Tudo nela é inconfundível — o cabelo simétrico, o sorriso indecifrável e os óculos escuros, atrás dos quais esconde, quase sempre, um olhar ligeiramente revirado. Anna Wintour completa, este domingo, 70 anos, mais de metade dos quais passados na redação da Vogue. A moda e o jornalismo atravessaram-se-lhe cedo no caminho. Há décadas que conquistou um lugar cativo nas mais cobiçadas primeiras filas do mundo, embora seja nos bastidores da indústria que melhor manifesta o seu talento nato — no olho que tem para apostar em novos designers, no estilo que imprimiu na revista da especialidade mais relevante do mundo e na capacidade que teve de levar a moda para outros palcos e de fazer dela um espetáculo.

Nasceu no seio de uma família de latifundiários britânicos, embora o pai fosse também jornalista. Filha de uma crítica de cinema norte-americana, relacionou-se desde cedo com elementos culturais vindos do outro lado do Atlântico. Aos 14 anos, adotou o corte de cabelo que nunca mais viria a deixar — um bob, ao estilo pajem –, enquanto sugeria pequenas alterações ao uniforme do colégio, tal como subir a bainha da saia. “Tendo crescido em Londres, nos anos 60, era preciso ter andado com um daqueles sacos do Irving Penn na cabeça para não ver as coisas extraordinárias que estavam a acontecer na moda”, referiu Wintour no documentário de 2009, “The September Issue”.

Na década de 80, em Nova Iorque © Getty Images

A Biba, boutique mais badalada da época, foi o seu primeiro trabalho. Depois desse, passou por um estágio na Harrods e ainda teve aulas de moda, acabando por desistir pouco tempo depois. Como a própria disse um dia: “Ou percebes de moda, ou não percebes”. Em 1970, o primeiro emprego como jornalista, na Harper’s & Queen. Com uma aptidão natural para estabelecer contactos e com acesso ao círculo em que o pai — editor do Evening Standard durante cerca de 20 anos — se movimentava, não demorou muito até começar a destacar-se e a trabalhar, desde logo, com nomes como Helmut Newton e Jim Lee.

A sua primeira incompatibilidade no meio jornalístico levou-a a demitir-se e a ir para Nova Iorque. Anna demonstrou, desde cedo, uma tendência para ter namorados mais velhos. Um deles foi o jornalista Jon Bradshaw. Onze anos mais velho, acabou por acompanhá-la na mudança de continente. Foi para a Harper’s Bazaar, onde passaram nove meses até ter sido despedida. Indicada pelo namorado, em 1975, foi ocupar, pela primeira vez, um cargo de editora de moda, numa revista chamada Viva. Em 1980, outra nova publicação, a Savvy. Aos 30 anos, Wintour voltava a chamar a atenção para o seu trabalho. “A Anna viu esta coisa das celebridades chegar antes de qualquer outra pessoa”, reconheceu Grace Coddington, diretora criativa da Vogue, no mesmo documentário de 2009.

Wintour e Vogue: uma história não existe sem a outra

A primeira aproximação de Anna Wintour à redação da Vogue foi feita a pés juntos. Numa entrevista com Grace Mirabella, na altura, diretora da publicação, chegou mesmo a referir que queria ficar com o lugar dela. Acabaria por ser contratada em 1983 — por decisão superior a Mirabella — para um novo cargo, o de diretora criativa da revista. “Ela ia por trás de mim e refazia as páginas com novos designs, contornando-me a mim e aos meus editores de moda […] Quando não conseguia passar por cima dos meus editores, criticava-os e chateava-os”, escreveu mais tarde Grace Mirabella, no seu livro de 1995 “In and Out of Vogue”.

Em 1985, é nomeada diretora da edição britânica da Vogue, pouco tempo após o casamento com o psiquiatra David Shaffer, com quem teve dois filhos: Charles e Bee, hoje com 34 e 32 anos, respetivamente. “Quero que a Vogue seja rápida, perspicaz e sexy. Não me interessam os super ricos nem os infinitamente descontraídos. Quero que as nossas leitoras sejam enérgicas, mulheres de negócios, com o seu próprio dinheiro e com um vasto leque de interesses”, referiu na altura ao Daily Telegraph.

No desfile de alta-costura de Gianni Versace, em Paris, em 1992. Na passerelle, desfila Linda Evangelista. Na primeira fila estão Anna Wintour e Elton John © Getty Images

A passagem pela redação da Vogue em Londres não seria pacífica (e também não foi longa). Wintour mudou o registo da revista e remodelou uma grande parte da equipa, feitos que lhe valeram a alcunha de nuclear Wintour. “Existe um novo tipo de mulher lá fora. Ela tem interesse por negócios e dinheiro. Ela já não tem tempo para ir às compras. Ela quer saber o quê, porquê, onde e como”, reforçou numa outra entrevista, dada na época ao Evening Standard.

