A 30 de agosto, uma mancha de petróleo cru foi avistada ao largo das praias de Tambaba e Gramame, município de Conde, e na Praia Bela, município de Pitimbu, no Brasil. Dois dias depois, a mancha de petróleo tinha chegado a Ipojuca e Olinda, em Pernambuco. Agora, ao fim de quase dois meses, a mancha alargou-se a 225 praias brasileiras e colocou nove estados em alerta ambiental. E ameaça com danos irreparáveis os ecossistemas marinhos na costa nordeste do Brasil.

A origem da mancha está a ser investigada pela Marinha do Brasil, pela Polícia Federal e pela Petrobras. Ninguém sabe de onde veio. Jair Bolsonaro, o presidente brasileiro, e o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, puseram três opções em cima da mesa: o petróleo pode ter vindo de um navio afundado, de um acidente na transferência de um navio para outro ou de um despejo com mão criminosa.

Há duas características a serem levadas em conta para descobrir de onde veio a mancha, que já matou pelo menos cinco aves, 18 tartarugas-marinhas, um peixe e um réptil, contabiliza o G1. Uma delas é o grau API, uma espécie de escala de Richter criada pelo Instituto Americano de Petróleo que relaciona a densidade dos derivados do petróleo com a água. O betume, que nessa escala está abaixo de 10, é mais denso (e menos valioso), por isso afunda no mar. Os derivados leves, menos densos, são mais valiosos, mas quanto mais tempo passam na superfície marítima, mais densos se tornam e têm tendência para afundar.

Praia de Janga, Pernambuco. Créditos: Getty Images

O outro aspeto que está a ser levado em conta é o percurso da mancha de petróleo cru. Estudando as datas de avistamentos nas praias brasileiras, as trajetórias das correntes e o percurso dos navios ao largo do nordeste do país, as autoridades estimam que o derrame deve ter começado a centenas de quilómetros da costa de Pernambuco e da Paraíba e que viaja a um ritmo de 10 centímetros por segundo.

Nessa região, os ventos sopram de sudeste para noroeste, do centro do Atlântico em direção ao Caribe e ao nordeste do Brasil. E as correntes marítimas seguem a mesma tendência de trajetória. Segundo o Centro Integrado de Segurança da Marinha, essas áreas foram navegadas por 140 navios-tanque durante o mês de agosto. Uma parte viajou entre o Caribe, o Golfo do México, o sul de África e o sudeste da Ásia. Outra seguiu do sudeste do Brasil para a Europa. Todos estão a ser interrogados pela Polícia Federal.

Três hipóteses para a origem do petróleo

A Petrobras, que até está envolvida nas investigações, desresponsabiliza-se. E argumenta: “A análise realizada em amostras de petróleo cru encontrado em praias do Nordeste atestou, por meio da observação de moléculas específicas, que a família de compostos orgânicos do material encontrado não é compatível com a dos óleos produzidos e comercializados pela companhia”.

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Mário Rangel, gestor do laboratório de geoquímica da Petrobras, explicou como se fazem essas análises: “Cada petróleo tem, entre aspas, um ADN específico. Então, esse conteúdo de moléculas que está em cada amostra é que me permite diferenciar um petróleo do outro e correlacioná-los, buscar semelhanças ou diferenças. Podemos dizer, grosseiramente que cada petróleo tem um ADN diferente”, conclui.

A tese de que o petróleo podia ter escapado de um navio afundado, e que até já podia estar no mar há muitos meses ou anos, perdeu força desde que se contabilizou em mil toneladas a quantidade de petróleo recolhido até 20 de outubro das praias brasileiras. Cristiane Jaccoud, especialista em planeamento ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, acrescenta: “Quando há colisão, o óleo e a plataforma naufraga. Esses acidentes são evidentes. Se fosse isso, já teria sido identificado”, disse ela ao G1.

A população arrisca a vida e recolhe petróleo em sacos. Créditos: Getty Images

Há também a possibilidade de um “transshipment”, um derrame acontece quando se transfere petróleo de um navio-tanque para outro. Em entrevista ao G1, Rui Carlos Botter, professor de Logística e Transportes da Universidade de São Paulo, explica que “não é raro que esse processo seja feito no Brasil, às vezes com o navio parado, às vezes em portos, às vezes em andamento”.

Mas Iderley Colombini Neto, especialista em geopolítica do petróleo no Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconómicos do Brasil, coloca problemas a esta tese: “Se fosse uma comporta a vazar, não teria esta magnitude. O que está a complicar é a quantidade. E não ter sido vista por nenhuma autoridade”, afirma ao G1. E prossegue: “Acho que na transferência entre barcos seria difícil ter esta magnitude, a não ser que se tenha transformado em algo mesmo criminoso, que eles tenham ignorado depois de o acidente ter começado a ocorrer. Mas, pela quantidade e dispersão do óleo, parece-me ser algo mais contínuo do que um momento específico”.

