O agravamento do estado de saúde dos migrantes que vivem em Portugal levou a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) a desenvolver um projeto para aproximar estas pessoas dos serviços e ajudar a prevenir doenças evitáveis.

Os migrantes tendem a apresentar um bom nível de saúde na chegada aos países de acolhimento, no entanto, ao longo do tempo a situação reverte-se e, em geral, apresentam taxas de prevalência e mortalidade por doenças não transmissíveis mais elevadas do que os nacionais. Com o projeto “Literacia em saúde e coesão social em populações migrantes”, que é apresentado esta terça-feira em Lisboa, a ENSP junta-se aos esforços globais assumidos na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para não deixar populações migrantes “para trás”.

Em declarações à agência Lusa, a investigadora Sónia Dias explicou que o projeto, que conta com a parceria da Direção-Geral da Saúde e a colaboração da Organização Mundial da Saúde, surgiu num contexto de “um aumento rápido dos movimentos migratórios e Portugal não é exceção no contexto da Europa”, resultado em grande parte da melhoria do ambiente económico e com impactos positivos ao nível da renovação demográfica. Para uma boa integração, para serem empreendedores e contribuir para o desenvolvimento e coesão social das sociedades, “ter saúde é um determinante importante” para os migrantes.

O que muitas vezes acontece é que, apesar de chegarem a Portugal com “um bom nível de saúde”, esse nível “vai diminuindo ao longo do tempo por resultado de uma maior exposição a situações de desvantagem social e económica”, explicou a coordenadora do projeto. Também contribuem para esta situação fatores como “o desconhecimento do funcionamento do sistema de saúde dos países onde chegam, algumas barreiras linguísticas e culturais”. “Estas dificuldades podem surgir quando procuram os cuidados de saúde”, acabando por perder-se oportunidades de lhes dar informação sobre saúde, fatores de risco, doenças crónicas, como também o acesso atempado a cuidados de saúde.

Um dos objetivos do projeto é que se evitem “essas oportunidades perdidas” e para isso vai trabalhar as questões da promoção e literacia em saúde, coesão social em populações migrantes, na prevenção de doenças crónicas não transmissíveis, como a diabetes, as doenças cardiovasculares ou hipertensão, muito associadas a fatores e estilos de vida que as populações adotam.

Numa primeira fase, o projeto, em colaboração com associações de migrantes e parceiros dos setores da saúde, social e poder local, pretende perceber “as reais necessidades de literacia em saúde” e quem não está a ser abrangido pelos serviços e porquê. Após compreender “as reais necessidades no terreno”, o projeto entra numa segunda fase, envolvendo mais uma vez todos os atores, que em conjunto vão planear “soluções e estratégias inovadoras para responder a essas necessidades”. “Esta abordagem vai-nos permitir assegurar que as soluções possam ser adequadas, mas também compreendidas e aceites pelas comunidades e parceiros”, referiu a investigadora, sublinhando que “a literacia em saúde significa mais do que ter informação disponível ou distribuir panfletos”. “Para quem acabou de chegar ao país nem sempre é fácil saber navegar nos diferentes serviços de saúde ou saber exatamente onde recorrer”, exemplificou.

Por outro lado, também é necessário que “as organizações estejam preparadas para lidar com esta diversidade e com esta nova realidade e, portanto, o projeto vai procurar encontrar estratégias inovadoras” que “passem do papel para o terreno”. “Procuramos desta forma reduzir as disparidades em saúde, promover uma adequada integração e, por outro lado, aumentar a responsabilidade das organizações e serviços na literacia em saúde”, rematou.