Dois anos depois, estava de volta a Nova Iorque, primeiro para tomar conta da revista House & Garden, depois como editora da Vogue, um reforço da Condé Nast para fazer frente à recém-chegada Elle. As decisões e, sobretudo, o gosto de Wintour fez-se notar rapidamente nas capas. Em novembro de 1988, chegava às bancas a primeira edição de um longo reinado. Um estilo em tudo diferente do que havia sido proposto por Mirabella. Nessa primeira capa, a proposta de Anna foi a desconhecida Michaela Bercu. Com apenas 19 anos e no início da gravidez, a manequim apareceu a usar umas calças de ganga de 50 dólares (estreia absoluta numa capa da publicação) e um casaco de 10.000, assinado por Christian Lacroix.

Novembro de 1988, a primeira capa de Anna Wintour para a Vogue

“Houve algum erro?” — ligaram os trabalhadores da gráfica a perguntar. “Era tão diferente dos close-ups estudados e elegantes característicos das capas da Vogue até então, com quilos de maquilhagem e joias enormes. Esta quebrou todas as regras. A Michaela não olhava para ti e, pior, tinha os olhos quase fechados. Tinha o cabelo a voar à frente da cara. Tinha este ar simples, casual, de um momento captado na rua […] As pessoas fizeram muitas interpretações: era uma mistura de caro e barato, a Michaela estava grávida, era uma mensagem religiosa. Mas não era nada disso. Simplesmente, olhei para a fotografia e senti os ventos da mudança. E não se pode pedir mais de uma imagem de capa”, recordou a própria Anna Wintour num artigo escrito em 2012, a propósito dos 120 anos da Vogue.

Visuais leves e despojados, cabelos molhados, maquilhagens neutras — a naturalidade entranhou-se no ADN da Vogue. Até à viragem do século, a nova linguagem e a nova estética consolidaram-se, enquanto peças chave da equipa foram abandonando a redação. Em 2004, o September Issue quebrou o recorde de páginas: 832. Sob a sua supervisão, foram lançados os títulos  Teen Vogue, Vogue Living e Men’s Vogue. Esta última foi, à data, a publicação da Condé Nast com mais páginas de publicidade, com um total de 164 páginas ocupadas por anúncios.

O trabalho corria bem a Anna Wintour, até chegarmos a 2008, o ano de todos os insucessos. Uma capa acusada de invocar estereótipos raciais — com Gisele Bündchen e LeBron James –, outra a remeter para um triângulo amoroso — protagonizado por Jennifer Aniston, Brad Pitt e Angelina Jolie –, a suspensão da Vogue Living, a edição masculina limitada a dois números por ano, para não falar no dia, em dezembro de 2008, em que a revista Time distinguiu o look de Wintour na Met Gala como o pior momento do ano, no que à moda diz respeito.

Na Met Gala, em maio de 2008 © Getty Images

No final dos anos 2000, pairava a ideia de que teria perdido o jeito (ou o tom) e que poderia ser substituída no comando da Vogue a qualquer momento. Mas houve mais. Afinal, em 2003, tinha sido publicado “O Diabo Veste Prada”, retratando uma diretora fria e execrável. Escrito por Lauren Weisberger, antiga assistente de Wintour, o livro foi adaptado ao cinema em 2006. A analogia estava boa de perceber, embora Anna tenha classificado a obra de ficção como um “exagero”. À nuvem negra (e à torrente de especulações sobre a sua conduta no trabalho), Anna respondeu com um aumento das aparições públicas. “Para mim, é um momento muito interessante para estar nesta posição e acho que seria irresponsável não dar o meu melhor e não nos guiar em direção a uma nova fase”, afirmou durante uma entrevista ao programa “60 Minutes”, da CBS News, em maio de 2009.

Financeiramente, as compensações têm sido proporcionais ao estatuto que ocupa no mundo da moda. De acordo com o The New York Times, o salário de Wintour ronda os dois milhões de dólares anuais (uma assistente sua deverá ganhar cerca de 40.000 dólares por ano). A este valor, há que juntar o carro com motorista particular e outros benefícios sobre os quais se especula — entre eles, uma mesada de 200.000 dólares para compras e estadia garantida na Suite Coco Chanel do Ritz de Paris, sempre que se desloca para ver as modas europeias. Há quem diga que a própria Condé Nast lhe concedeu um empréstimo de 1,6 milhões, sem juros, para comprar a casa onde vive atualmente, em Greenwich Village.

