Máquinas, projetos fora da caixa e até uma fotografia tirada por um robô logo à entrada. Quando António Costa visitou os projetos e instituições em exposição na Alfândega do Porto, no âmbito do Fórum Permanente para as Competências Digitais, o aparato habitual também o seguia e muitos, principalmente mais jovens, não quiseram perder a oportunidade de mostrar a sua ideia ao primeiro-ministro.

Ainda antes desta visita, Costa subia ao palco na sessão de abertura da terceira edição do Fórum INCoDe.2030 para dar uma garantia: “A nova sociedade digital vai ter um grande impacto”, mas deve incluir todos. Para o primeiro-ministro, o desafio da transição para uma sociedade digital “é uma mais valia para enfrentar todos os outros”, mas deve ser, acima de tudo, “uma oportunidade para combater as desigualdades existentes”.

António Costa, acompanhado do ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e do ministro do Ensino Superior, Manuel Heitor, fez questão de relembrar que Portugal está “acima da média europeia” com as novas gerações digitais mas que, ainda assim, há quem fique de fora. “Depois, há todos os outros: a minha geração, a do Rogério Carapuça [presidente do Fórum], onde o atraso neste nível é absolutamente gigantesco”.

Na semana em que o Governo apresenta o Plano de Ação para a Transição Digital, Costa destaca que, além da importância dos jovens neste plano, há também que ter em conta “os que já estão no mercado de trabalho e aqueles que, tendo saído do mercado, não podem ficar excluídos porque devem poder envelhecer com qualidade”. “Se quisermos vencer este desafio não é pensar que é só com aqueles que estão na linha da frente e deixar os outros para trás. Seria um peso insuportável para os que estão na linha da frente”, acrescenta.

Seis jovens, duas ideias e um projeto que “ultrapassa a sala de aula”

Entre os jovens que tiveram a oportunidade de explicar o seu projeto aos ministros durante a visita à exposição estiveram Rúben Rodrigues, de 15 anos, e Joana Sousa, de 14. Os dois alunos da Escola Básica e Secundária do Levante da Maia, juntamente com outra colega, Filipa Ferreira, criaram a Only Heal, uma aplicação que permite uma ligação mais eficaz entre utentes e farmacêuticos.

Começamos a olhar para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU, e concentrámo-nos no objetivo n.º3: saúde de qualidade. Percebemos que um dos problemas era a falta de conhecimento e excesso de dúvidas sobre doses, regularidade da toma dos medicamentos e percebemos que uma app que juntasse as duas coisas, tanto o contacto direto com o farmacêutico como um sítio para armazenar os planos, seria excelente”, conta ao Rúben ao Observador.

Os três jovens participaram no Apps for Good, um programa lançado pelo CDI Portugal que incentiva professores e jovens entre os 10 e 18 anos a desenvolverem aplicações para smartphones e tablets que contribuam para a resolução de problemas relacionados com a sustentabilidade do mundo. “O projeto já estava implementado na nossa escola e nós sempre seguimos de muito perto o que ia acontecendo. Até que no ano seguinte fomos desafiados a participar”, acrescenta Rúben.

A Only Heal, salienta Joana, “torna mais simples e eficaz a comunicação entre utente e farmacêutico através de um chat onde o utente pode enviar dúvidas e sugestões e pedir conselhos”. “Também podem guardar digitalmente os planos de toma da medicação, em que o utente põe as informações sobre o medicamento e também será avisado com antecedência sobre a hora a que deve tomar”, acrescenta o aluno desta escola da Maia.

Rúben Rodrigues e Joana Sousa criaram a OnlyHeal, Only Heal, uma aplicação que permite uma ligação mais eficaz entre utentes e farmacêuticos (DR)

Os três jovens foram desenvolvendo o projeto de forma extra-curricular e o entusiasmo era tanto que às vezes ficavam “até à uma, duas da manhã a pensar em ideias”. O projeto foi desenvolvido com a ajuda de duas farmácias da comunidade onde o grupo vive e agora o objetivo é tirar a ideia do papel. “O nosso sonho sempre foi que esta app fosse para o mercado e que fosse útil”, explica Joana. O grupo está a tentar arranjar um investidor, depois de ter despertado o interesse na Web Summit deste ano, evento onde marcou presença.

Na mesa mesmo ao lado da Only Heal, e também vindos da mesma escola, estão Rita Polido e Gonçalo Rocha, de 14 anos, para dar a conhecer a MustBeGreen, uma app gratuita que pretende ajudar a encontrar empresas para limpar terrenos, de acordo com a localização. “Dada a lei que foi implementada em 2018 sobre a falta de limpeza dos terrenos, tentamos ajudar e criar uma app que conseguisse facilitar a comunicação entre os proprietários, arrendatários ou entidades que tenham terrenos à volta das suas instalações e as empresas dedicadas a este serviço de limpeza florestal”, conta Rita ao Observador.

No protótipo desenvolvido da app, o cliente pode solicitar orçamentos e comunicar via chat com os responsáveis das empresas, passando o trabalho agora por tentar localizar todas as empresas e estabelecer parcerias com juntas de freguesias para ajudarem na lista e colocar o projeto no mercado.

O cliente tem acesso a uma lista de empresas que se situam na sua residência, onde se localiza o terreno, ou perto da mesma. Por exemplo, se tiver um terreno em Lisboa e quiser limpar o meu terreno em Lisboa e mandar uma empresa de cá para limpar um terreno em Lisboa, ia custar muito porque as localizações são um pouco separadas e ia custar o transporte. Desta forma, vai ser muito mais eficaz uma limpeza de um terreno que se encontra mais afastado”, sublinha Carolina.

Foi quando as notícias dos incêndios florestais “começaram a estar em todo o lado”, que os dois jovens, juntamente com Carolina Oliveira, decidiram pensar como é poderiam ajudar a comunidade. “Foi aí que surgiu a ideia”, referiu Gonçalo. O mais difícil foi o trabalho em equipa, “porque às vezes as ideias entre os membros do grupo não eram iguais”.

Estar naquela mesa de exposição e num evento dedicado às competências digitais, explicam, é “uma homenagem muito grande” ao trabalho que foram feito durante vários meses. “Saber que chegamos aqui é muito bom”, diz Carolina.

A equipa da Only Heal e da MustBeGren com Pedro Siza Vieira e António Costa (DR)

Emerência Teixeira, professora de Ciências Naturais, foi a responsável por trazer a Apps for Good à escola destes dois grupos e destaca o “dinamismo e resiliência” dos alunos ao longo de todo o processo, algo que vai muito além de uma simples aula: “Havia aspetos da criatividade deles que eu não me teria apercebido se não trabalhasse com eles desta forma. São alunos que são capazes de elaborar um plano de negócios, de elaborar um estudo de mercado, de fazer um plano de marketing. Portanto, ultrapassa muito a sala de aula”.