A terceira hipótese a ser estudada pelas autoridades é a de que esta mancha pode ser o resultado de um derrame criminoso. É possível que um navio fantasma, isto é, que não esteja registado para fugir a sanções económicas, tenha feito uma transferência de petróleo em alto-mar, mas que a operação tenha corrido mal. Rui Carlos Botter, no entanto, considera essa hipótese “muito improvável”: “Os portos por onde esses navios passam estão sob olhar de órgãos estatais, são fiscalizados, inclusive em relação a troca de óleo de lastro. Seria muito difícil algum navio levar para outro porto nessa condição de pirata”.

Brasileiros apontam o dedo à Venezuela

Independentemente da forma como a mancha de petróleo chegou ao mar, quem é responsável por ela? Um relatório publicado a 08 de outubro pela Petrobras, que analisou 23 amostras da mancha, aponta o dedo à Venezuela. Jair Bolsonaro retrai-se em dizer nomes e fica-se por sugerir que o derrame tem origem criminosa: “Eu não posso acusar um país. Imagine que não é aquele país. Não quero criar problemas com outros países. É reservado. É um volume que não está sendo constante, não é? Se fosse um navio que tivesse afundado, estaria saindo ainda óleo. Parece que criminosamente algo foi despejado lá”, acusa.

Mas Ricardo Salles, ministro do Ambiente, é menos cauteloso e diz que o petróleo que está a causar este “desastre ambiental”  é “muito provavelmente” da Venezuela. Na iminência de despertar um acidente diplomático — numa relação que já está complicada por causa da crise venezuelana e da onda de refugiados que está a invadir a fronteira com o Brasil —, o presidente brasileiro pediu à Organização dos Estados Americanos que contacte a Venezuela para se pronunciar sobre o caso. Mas isso ainda não aconteceu.

Por outro lado, a Universidade Federal de Sergipe aponta o dedo à Shell. De acordo com a instituição, foram encontrados no mar barris dessa petrolífera cujo conteúdo corresponde ao que chegou às 225 praias brasileiras. A empresa já se defendeu, dizendo que os barris podem ter sido reutilizados por outras partes. E que dificilmente os barris chegariam ao Brasil pelas mãos da Shell, já que a companhia holandesa não transporta barris em rotas transatlânticas.

Uma mancha de petróleo boia na água junto a um pequeno cardume. Créditos: Getty Images

De resto, todos concordam que a mancha de petróleo tem origem em “algo extraordinário”. Essas foram as palavras usadas pelo presidente da Petrobras: “São aproximadamente mais de 500 barris de petróleo, o que indica que não é simplesmente a lavagem de um tanque de um navio. Alguma coisa extraordinária aconteceu. Existe a possibilidade de esse material ser libertado gradualmente”.

A Universidade Federal de Sergipe, no entanto, insiste noutra hipótese: que o petróleo não tenha sido despejado na superfície do mar, mas sim que venha do fundo do oceano. É que as imagens de satélite da costa entre o sul da Bahia e a Venezuela captadas entre agosto e setembro não captaram quaisquer manchas significativas no mar.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) insistiu que a mancha “está a vir na coluna de água, submersa e fora do mar territorial brasileiro”: “Isso é certeza. Neste caso não tem o que fazer em termos de monitorização por satélite e todo o esforço com aeronaves é sem sentido. O Ibama não tem condições de fazer mais nada”. Estas informações dão sustento à ideia de que a mancha pode ter vindo de um navio naufragado, oficial ou fantasma.

“Ou houve um naufrágio e o óleo está sendo liberado a partir do fundo do mar ou algum navio teve uma avaria e foi preciso despejar sua carga, o que é aceite pelas normas de navegação, pois a prioridade é a salvaguarda dos tripulantes. Nas duas situações o transporte estava sendo feito de maneira clandestina, porque esses acidentes deveriam ser comunicados às autoridades. Agora, cabe à Marinha investigar”, acusa o Ibama.

Iderley Colombini Neto concorda que a Venezuela dificilmente é a responsável pelo derrame: “A produção da Venezuela é em grande parte nos lagos, fica longe demais da costa para um eventual vazamento que sai de lá e vem pelas correntes marítimas até o nordeste”.

Um problema sem fim à vista

A investigação prossegue com todas as possibilidades em aberto e a mancha não cessa de se espalhar pelo nordeste do Brasil. Bruno Estefanis, presidente do Instituto Biota de Conservação, garante que as manchas “cada vez maiores”. Isso confirma o parecer do presidente da Petrobras, que adjetivou o caso de “muito preocupante”. Há estados a declarar estado de emergência. E praias interditas a banhistas com o verão à porta no hemisfério sul.