Enviada especial à Índia

Surgir Kamari é o correspondente do canal público indiano, DD Tv, no Palácio Presidencial e está habitualmente junto do púlpito, nas honras militares, para lançar uma pergunta “espontânea”. “O que espera desta visita?”. Era o que tinha preparado para perguntar ao Presidente português mal ele se aproximasse, é sempre assim que faz. Mas desta vez, do outro lado estava Marcelo Rebelo de Sousa e não foi preciso deixa para chegar ao microfone e disparar o que tinha para dizer.

“Estes laços são feitos de passado, presente e de futuro”, disse primeiro em inglês, depois de avisar o Presidente Ram Nath Kovind que a seguir traduziria para português. Sem cerimónias, ao estilo Marcelo-mestre-de-todas-as-cerimónias. Mesmo as mais oficiais como as honras militares no Palácio Presidencial indiano Rashtrapati Bhavan, iniciadas com uma salva de 21 tiros de canhão e uma parada militar.

No terreiro de terra batida, sob a torreira do sol indiano, Marcelo começou, assim, a visita de Estado à Índia onde está apostado em promover a vertente de “plataforma entre continentes, oceanos, culturas e civilizações” e ainda que “é português o secretário-geral da ONU”, António Guterres. A mensagem não diverge muito de cada vez que o Presidente da República viaja para outros continentes, mas aqui tem outro peso falar-se da localização geográfica e da influência internacional num organização onde os indianos desejam há muito ter um assento no Conselho de Segurança.

Esta é uma “visita de Estado que não ocorre há 13 anos e que significa uma mudança muito grande no mundo e nas relações entre os dois países”. Portugal é a tal plataforma e a Índia é hoje “um super poder, com um poder global”, disse já em português.

E voltou a referir a questão a importância da defesa dos direitos humanos, de que tinha falado à chegada, quando questionado pelos jornalistas portugueses. “Há toda uma colaboração multilateral, pensando na paz, no diálogo, nas mais jovens gerações, no desenvolvimento sustentável, no desafio das alterações climáticas, mas também no direito internacional e nos direitos humanos”.

Quanto à relação concreta entre os dois países, o desejo que Marcelo deixou ao lado do Presidente indiano — que se manteve em silêncio — foi que o plano que existe é de uma maior “cooperação económica, tecnológica, científica e cultural”. Depois seguiu para o encontro com o primeiro-ministro Narendra Modi. Os jornalistas também, mas o acompanhamento do encontro em Hyderabad House foi nulo. Um aperto de mão prolongado para todas as câmaras registarem e Marcelo e Modi desapareceram para o encontro e o almoço.

Nem uma palavra, neste primeiro dia, dos líderes indianos. E de Modi não há mesmo nada mais previsto nesta visita de Estado. Na Índia, a comunicação social queixa-se de raras ou nenhumas vezes ter conferências de imprensa com hipótese de perguntas ao seu primeiro-ministro (que nomeia o Presidente da República). Em Hyderabad House as regras de segurança são bem mais apertadas do que no Palácio Presidencial. Os jornalistas portugueses tiveram de passar cinco barreiras de segurança, com todo o material de reportagem analisado por várias vezes e marcado com autocolantes. Lá dentro, ainda nem tinham chegado os dois líderes políticos para a breve passagem pelo claustro do edifício e já o staff de Modi se multiplicava em pedidos de silêncio mal surgia alguma conversa.