Óculos escuros, um bob e Chanel: a receita de estilo de Anna Wintour

Mais centímetro, menos centímetro, com pequenas variações na simetria da franja, Anna Wintour mantém o mesmo corte de cabelo há décadas. Ao ponto, de este se ter tornado na sua mais poderosa imagem de marca. Os óculos escuros vêm logo a seguir. Um acessório recorrente, mesmo quando assiste a um desfile dentro de portas, e que tem gerado especulação ao longo dos anos. “[São] incrivelmente úteis porque te ajudam a evitar que as pessoas saibam o que estou a pensar”, respondeu numa entrevista dada à CNN, em abril deste ano. “São uma ajuda quando me sinto cansada ou com sono. Talvez se tenham tornado numa bengala. Mas hoje, preciso mesmo deles”, continuou. Segundo Jerry Oppenheimer, que em 2005 publicou a biografia “Front Row. Anna Wintour: The Cool Life and Hot Times of Vogue’s Editor in Chief”, os óculos são usados com um propósito corretivo, já que, à semelhança do pai, Wintour sofrerá de deterioração da visão.

Ao lado de Grace Coddington, num desfile da Ralph Lauren, em fevereiro de 2008 © Getty Images

No guarda-roupa, a diretora da Vogue segue uma fórmula sofisticada e relativamente elementar. Preto é, muito provavelmente, a cor que a vemos usar menos vezes. Nos anos 80, celebrizou uma imagem bem mais irreverente, ao usar peças que, hoje, acharíamos impensáveis, como slip dresses, minissaias, transparências, t-shirts brancas e skinny jeans. Com o passar do tempo, parece ter-se rendido à silhueta Chanel. Os tailleurs fazem parte de uma imagem pública mais construída e que coincide com a ascensão dentro da Vogue. A maison é ainda a escolha mais recorrente de Wintour para a Met Gala, ocasião em que as plumas e lantejoulas vêm todas ao de cima. Nos últimos anos, Anna parece ter iniciado uma viagem pelo mundo dos padrões. Em tons vibrantes e motivos elaborados, a nova fase manifesta-se sobretudo em vestidos de comprimento médio. O casaco quer-se neutro, salvo algumas exceções, ao contrário dos colares, usados, invariavelmente, juntos ao pescoço.

“Para mim, é muito importante estar bem quando apareço publicamente. Gosto de olhar para as minhas roupas nos cabides de manhã e de decidir o que vou vestir. Eu gosto de moda. Quer dizer, não teria este trabalho se não gostasse”, afirmou Anna Wintour na entrevista ao programa “60 Minutos”, em 2009.

A par da forma como se veste, também o estilo de vida segue preceitos rigorosos, embora essa seja uma divisão mais escondida do público. A rotina diária começará antes das seis da manhã e inclui uma visita matinal ao court de ténis — Wintour é uma verdadeira aficionada da modalidade. Ao longo dos anos, também ficou conhecida por chegar aos desfiles antes da hora. “Uso esse tempo de espera para fazer telefonemas e tirar notas. É nos desfiles que tenho algumas das minhas melhores ideias”, revelou ao The Telegraph, em 2006. Em festas, não vai além dos 20 minutos. O recolher acontece pouco tempo após as dez da noite.

Heroína ou vilã? As faces de Anna

Dentro da redação da Vogue há uma regra que não precisa de ser escrita, muito menos afixada nas paredes — nunca fazer conversa de circunstância com Anna Wintour. O conselho vai, aliás, muito além da publicação que dirige. Ao Daily Mail, Trish Halpin, antiga editora da Marie Claire, contou como essa foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça na madrugada em que se cruzou com Wintour no controlo do aeroporto de Heathrow. “Houve um ligeiro aceno de reconhecimento quando retirámos os nossos casacos e sapatos”, recordou Halpin.

Foi esta a imagem disseminada pelo livro e pelo filme “O Diabo Veste Prada”. Embora alguns comportamentos possam ter sido exagerados, a maioria das pessoas que se cruzou com Wintour não desmentiu propriamente o retrato, tão pouco partiu em defesa de uma chefe simpática e afável. “Acho que ela foi muito rude com muita gente no passado, enquanto fazia o seu caminho — muito direta. Ela não faz conversa de circunstância. Ela nunca vai ser amiga da assistente”, recordou um ex-colega, citado pelo The Guardian em 2006. A mesma pessoa defendeu ainda, na altura, que Wintour teria amolecido depois de conhecer Shelby Bryan, com quem casou em 2004, cinco anos após o divórcio de Shaffer.

Em setembro de 2003, durante um desfile de Michael Kors © Getty Images

Mas o mito continua a viver, bem como os rumores de que estabelecer contacto visual é desaconselhado e de quem tenha tido pequenos ataques de pânico perante a ideia de partilhar elevador com a diretora. “Não a vejo a ser acessível para quem não precisa de o ser”, referiu Tom Florio, publisher da Vogue, no documentário “September Issue”. “Acho que ela se diverte com o facto de não ser completamente acessível. Só o escritório dela é logo muito intimidante. Tens de andar um quilómetro para chegares à secretária e tenho a certeza de que é intencional”, admitiu ainda Coddington.

