará o mesmo com o seu Conselho de Ministros, às 16h. Ao final do dia, o primeiro-ministro britânico irá reunir-se com o grupo parlamentar do Partido Conservador.

As equipas britânica e europeia continuam a negociar de forma acelerada esta quarta-feira, na esperança de alcançar um acordo que possa ser discutido e aprovado pelos líderes europeus na cimeira de quinta e sexta-feira, e posteriormente ratificado pelos parlamentos britânico e europeu. Se tal não acontecer, ou o Conselho Europeu discutirá um possível adiamento, ou reunirá novamente de emergência na semana seguinte. Se não for aprovado nenhum acordo nem adiamento, o Reino Unido sai por defeito da UE a 31 de outubro.