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Era algo que “nunca se tinha visto na Antártida”. Na última sexta-feira, uma equipa de cientistas brasileiros da Terrantar, uma organização que estuda o impacto das alterações climáticas na fauna e no permafrost da Antártida, anunciou que, a 9 de fevereiro, havia registado a temperatura mais alta de sempre naquele continente: 20,75ºC, mais três graus que a temperatura máxima registada em Lisboa nesse dia.

Carlos Schaefer, o cientista brasileiro que contou a notícia à Agence France-Presse (AFP), explicou que esse registo “carece de valor como tendência de uma alteração climática” e era um “dado para investigação”, mas que podia ser interpretado como “um sinal de que algo estava a acontecer na região” porque “nunca se viu na Antártida um registo deste tipo”.

Apesar de esta ser realmente a temperatura mais alta alguma vez registada naquele continente — os valores ainda carecem de confirmação pela Organização Meteorológica Mundial — é enganador sugerir que toda a Antártida tenha estado debaixo de uma temperatura tão elevada naquele dia.

O próprio cientista Carlos Schaefer ressalva que essa medição foi captada pelos termómetros na ilha de Seymour — uma região que compõe apenas 1% de todo o território antárctico, que tem uma área 10 vezes maior do que a Austrália. Essa região, que fica no oeste da Antártida, regista tradicionalmente temperaturas mais altas que o leste, a zona mais fria.

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Isso mesmo foi explicado ao El País por Marcelo Leppe, diretor do Instituto Antártico do Chile: “Quando se olha para a variação da temperatura interanual e de décadas encontram-se picos de temperaturas altas e baixas. Estas últimas são as que os céticos usam para negar que haja um aquecimento global, algo sem fundamento. Mas também não é raro encontrar picos altos“.

Ou seja, numa fase em que ainda não há investigações conclusivas sobre o tema, a temperatura de 20,75ºC pode tanto estar relacionada com as alterações climáticas, como também pode ser um fenómeno de microclima. Aliás, há 37 anos registou-se naquele mesmo sítio o anterior recorde de temperatura antártica, que era 0,95ºC inferior ao valor máximo de 09 de fevereiro.

De resto, não são os picos de temperatura como esta que devem preocupar mais os cientistas e a sociedade civil, mas sim a subida das temperaturas médias a longo prazo, nota John Turner, meteorologista do Serviço Antártico do Reino Unido.

Tudo isto é assim assumindo que o registo está realmente correto. Faltam meses até a Organização Meteorológica Mundial confirmar aquela temperatura e, para alguns cientistas, ela pode mesmo estar errada. É o caso de Sergi González, especialista espanhol em clima antártico, que fala de outro fenómeno meteorológico que pode ter confundido os dados registados: o foehn.

Conforme explicou ao El País, o foehn ocorre quando uma corrente de ar húmido atinge uma cordilheira e é forçada a subir: “Ao subir pelo flanco da montanha, o ar húmido arrefece a um ritmo de três graus por quilómetro. O ar condensa, forma uma nuvem orográfica, chove ou neva e, por isso, a massa de ar perde a sua humidade”, começa por descrever o diretor da Agência Meteorológica Espanhola.

Quando volta a descer pelo lado oposto da montanha, a massa de ar está mais seca e aquece cerca de 10 graus por cada quilómetro: “Por isso, o mesmo ar que num lado está a uma temperatura, do lado contrário da montanha está noutra mais quente”, conclui Sergi González. De facto, a ilha de Seymour fica do outro lado de uma cadeia montanhosa e é ao longo dele que o ar mais seco desce, o que pode resultar em medições enganadoras.