A ideia de uma imagem pública construída sobre detalhes (aparentemente irrelevantes) e especulações por confirmar é, na verdade, uma teoria provável. “Anna Wintour é a editora da Vogue americana, mas não é essa a imagem que vem primeiro […] Ela deixou de ser vista como jornalista há muito tempo e passou a ser uma espécie de embaixadora de toda a indústria da moda”, escreveu o The Guardian, também em 2006. “Houve uma fase da sua carreira, em que Anna Wintour deixou de ser Anna Wintour e tornou-se na ‘Anna Wintour’, ponto em que fechou muitas partes da sua personalidade ao público”, referiu ainda o artigo.

“Há tanta gente aqui, Morley, que trabalha comigo há 15 e há 20 anos. Se sou assim tão cabra, então eles adoram ser castigados porque continuam cá… Se por vezes sou fria ou brusca, é simplesmente porque luto para conseguir o melhor”, confessou durante a entrevista ao programa “60 Minutes”.

Com Karl Lagerfeld, em junho de 2006 © Getty Images

Há quem diga que, hoje, sorri mais e que até dá gargalhadas. Há quem alegue que sempre usou uma máscara para esconder a timidez. De volta ao episódio de Trish Halpin, no aeroporto, quando as duas se preparavam para voar até Milão, a editora da Marie Claire teve um clique de realidade… e de normalidade. “Quando ela tirou as botas fiquei surpreendida quando vi que tinha umas meias de lã grossas por cima das collants. Pelo menos, aquela imagem perfeita já tinha ficado danificada. Ela parecia vulnerável, tal como todos nós, comuns mortais, a entrar no avião naquela manhã”, concluiu Halpin.

No mesmo artigo do Daily Mail, fala Patrick Wintour, irmão mais novo da diretora da Vogue. “Nada a deixa mais feliz do que ver mais de 30 pessoas numa mesa corrida num dia luminoso de agosto, em Long Island, com filhos, filhas, netos, irmãos, irmãs, sobrinhas, sobrinhos e amigos a conversar durante o almoço. Ela compreende cada um deles e vai fazer tudo o que puder para ajudá-los a ter o melhor da vida”, confessou.

Durante as últimas décadas, Anna Wintour foi também alvo de ataques por parte de ativistas do direitos dos animais. “Ninguém estava a usar peles até ela começar a pô-las na capa, no início dos anos 90. Ela inflamou toda a indústria”, admitiu Tom Florio, em 2009. A sua postura perante o uso de peles na indústria originou protestos e manifestações. Em outubro de 2005, foi atingida com uma tarte de tofu quando chegava ao desfile da Chloé, em Paris. Em dezembro de 1996, uma ativista entrou dissimuladamente no restaurante onde almoçava, largou um guaxinim morto no prato de Wintour e gritou: “A Anna usa chapéus de pelo”.

“Anna Wintour: a bruxa das peles”. Manifestantes da PETA, em Nova Iorque, em outubro de 2005 © Getty Images

Mas têm existido outros motivos para odiar Anna Wintour. “A Anna não gosta de gente gorda”, admitiu Andre Leon Talley, editor geral da Vogue, numa entrevista a Oprah Winfrey, em 2005, apontando a afirmação como motivo de todas as raparigas da Vogue serem “tremendamente magras”. Wintour defendeu-se das acusações, alegando a importância de ter pessoas, sobretudo no departamento de moda, que mantenham uma imagem que possa rapidamente ser associada à Vogue.

Não obstante a visão exclusiva e elitista do mundo da moda, Wintour tem protagonizado também ações de apoio a novos talentos da indústria, à conservação e a flagelos mundiais, como é o caso da SIDA. A gala anual do Metropolitan Museum como a conhecemos não existiria sem ela. Numa parceria entre a Vogue e o Council of Fashion Designers of America, foi criado um fundo para apoiar jovens criadores de moda.

Nem a política é um solo inexplorado para Anna. Em 2016, apoiou publicamente a candidatura de Hillary Clinton às eleições presidenciais, nos Estados Unidos. Terá mesmo feito consultoria de guarda-roupa para a candidata democrata em momentos chave da campanha. Em maio de 2017, foi recebida pela Rainha no Palácio de Buckingham, recebendo o título de dama pelas suas contribuições nas áreas da moda e do jornalismo. Parece que as faces de Anna Wintour são tantas quantas as polémicas e conquistas. Chega aos 70 anos, sob uma nova vaga de especulações em torno de uma eventual retirada. São já 36 anos de Vogue e, até que a própria diga o contrário, a era Wintour ainda não chegou ao fim.