O presidente da Associação dos Amigos do Coliseu do Porto alegou razões de “dignidade e confiança” para renunciar ao cargo que ocupa desde 2014, cujo mandato termina a 30 de abril, após ter sabido da sua substituição pela comunicação social.

Numa carta, a que o Observador teve acesso esta quarta-feira, o representante da Área Metropolitana do Porto (AMP) na Direção da Associação dos Amigos do Coliseu, Eduardo Paz Barroso, que se encontra a cumprir o segundo mandato, refere ter solicitado à Área Metropolitana do Porto (AMP) a confirmação dessa notícia e indicações sobre a operacionalização da anunciada alteração de representante.

“Soube na sexta-feira passada pela comunicação social que a AMP iria designar um outro representante para o Coliseu. Contactei de imediato a AMP no sentido de saber se essas notícias se confirmavam. Não obtive qualquer resposta e na segunda-feira demiti-me das funções que exerço, como presidente da direção e também das relativas à AMP”, explica em declarações ao Observador.

Eduardo Paz Barroso fala ainda de confiança. “Quando se toma conhecimento de uma decisão destas pela comunicação social é porque não confiam em mim. Ninguém me chamou para dizer que ia ser substituído nestes termos. Teria sido muito melhor para mim, porque eu só me manteria em funções porque havia compromissos que era preciso continuar a gerir.”

No dia 28 de fevereiro, a AMP aprovou, por unanimidade, indicar o nome de Maria João Castro para a representar na direção da Associação Amigos do Coliseu, para o triénio 2020-2023. A vereadora substituta da Câmara do Porto, pelo Partido Socialista, vai suceder a Paz Barroso enquanto representante da Área Metropolitana, faltando agora ao Estado, neste caso ao Ministério da Cultura, designar quem propõe para a direção e presidência.

O representante da AMP na Direção da Associação dos Amigos do Coliseu acrescenta que a sua demissão, “produzirá efeitos no último dia próximo mês de abril”, sem prejuízo de solicitar que, “com a urgência que o caso reclama, diligenciem pela efetivação” da sua substituição “no mais curto lapso de tempo possível, já que existem compromissos e decisões da Associação que é necessário acautelar”. A decisão, refere Paz Barroso, foi já comunicada aos demais membros da direção, ao presidente da Mesa da Assembleia Geral e ao presidente do Conselho Fiscal da Associação dos Amigos do Coliseu do Porto.

Conselho Municipal de Cultura do Porto aprova concessão do Coliseu

Questionada pela Lusa, a AMP explica que escolheu Maria João Castro como elemento da nova direção, a ser eleita na Assembleia Geral, “uma vez que a atual está em fim de mandato”. A Área Metropolitana do Porto assinala que “não substituiu o Dr. Eduardo Paz Barroso, que completaria integralmente, em condições normais, o mandato para o qual foi eleito”. Nos dois anteriores mandatos, liderados por Paz Barroso a decisão de o indicar como presidente coube, primeiro, à Câmara do Porto e, no segundo mandato, à Área Metropolitana.

Contactado pelo Observador, Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da AMP, esclareceu que “só depois da acta da assembleia ser aprovada”, o que acontece esta sexta-feira, é que o presidente deverá ser informado. “Uma vez que as assembleias são públicas, e a comunicação social está presente, é natural que ele tenha sabido antes.” “Não se trata de uma substituição, não lhe retiramos a confiança política”, assegura o presidente da AMP.

“O Coliseu estava numa situação difícil, hoje está num excelente momento a todos os níveis”

Paz Barroso chegou ao Coliseu em setembro de 2014, depois de José António Barros, que ao fim de 18 anos no cargo, colocou o seu lugar à disposição nesse mesmo mês motivada pela falta de uma solução para o financiamento do Coliseu. “Sei que houve varias tentativas para encontrar alguém que viesse assumir as responsabilidades de devolver o Coliseu à cidade e de traçar um novo. O Coliseu estava nessa altura numa situação difícil (…) hoje está num excelente momento a todos os níveis, trabalha a ligação entre a vertente do mercado e a vertente do serviço publico da cultura”, defende o também professor universitário.

Ao longo dos últimos seis anos, Eduardo Paz Barroso entendeu que uma das suas obrigações seria a questão das obras. “Tive também a responsabilidade de promover junto de todos os interlocutores, especialmente os públicos que têm uma presença maioritária na direção do Coliseu, para que fossem encontradas soluções. Na verdade, o Coliseu nunca teve uma grande obra de requalificação profunda e estrutural.

Relativamente ao futuro, Paz Barroso considera que a decisão concessionar a sala de espetáculos “é legitima e respeitável”, mas “predominantemente de tipo comercial”, no entanto espera que ela possa “conduzir a uma requalificação”. “No quadro de uma concessão eu não tenho perfil para estar a frente do Coliseu nesse contexto, desde logo e sobretudo porque fui exercendo muito trabalho de direção artística, de programação, de relação a com espetáculos de acolhimento”, diz, destacando as parcerias inéditas com o Teatro Nacional de São Carlos, a requalificação artística do Circo e a exposições que homenageiam o património.

Paz Barroso admite ter sido chamado uma única vez ao gabinete do presidente da Câmara Municipal do Porto, em dezembro de 2019, onde foi informado da intenção dos poderes públicos de concessionarem o Coliseu. “A partir daí, o presidente do Coliseu nunca foi incluído em nenhum tipo de discussão, a não ser as minhas idas ao Conselho Municipal de Cultura, onde fiz duas intervenções que penso que foram significativas.”

Porto. Rui Moreira admite outras possibilidades para o Coliseu que não a concessão a privados

Contactada pelo Observador, a Câmara Municipal do Porto diz que não irá fazer nenhuma declaração oficial sobre esta demissão. Na sexta-feira, na última reunião da AMP, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, revelou que vai propor que Nuno Lemos, que foi administrador da Porto Lazer e que ocupa atualmente um cargo de direção na empresa municipal Águas do Porto, seja reconduzido no cargo que já ocupava, como vogal da direção. O independente anunciou ainda que vai levar o assunto a reunião do executivo de dia 9 de março, antes da Assembleia-Geral dos Amigos do Coliseu marcada para dia 13, onde se irá debater a decisão sobre a concessão do Coliseu.

O presidente espera sair antes de abril, no sentido de se “desvincular completamente” de um cargo que, afirma, “sempre esteve à disposição”. “Uma associação como o Coliseu aplicam-se normas legais semelhantes às sociedades comerciais, isto quer dizer que legalmente ainda poderei ser obrigado a partir de segunda-feira ficar em funções até ao final do mês de abril. Espero que isso não aconteça.”

Quando deixar a presidência, Eduardo Paz Barroso continuará a dar aulas e promete continuar ligado, “de uma forma ou mais ou menos evidente, a projetos culturais e artísticos”. Sobre a possibilidade de assumir a direção de outros equipamentos culturais na cidade, garante que o Porto tem feito “coisas extraordinárias” do ponto de vista artístico, “nomeadamente por iniciativa camarária”, mas que neste momento todos os equipamentos “estão muito bem entregues”.