“Não se acanhem, invistam”, modernizem-se, exportem mais e apostem nos recursos humanos. Este é o repto lançado esta terça-feira por Pedro Siza Vieira, que fez questão, no congresso anual da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, de referir que falava na qualidade de “ministro adjunto e da Economia de um governo cessante”. Siza Vieira, que deverá ver a sua posição reforçada no próximo executivo, garante que “o Governo vai estar à altura” do desafio de ajudar as empresas a modernizarem-se e a conquistar quota de mercado nos mercados internacionais.

Falando sobre “os próximos anos”, Siza Vieira pede “às empresas que não se acanhem com as perspetivas de incerteza mas, sobretudo, pensem no percurso extraordinário que fizemos nos últimos anos, para enfrentar um mundo que pode ser menos certo mas nunca tão trágico como a última década”. “O próximo governo possa estar à altura desses desafios”, garante.

No Centro de Congressos do Estoril, onde se realiza o congresso anual da CIP, com o tema “Portugal – Crescimento ou Estagnação? A resposta está nas empresas!”, o ministro Siza Vieira afirmou que a recuperação “iniciada há meia dúzia de anos” levou a que “hoje tenhamos empresas que estão menos endividadas, são mais rentáveis, são mais competitivas no contexto quer do mercado nacional quer internacional”.

“Temos hoje a confiança de termos feito coletivamente um percurso muito importante que demonstra a pujança dos nossos empresários” quando são dadas condições de estabilidade política e social, argumentou o ministro da Economia.

“Os próximos anos são anos em que este movimento não pode abrandar”, complementou. “Na economia nunca podemos descansar, nas empresas nunca podemos tirar os olhos de onde estão os fornecedores e os mercados, porque a mudança vai ser rápida e acelerada”, por isso, as empresas tem de apostar, sobretudo, na transição para o digital. E isso “não é só ter mais computadores e máquinas, é alterar modelos de produção e de relação com fornecedores e clientes”.

Neste congresso da CIP, que se focou no tema do futuro do trabalho, foi apresentado pelo dean da NOVA SBE, Daniel Traça, a criação de uma plataforma — o ReSkillHub — para promover a requalificação das pessoas e, assim, resolver o “problema grande e urgente” que é adaptar as qualificações das pessoas às necessidades das empresas, hoje e no futuro.

Subqualificação e sobrequalificação

Foi, também, apresentado o estudo “Crescimento da Economia Portuguesa”, realizado pela Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, para a Associação Missão Crescimento, que concluiu que a falta de qualificações da população adulta, a par com a ineficiência do sistema bancário, têm sido dois dos principais entraves ao
crescimento da economia nacional”.

O estudo estima que uma duplicação do valor atual da percentagem de população adulta com ensino secundário completo, poderia traduzir-se num crescimento adicional de 1,26 pontos percentuais em termos anuais e de 13,3 pontos percentuais no espaço de uma década.

A educação e formação da população com mais de 25 anos apresenta-se como o fator com maior impacto potencial no crescimento da economia portuguesa, nomeadamente ao nível do ensino profissional e da qualificação de quadros intermédios. Note-se que, apesar de Portugal ter níveis de ensino superior que ficam 10 pontos percentuais aquém da mediana dos países da UE+OCDE, o país apresenta uma percentagem de trabalhadores sobrequalificados, ou seja, com um nível de escolaridade superior ao exigido pelo trabalho, de 24%, um valor que é 7 pontos percentuais superior à média da OCDE.

Estes são números que “indicam uma afetação ineficiente dos recursos e uma qualificação dos trabalhadores desajustada a uma parte significativa da procura do mercado, além de uma reduzida sofisticação tecnológica das empresas portuguesas”, concluem os autores do estudo.

OIT. Desigualdades laborais são “as munições por rebentar nas nossas sociedades”

A desigualdade laboral e as injustiças ao nível do trabalho estão na raiz do crescimento dos populismos e nacionalismos. Em poucas palavras, foi esta a ideia deixada pelo diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho, o britânico Guy Ryder, no Congresso da CIP. E até deu exemplos concretos da atualidade.

“Globalmente estamos a ver desafios importantes que se colocam perante os princípios básicos que a OIT personifica. Em muitos países vemos um crescimento do populismo e do nacionalismo, uma perda de confiança nos atores políticos e instituições já estabelecidos. E, particularmente importante do ponto de vista da OIT, uma rejeição da cooperação internacional através da ação multilateral”, disse o responsável da instituição, que é uma das agências das Nações Unidas.

Assim, disse Guy Ryder, o mundo tem assistido “com demasiada frequência” à forma como a lei internacional e os standards internacionais têm sido ignorados pelos países, fazendo crescer “uma cultura de impunidade”. “E nestes tempos de fake news, vemos como as verdades óbvias podem ser ignoradas, em detrimento de mentiras e falsidades, apresentadas como factos”, sintetizou.

“Acredito que, em grande medida, estes acontecimentos têm as suas raízes no mundo laboral. As razoáveis expectativas de muitas pessoas em todo o mundo no que diz respeito ao trabalho não estão a ser cumpridas. A crescente desigualdade traz consigo raiva. Olhem para Santiago do Chile, olhem hoje para Beirute. Mudanças rápidas trazem com elas desorientação. Por isso muita gente olha para o futuro com apreensão em vez de esperança”, salientou o britânico.

Em grande medida, adiantou o responsável, tal também acontece porque as pessoas “duvidam da capacidade das instituições e dos atores da vida pública de apresentarem soluções para as necessidades prementes”. E assim, sublinhou, as pessoas “sentem-se tentadas a olhar para outro lado em busca de soluções alternativas e enganadoramente simples. Soluções que pouco têm a ver com as ideias da OIT”.

Guy Ryder também recordou as palavras de um antigo responsável da OIT acerca das desigualdades no mercado laboral e na sociedade, onde “20% das pessoas que trabalham em todo o mundo vive em pobreza e 61% trabalham de informalmente”.

“Mais de 150 milhões de crianças em todo o mundo estão a fazer trabalho infantil. Há 25 milhões de vítimas de trabalho forçado. São números intoleráveis”, disse Guy Ryder. Também recordou as palavras de um antigo diretor-geral da OIT David Morse, há mais de 50 anos, quando aceitou – em nome da organização – o Nobel da Paz:  estes números representam “as munições de injustiça ainda por rebentar no seio das nossas sociedades. E ainda estão por desarmar”.